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CONHEÇA MARCOS LAZARINI
CONHEÇA MARCOS LAZARINI, O AUTOR DE “ÁGUA NA BOCA”
01 – Como você se tornou um autor de telenovelas? Conte um pouco de sua trajetória.
No início dos anos 90, conheci e tornei-me amigo de Walter George Durst, um dos mestres da teledramaturgia nacional, autor de "Gabriela", "Nina" e minisséries como "Anarquistas, Graças a Deus" e "Grande Sertão: Veredas". Durst gostou dos meus roteiros e me chamou para colaborar com ele. Trabalhei com ele até a sua morte, em 1997, e fizemos juntos "Tocaia Grande" e "Os Ossos do Barão", além de vários outros projetos que não chegaram a sair do papel. Curiosamente, nunca pensei em fazer novelas, queria escrever minisséries com e como o Durst. Então, num momento da carreira dele em que estava consagrado como o maior autor de minisséries do país, o Walter decidiu voltar a fazer novelas. Não entendi a razão. Até que fizemos a primeira e aí, afinal, percebi, fascinado, o que o motivou a voltar a fazer algo que exige demais do autor, física e mentalmente. Escrever uma novela é levar ao limite todas as capacidades de um autor na condução de uma história e isso é muito desgastante, mas também é uma jornada incrível. Pelo lado pessoal, a família sofre: é praticamente um ano afastado de tudo e de quase todos, convivendo mais com gente de mentira (que tenho que tornar verdadeira) do que com amigos e filhos. Desde que comecei a escrever para televisão, além das novelas com o Durst, fiz a minissérie "Capitães de Areia", adaptação de Jorge Amado para a própria Band, "Vidas Cruzadas" na TV Record, assumi no meio "Seus Olhos" e escrevi uma livre adaptação para "Os Ricos Também Choram", ambas no SBT. Nos últimos três anos, depois que um roteiro meu ganhou um prêmio na Espanha, me dediquei mais ao cinema. Graças à Fundación Carolina e a Casa De America, passei uma temporada na Espanha desenvolvendo o roteiro "Domingo no Parque". Esse roteiro, também selecionado para o Laboratório Sesc de Roteiros, ainda não foi produzido mas tenho outros dois roteiros de longa em fase de produção. O primeiro, uma comédia romântica chamada "Casamento Brasileiro", já está sendo filmado, e o segundo, uma adaptação do memorável romance "Memórias de um Gigolô" do grande Marcos Rey, está com produção prevista para este ano.
02 – Como pintou o convite para escrever uma novela na Band?
Conheço o Del Rangel há uns 10 anos e a gente sempre se admirou mutuamente. Chegamos a trabalhar juntos na Record por algum tempo, mas não tivemos a oportunidade de tocar um projeto desde a concepção até a realização. Nesse espaço de tempo, tentamos fazer alguma coisa, mas sempre, seja por problemas de agenda seja porque ainda não era a hora, não deu certo. O importante é que nunca desistimos um do outro. Afinal, no segundo semestre do ano passado, o Del me convidou para pensar numa história que substituísse “Dance, Dance, Dance”. Gostei do que conversamos e decidi que era a hora de deixar o cinema um pouquinho de lado e voltar a, como dizia o Durst sobre escrever novela, “atravessar o canal da Mancha a nado”.
03 – E como surgiu a idéia da novela “Água na Boca”? O que te inspirou?
O Del me apresentou a Elisabetta Zenatti e partiu dela a sugestão do universo da história, que me agradou instantaneamente. Engraçado foi que o nome da novela surgiu já nesse primeiro encontro, antes de eu ter pensado e escrito uma linha sequer da sinopse. “Água na Boca” foi o nome aprovado na hora para uma história que ainda nem existia. O processo de criação da novela incluiu uma primeira fase de pesquisa e absorção do universo. Queria, antes de desenvolver a história, capturar um clima. Assim, li rapidamente todo livro que pude achar dentro do tema, visitei restaurantes e suas cozinhas, revi ou vi pela primeira vez vários filmes. Grandes filmes como “A festa de Babette”, pequenas grandes jóias como “O Tempero da Vida”, “Chocolate”, “Como Água para Chocolate” e “Dinner Rush” (que no Brasil levou o inacreditável título “Uma Receita para a Máfia”), entre outros filmes menores mas não menos interessantes. Novela é algo incomensurável, cabe uma representação do mundo dentro do formato, e comer/cozinhar é uma metáfora riquíssima para a própria vida. Todos nós precisamos comer, mas é fascinante como a elaboração de um prato se assemelha muito ao processo de criação artística. Mesmo os pratos mais rústicos e populares evocam sabores e sentimentos poderosos. Optei por uma linha central típica de comédia romântica que incluísse personagens e histórias capazes de explorar outras camadas de emoção. Como percepção geral, buscava uma novela leve, saborosa e moderna. Espero ter conseguido.
04 – Por que escrever esta história?
Contar histórias, qualquer que seja o meio, é buscar metáforas que sensibilizem o público. Ao construir personagens, situações e histórias dentro do universo definido, fui me dando conta da força da metáfora embutida no gesto de preparar uma refeição para si ou para outros. Apesar de, tradicionalmente, vincular-se uma novela fundamentalmente à sua trama, acredito muito na força dos personagens. Pense nas grandes novelas, que resistiram ao tempo: você vai se lembrar primeiro é do personagem. São os personagens de “Água na Boca” que me estimulam diariamente a seguir em frente com a história. A busca por novas situações capazes de investigar e apresentar facetas e emoções diferentes dessa gente de ficção é o que me move. E, confio, é o que moverá o espectador durante toda a exibição de “Água na Boca.
05 – O que você destacaria entre as diferentes tramas da novela?
Naturalmente, acredito muito na trama central que explora a rivalidade entre duas famílias e o turbulento romance entre Luca e Dani. Não me importa se essa história já foi contada antes, todos os temas já foram explorados antes – a maior parte pelos gregos. Para mim, o pulo do gato sempre está na narrativa, na maneira como os personagens são desenvolvidos e a história contada. A mágoa e o ressentimento que separam as duas matriarcas dessas famílias (Maria Bellini e Françoise Cassoulet) foi construída em cima de uma amizade pura e forte. Ou seja, não tem aquilo de inimigas antes mesmo de nascerem. Isso me permite explorar uma profunda ambigüidade de sentimentos, me permite humanizá-las. Temos um núcleo de nordestinos bem sucedidos em São Paulo, a maior cidade nordestina do Brasil. Posso estar enganado, mas isso me parece uma novidade – claro que já temos uma galeria formidável de personagens com essa origem mas, salvo engano, todos em histórias regionais. Temos personagens do Mercadão, fornecedores dos restaurantes, também de diferentes origens: tem gente do interior de São Paulo, portugueses e até japoneses. Temos um grupo de sem-teto, um deles com um passado misterioso que será pouco a pouco desenvolvido – é impressionante como, desde o Plano Collor, gente com a vida estruturada acabou indo parar nas ruas para nunca mais sair. No núcleo do Cursinho, abordamos uma fase crucial na vida de todo jovem, o momento da reflexão (ou da confusão) sobre o futuro. Enfim, confio muito em todos os personagens, sem exceção. Todas as histórias só são bem-sucedidas se os personagens forem críveis e bem construídos.
06 – Por que abordar o universo da gastronomia?
É mais abrangente do que isso. Claro, e isso é um tremendo diferencial, vamos entrar nas cozinhas dos restaurantes de uma maneira nunca vista antes numa novela. Tenho a consultoria de um chef que também é roteirista (o Eduardo Duó) e ele está empolgado pela maneira como estamos abordando esse universo. Mas, como disse antes, vamos além do fenômeno da gastronomia – que vive um boom no Brasil e no mundo. Falamos dos sentimentos associados à escolha dos ingredientes e temperos, da generosidade implicada no gesto de alimentar alguém seja num restaurante seja em casa, recebendo amigos. Quem não associa grandes momentos da vida a uma refeição em família ou entre amigos? O alimento dessa novela não é só para o corpo, é para nossa alma.
07 - E você cozinha? Sabe fazer alguns dos pratos que aparecem na novela?
Gosto de acreditar que adoro cozinhar. Quase nunca cozinho, é verdade, mas nas poucas vezes que tomei coragem e fui pra cozinha, até que me saí bem. Vivo adiando a idéia de fazer cursos de gastronomia, quem sabe depois da novela eu não me anime? Quanto aos pratos, acredite, enquanto escrevo me sinto o próprio chef. Mas mal acabo o capítulo, caio na real e estou morto de fome.








