Sábado, 23 de janeiro de 2010 - 08h16
EUA temem democracia no Haiti, diz analista
Foto: AFP
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Fernando Serpone

Os Estados Unidos não querem a democracia no Haiti. Washington teme que o país mais pobre das Américas, arrasado por um terremoto no último dia 12, tenha um governo que eles não controlem. Essa é a opinião de Mark Weisbrot, doutor em economia pela Universidade de Michigan e codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington.

De acordo com o analista, esse é o motivo que levou Washington a participar das sucessivas deposições do ex-presidente haitiano Jean Bertrand-Aristide, em 1991 e 2004. Os EUA “não querem que os haitianos escolham seu próprio governo, eles rejeitam isso há 20 anos”, disse, em entrevista ao eBand.

Weisbrot afirma que a política do governo Barack Obama para a América Latina é “quase 100%” continuidade da administração de George W. Bush (2001-2009). Para o analista, o Brasil deve “reconsiderar seu papel no Haiti e não ser um instrumento dos EUA”. “Os EUA não têm os interesses da região ou dos haitianos como sua prioridade.”

Ele diz ainda que o Brasil deveria desistir dos esforços por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas "Os EUA nunca irão permitir isso, principalmente agora".

Leia a seguir trechos da entrevista:

eBand – Qual foi o interesse dos EUA na deposição de Aristide?

Mark Weisbrot –É uma questão que tem uma história de um século e meio de deposição de governos democraticamente eleitos por parte dos EUA. Inclusive o Brasil, em 1964, que eles também apoiaram.

É verdade que as instituições mudam com o tempo, mas podemos ver agora muito claramente, pela continuidade da administração Obama da administração Bush na América Latina, que é quase 100%, de que as instituições mudam muito lentamente.

eBand – No Brasil, afirmava-se que o golpe era para conter a “ameaça comunista”.

Weisbrot – Não creio que o comunismo fosse uma ameaça real no Brasil em 1964, ou no Chile em 1973 – eram sócio-democracias, e assim era o Haiti com Aristide. Vendo com cuidado a história de Aristide, houve um grande esforço, de sucesso, pra marcá-lo como ditador.

Ele foi o presidente mais democrático que o Haiti já teve. Ele teve seus problemas, mas se você analisar qualquer registro, houve muito pouca violência política durante seus mandatos, se comparado a qualquer outro, inclusive com o regime instalado em 2004, que matou milhares de pessoas e colocou seus opositores políticos na cadeia. 

eBand – O senhor afirma que os EUA não querem democracia no Haiti.

Weisbrot – É disso que eles realmente têm medo. Eles não sabem o que aconteceria se houver um governo que eles não controlem. Eles não gostavam de sua relação com Cuba. Há dois padrões aqui. O Brasil pode fazer o que quiser em relação a Cuba e em política internacional. Não há nada que os EUA possam fazer a respeito. Mas se um pequeno país pobre tentar fazer a mesma coisa, eles irão esmagá-lo.

eBand – O senhor crê que está relacionado a Cuba também?

Weisbrot – É o princípio básico. Os EUA, quando tiverem a oportunidade, irão se livrar de qualquer governo de esquerda. A mesma coisa ocorreu em Honduras. Não sabemos qual era o envolvimento nos EUA naquele golpe [2009], mas eles fizeram tudo que podiam para ajudar os golpistas uma vez que acabou.

Oficialmente, eles estavam contra o golpe, mas então eles bloquearam os esforços da Organização dos Estados Americanos para tomar uma posição mais forte pela volta do [presidente deposto, Manuel] Zelaya. Isso é a política americana, não mudou em muito tempo.

eBand – Os EUA podem aproveitar a situação para manter uma presença militar no Haiti?

Weisbrot – É bem possível. Se eles conseguirem, se não enfrentarem resistência de países como o Brasil e o resto da América Latina, é muito provável que mantenham uma presença militar pelo tempo que puderem.

eBand – Essa presença teria um objetivo específico?

Weisbrot – Qual é o objetivo de sua crescente presença na Colômbia? Qual é o objetivo dos 600 homens que mantêm em Honduras? É tudo parte do esforço para ter o máximo de poder possível na região, e a habilidade de projetar poder militar.

eBand – Há uma razão específica para os EUA controlarem o espaço aéreo do Haiti?

Weisbrot – Sim, eles definitivamente não querem Aristide de volta, não querem que os haitianos escolham seu próprio governo, eles rejeitam isso há 20 anos. Eles depuseram Aristide pela primeira vez em 1991. Aristide não é tão radical assim, ele queria negociar com os EUA, fechou vários acordos com Clinton quando voltou, em 1995, só que não era bom o suficiente. Eles não confiavam o suficiente nele.

E a França também agravou a situação. No 200º aniversário da independência do Haiti [em 2004], Aristide começou a falar em reparação. Não foi só a escravidão, eles os fizeram pagar por sua própria escravidão. Até o meio do século 20 eles ainda estavam pagando. Essa é uma questão que a França não queria ouvir a respeito. [O Haiti teve de reparar os fazendeiros franceses que foram expulsos do país com a independência].

eBand – Como o senhor avalia o governo atual?

Weisbrot – Eles não são cidadão livres. Eles têm de fazer o que os EUA dizem. Esse é o papel do [presidente, René] Préval. O tremor ocorreu há uma semana e ele não fez uma declaração oficial sobre o ocorrido.

eBand – Qual é a sua opinião sobre a presença militar no país?

Weisbrot – É tão infeliz quanto [o governo], há muitas pessoas lá como uma força de ocupação também. Eles chegaram após o golpe, e creio que o Brasil deve reconsiderar seu papel e não ser um instrumento dos EUA. Os EUA não têm os interesses da região ou dos haitianos como sua prioridade.

eBand – Estamos prestes a mandar mais homens, então a presença só irá aumentar. No Brasil, essa presença é vista como uma forma de ganhar maior proeminência internacional, tendo em vista um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Weisbrot – Isso não irá acontecer, creio que eles deveriam desistir disso. Posso lhe garantir. Os EUA nunca irão permitir isso, principalmente agora. Talvez há alguns anos atrás houvesse uma chance, mas o Brasil tem sido muito independente dos EUA, e ainda aumenta a demanda pelo ingresso de outros países, como a Índia, algo que eles também não querem.

Por isso que o Conselho de Segurança não mudou em todos esses anos, porque os americanos e os europeus não querem. Os europeus são o mesmo que os EUA nessas questões, não há diferença significativa.


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