Algodão tenta renascer no Paraná após perder 99% da área plantada
Estado já liderou a produção nacional; produtores agora apostam em tecnologia, rotação e fibras naturais.

Seagri/SP | Arquivo
O Paraná, que já foi o maior produtor de algodão do Brasil, tenta recuperar espaço em uma atividade agrícola que praticamente desapareceu das lavouras do estado nas últimas décadas. Na safra 1991/92, eram 709 mil hectares cultivados. Atualmente, a área destinada à cultura é de apenas 1,7 mil hectares, uma redução superior a 99%.
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Apesar da queda histórica, produtores rurais estão voltando a investir no algodão, impulsionados pelos avanços tecnológicos, pela possibilidade de diversificar a produção e pelo interesse crescente em fibras naturais.
Em Santo Inácio, no Norte do Paraná, o produtor Ricardo Padulla arrendou 35 hectares para iniciar o cultivo. A previsão é começar a semeadura até a primeira quinzena de novembro.
"É uma cultura que se adapta bem ao solo de arenito e que tolera as adversidades climáticas que a gente tem, como os veranicos. Então, acredito que o algodão se adapte até melhor do que a soja na nossa região. E como é uma cadeia bem-organizada, resolvi apostar", conta o produtor.
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Paraná já teve 709 mil hectares de algodão; hoje são apenas 1,7 mil
A história da cotonicultura paranaense foi marcada por uma transformação profunda.
Na safra 1991/92, o Paraná respondia por 36% da área nacional destinada ao algodão, ocupando a liderança brasileira na produção.
O cenário mudou com a infestação do bicudo-do-algodoeiro, a expansão das lavouras de soja e as dificuldades econômicas enfrentadas pelos agricultores.
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Atualmente, a área cultivada corresponde a apenas 0,2% daquela registrada no auge da atividade.
A tentativa de recuperação ocorre em um momento de expansão da produção brasileira. Segundo estimativa da consultoria Agroconsult, o Brasil deve superar quatro milhões de toneladas de pluma na safra 2025/26, um recorde histórico.
O país também ocupa a posição de maior exportador mundial de algodão.
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Produtores apostam no retorno do algodão ao Paraná
O presidente do Sindicato Rural de Maringá, José Antônio Borghi, cultiva algodão há três safras, utilizando a cultura em rotação com a soja.
Nesse período, ampliou a área plantada de 20 para 100 hectares, após avaliar os resultados econômicos da atividade.
"O Paraná pode aproveitar essa oportunidade para se restabelecer na produção de algodão, por ser extremamente diversificado na produção rural e por já ter sido o maior produtor de algodão do Brasil. Temos uma oportunidade boa de voltar a trabalhar com essa cultura", afirma.
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Em Ibiporã, no Norte do estado, o produtor Getulio Frederico Neto também investe na atividade. Ele está no terceiro ano de produção de algodão em rotação com trigo e conta com a assistência da Associação dos Cotonicultores Paranaenses (Acopar).
A entidade oferece orientação sobre escolha de cultivares, manejo do solo, adubação e comercialização, além de apoio com máquinas para colheita e transporte.
Algodão pode aumentar produtividade da soja em até 20%, diz especialista
Além de representar uma alternativa econômica, o algodão pode trazer benefícios para outras culturas quando utilizado na rotação de lavouras.
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Segundo Wilson Paes, consultor da Acopar e ex-pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), a cultura ajuda a interromper ciclos de pragas e doenças e favorece as condições do solo para os plantios seguintes.
"Após uma lavoura de algodão, a produtividade da soja tende a aumentar até 20%. Então, podemos dizer que o algodão aumenta a lucratividade do produtor de soja", afirma.
O especialista destaca, porém, que a cotonicultura exige maior acompanhamento técnico, principalmente pelo ciclo mais longo e pela necessidade de monitoramento constante de pragas.
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Para os agricultores, a diversificação também representa uma forma de reduzir riscos associados à dependência de uma única cultura.
Preocupação com microplásticos abre espaço para fibras naturais
A retomada do interesse pelo algodão também está relacionada às discussões sobre sustentabilidade na indústria têxtil.
Tecidos sintéticos, como poliéster e nylon, podem liberar microplásticos durante a lavagem. Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), cerca de 35% dos microplásticos presentes nos oceanos têm origem na lavagem de tecidos sintéticos.
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Esse cenário tem ampliado o debate sobre alternativas de fibras naturais.
Durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em setembro, em Belo Horizonte, o gerente de Políticas Públicas e Advocacy do WWF-Brasil, Michel Rodrigues dos Santos, destacou a necessidade de soluções que envolvam diferentes setores produtivos.
O evento contou com uma comitiva de 20 produtores paranaenses, organizada pelo Sistema Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), em parceria com a Acopar.
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A discussão sobre microplásticos não significa que a produção de algodão seja livre de impactos ambientais, mas reforça o interesse do setor por materiais alternativos às fibras sintéticas.
FAEP vê oportunidade para recuperar produção de algodão
Para o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, a combinação entre tecnologia, assistência técnica e demanda por fibras naturais cria condições para que o Paraná volte a ampliar sua participação na cotonicultura brasileira.
"A busca por fibras naturais e o debate sobre a sustentabilidade abrem uma janela de oportunidade para o Paraná. O algodão já teve um papel histórico no nosso Estado e, hoje, com tecnologia, assistência técnica e organização da cadeia, temos todas as condições de reconquistar esse espaço e agregar ainda mais valor à produção paranaense", avalia.
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Apesar do otimismo, a recuperação da atividade ainda parte de uma área cultivada muito pequena em comparação com o passado.
O desafio dos produtores será ampliar as lavouras, manter a rentabilidade e consolidar uma cadeia produtiva capaz de sustentar o crescimento do algodão no Paraná.
