Brasil quer reativar 10 mil km de ferrovias; veja os desafios
Ministério dos Transportes aposta em linhas curtas para integrar malha ociosa a portos e rodovias

Ricardo Botelho/Minfra
O governo federal prepara uma ofensiva para tentar resgatar parte da malha ferroviária que foi abandonada ou perdeu relevância logística ao longo das últimas décadas. Uma estratégia apresentada pelo Ministério dos Transportes pretende reativar cerca de 10 mil quilômetros de trilhos subutilizados, desativados ou em processo de devolução, abrindo espaço para investimentos da iniciativa privada.
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A aposta inicial está concentrada em sete projetos de shortlines — ramais de menor extensão projetados para atuar como pontes alimentadoras, conectando polos regionais de carga aos grandes corredores estruturantes do país. Entre os destaques da carteira está o Corredor Minas-Rio, trecho de cerca de 700 quilômetros com vocação para escoar café e produtos siderúrgicos.
Malha menor do que nos anos 1950
O plano de reativação expõe um descompasso histórico entre a expansão econômica do Brasil e o avanço dos seus trilhos.
A primeira ferrovia do país foi inaugurada em 1854, com apenas 14 quilômetros, no Rio de Janeiro. Em 1922, a malha já somava 29 mil quilômetros, atingindo o auge na década de 1950, com cerca de 37 mil quilômetros.
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Setenta anos depois, no entanto, o país opera em um patamar inferior ao daquela época: atualmente, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) regula cerca de 30,7 mil quilômetros de malha concedida.
Por que os trilhos foram abandonados?
Segundo levantamento da Fundação Memória do Transporte (FuMTran), a perda de protagonismo do modal ferroviário decorre de transformações estruturais na economia e na matriz de transportes brasileira.
A partir da segunda metade do século XX, a priorização da malha rodoviária e a migração das fronteiras agrícolas e industriais esvaziaram ramais concebidos para ciclos econômicos específicos do passado. Sem carga suficiente e sem integração com novos polos de consumo e exportação, dezenas de linhas tornaram-se ociosas.
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De acordo com a entidade, a existência física dos trilhos não garante, por si só, que um trecho deva ser reaberto.
"Não se trata de recuperar uma ferrovia apenas porque ela existiu no passado. É preciso compreender o papel que aquele trecho poderá exercer daqui para frente. Se houver demanda, integração com os demais sistemas de transporte e planejamento contínuo, uma infraestrutura construída em outro momento da história pode voltar a contribuir para uma logística mais eficiente e competitiva.", afirma Antonio Luiz Leite, presidente da FuMTran. Integração intermodal é o fiel da balança Especialistas e representantes do setor apontam que a viabilidade de cada um dos projetos depende de critérios técnicos rigorosos. Os trilhos precisam ligar origens reais de produtos aos destinos de consumo ou exportação, evitando investimentos em ramais sem escala econômica. O sucesso das shortlines depende da integração direta e eficiente com rodovias, terminais de transbordo e portos e o reaproveitamento da infraestrutura existente pode baratear e acelerar a entrega de trechos em comparação com obras do zero, desde que o estado de degradação da linha não anule essa vantagem financeira. A meta do governo é que o novo modelo de concessão descentralizada permita que trechos hoje abandonados voltem a circular riquezas, aliviando o fluxo de caminhões nas estradas e reduzindo o custo logístico nacional.
