Déficit de armazenagem no Brasil contrasta com modelo agrícola dos EUA
O Brasil bate recordes consecutivos na produção do agronegócio, mas o setor ainda esbarra em um déficit crônico na capacidade de armazenagem da própria safra.
O Brasil bate recordes consecutivos na produção do agronegócio, mas o setor ainda esbarra em um déficit crônico na capacidade de armazenagem da própria safra. Em análise feita de Decatur, cidade no coração do cinturão agrícola do estado de Illinois, nos Estados Unidos, o ex-ministro da Agricultura Antônio Cabrera alertou sobre as diferenças de planejamento entre as duas potências do campo. Segundo ele, a infraestrutura norte-americana e as decisões políticas históricas mostram soluções para o gargalo logístico que a agricultura brasileira enfrenta.
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De acordo com o comentarista da BandNews TV, a agricultura norte-americana alcança índices suficientes para guardar todo o volume colhido. Na última temporada, a rede logística dos Estados Unidos atingiu de 106% a 115% de capacidade estática. O índice revela que o país consegue abrigar a totalidade dos grãos produzidos e ainda manter sobra física nos silos.
No cenário nacional, o panorama é inverso. Cabrera destacou que a capacidade de armazenamento brasileira chegou a 63% da safra no ano passado. Na prática, isso significa que cerca de 40% do volume total de grãos não dispõe de armazéns adequados no momento da colheita, gerando filas de caminhões e perdas ao longo do transporte.
Armazenagem dentro da fazenda
Outra divergência apontada pelo especialista envolve o armazenamento de grãos no interior da própria propriedade rural, modalidade conhecida no setor como estocagem "dentro da porteira".
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Nos Estados Unidos, 53% das instalações de armazenagem funcionam dentro das fazendas. Já no agronegócio brasileiro, essa proporção alcança apenas 17%, uma capacidade três vezes menor. Essa disparidade retira o poder de negociação do produtor nacional, que se vê forçado a escoar o produto de imediato nas estradas, frequentemente sob tarifas elevadas de frete, em vez de aguardar melhores preços de mercado.
As bases históricas da política agrícola
O modelo norte-americano não surgiu ao acaso. Cabrera explicou que a força do setor nos Estados Unidos mantém ligação profunda com a política local desde o século 19. Em Decatur, uma praça preserva a memória do primeiro discurso político de Abraham Lincoln, realizado em 1832.
Naquela ocasião, o futuro presidente norte-americano defendia melhorias na navegação do Rio Sangamon exatamente para agilizar o escoamento de produtos agrícolas. Três décadas mais tarde, em 1862, durante a presidência de Lincoln, o país consolidou os pilares que sustentam a sua liderança econômica no campo.
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Entre essas medidas governamentais, o ex-ministro destacou a criação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o órgão ministerial do agronegócio no país. Além disso, a legislação federal impulsionou o ensino especializado com a lei conhecida como Morrill Act, responsável por destinar terras públicas e criar universidades com foco em ciências agrárias.
A consolidação da ocupação das terras ocorreu pela lei do Homestead Act, que garantiu a distribuição de propriedades rurais no Meio-Oeste com segurança jurídica. Para Cabreira, a criação de instituições sólidas, o apoio à pesquisa e a garantia à propriedade formam o tripé desse desenvolvimento.
Para o ex-ministro, a experiência norte-americana ensina que não basta ao agricultor atingir recordes de produtividade da lavoura. O agronegócio precisa de ferramentas eficientes para guardar o que produz e valorizar a sua mercadoria.
