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Gado da Índia veio ao Brasil após acordo com marajá e rota no mar

Pecuaristas enfrentaram travessia perigosa em alto-mar para trazer matrizes que transformaram a pecuária brasileira

3 min

14/09/2026 11:09 • Atualizado há 5 horas

Gado da Índia veio ao Brasil após acordo com marajá e rota no mar

O Brasil é hoje um dos maiores fornecedores mundiais de carne bovina, mas a base genética que formou o moderno rebanho bovino brasileiro começou a ser construída no fim da década de 1950, a partir de uma audaciosa expedição internacional. Em reportagem especial do AgroBand, o repórter Gabriel Arantes conta como pecuaristas paranaenses desafiaram barreiras sanitárias e leis vigentes para adquirir reprodutores puros na Ásia e transformar a pecuária nacional.

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Os primeiros passos dessa trajetória estão registrados na Fazenda Cachoeira, situada no município de Sertanópolis, no norte do Paraná. Na propriedade, exemplares da árvore choupala, originária do subcontinente asiático, compõem a paisagem e simbolizam a conexão histórica com a Índia.

O projeto nasceu de forma despretensiosa durante uma pescaria à beira de uma represa, momento em que os criadores Ildefonso Santos e Celso debatiam a evolução da pecuária. Na ocasião, Ildefonso afirmou categoricamente ao parceiro que matrizes com padrão genético superior só poderiam ser encontradas na Índia.

Diante da proibição imposta pelas autoridades brasileiras, que temiam a entrada de enfermidades exóticas no País, Ildefonso recebeu de Celso a garantia de apoio financeiro caso realizasse a viagem. Em 1957, o pecuarista embarcou rumo ao território indiano para viabilizar o plano.

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Já em solo indiano, Ildefonso percorreu diversas aldeias no interior do país para analisar o rebanho local e selecionar animais zebuínos de alta linhagem. A negociação decisiva ocorreu quando ele telefonou ao palácio do marajá de Balnagar para solicitar uma audiência comercial.

O secretário particular do líder falava português e agendou a reunião para as 17 horas do mesmo dia. O encontro estendeu-se até o início da madrugada e garantiu o fechamento do negócio, que incluiu a compra do reprodutor Krishna, exemplar da raça gir.

Para driblar a vigilância dos portos convencionais, os produtores organizaram uma operação logística alternativa. O grupo firmou entendimentos confidenciais com representantes do governo da Guiana Francesa para permitir o desembarque prévio dos animais no território vizinho.

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Os reprodutores foram acomodados no navio dinamarquês Cora para uma jornada marítima de mais de 40 dias pelo Oceano Atlântico. Na chegada ao destino, o calado raso das águas impediu a atracação da embarcação, o que obrigou a tripulação a desembarcar o gado com o auxílio de jangadas.

A permanência clandestina em uma ilha isolada na costa da Guiana Francesa gerou momentos de forte apreensão para os envolvidos. O grupo lidou com a escassez de recursos estruturais, risco constante de doenças tropicais e a apreensão diante da vigilância marítima.

Até mesmo o trajeto de barco até a capital Caiena apresentava sérios perigos por conta do tempo instável. Em relatos sobre a travessia, os tripulantes destacaram que as chuvas intensas e as ondas altas quase provocaram o naufrágio das pequenas embarcações utilizadas nas viagens de apoio.

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A situação tornou-se ainda mais crítica quando correspondentes de imprensa locais descobriram a presença dos animais na região. Com a operação exposta, Celso, Edelson, Neco e Deca foram forçados a traçar uma nova estratégia de emergência para transferir o gado a outro navio.

A ousadia dos pecuaristas viabilizou a introdução de linhagens zebuínas que redefiniram o padrão zootécnico do rebanho brasileiro. Graças à rusticidade e à capacidade de conversão alimentar desses animais no clima tropical, o País consolidou-se nas décadas seguintes como uma das maiores potências globais na produção de carne bovina.

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