Inadimplência no crédito rural de 9,7% é puxada por juros altos
A inadimplência no crédito rural atingiu a marca histórica de 9,7% em agosto deste ano entre produtores pessoas físicas, de acordo com estudo do Centro de

CNA/Wenderson Araujo
A inadimplência no crédito rural atingiu a marca histórica de 9,7% em agosto deste ano entre produtores pessoas físicas, de acordo com estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP). Em dezembro de 2022, esse índice era de apenas 0,8% do saldo total da carteira.
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O levantamento, elaborado pelos pesquisadores Lucilio Alves e GeraldoBarros, cruza dados do Banco Central do Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Banco Mundial entre 2013 e 2026. A análise conclui que o endividamento do campo não cresceu além da capacidade de pagamento do setor, mas encareceu, migrou para instituições privadas e ficou mais concentrado.
Conforme o documento, em 2025 o estoque de financiamentos rurais correspondia a 94% da renda anual da atividade agropecuária. Essa proporção permanece alinhada ao patamar médio de 87% a 109% registrado de 2013 a 2019, período em que a taxa de inadimplência equivalia a um terço do patamar atual.
Juros triplicam a conta financeira do produtor
O encarecimento das operações é o fator determinante para o salto das dívidas atrasadas. A taxa média cobrada da pessoa física subiu de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% ao ano em 2025.
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Com esse avanço das taxas, o valor anual de juros suportado pelos produtores quase triplicou no intervalo de quatro anos. O montante saltou de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, passando de 3,9% para 11,4% de toda a renda da agropecuária nacional.
A pesquisa detalha que o atraso se concentra nas modalidades com recursos livres, especialmente por meio da emissão de Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). As fontes privadas saltaram de 5% dos contratos em 2013 para quase a metade do mercado em 2023.
Como essas operações acompanham diretamente as oscilações da taxa básica de juros (Selic), elas concentram 77% de todo o saldo em atraso no país. O índice de calote atinge 17,6% nas linhas com taxas de mercado, contra 3,8% nos financiamentos rurais concedidos com taxas controladas.
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Queda nas cotações pressiona o mercado de grãos
A retração nas contas atinge com mais força os produtores de grãos. O preço real dessas commodities opera 28% abaixo dos níveis observados em 2021, cenário agravado pela piora na relação de troca entre a produção e a compra de fertilizantes. No segmento de pecuária, a situação é mais favorável.
O estudo ressalta ainda que o índice de inadimplência revela apenas uma fração do passivo financeiro real. A chamada carteira problemática do Banco Central totalizou R$ 205 bilhões em agosto de 2026, montante que equivale a 23,8% de todo o crédito rural concedido.
Cerca de 75% desse saldo total de R$ 205 bilhões passou por renegociações ou prorrogações de prazo. Por causa desse ajuste contratual temporário, esses valores não aparecem nas estatísticas tradicionais de inadimplência bancária.
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Impacto regional e limites de medidas públicas
A distribuição da crise financeira varia de forma expressiva conforme a região e a atividade agrícola:
- O Rio Grande do Sul detém 13% dos financiamentos nacionais, mas responde por 21% da carteira problemática e 27% dos contratos renegociados e prorrogados, registrando inadimplência formal de 3,2%.
- Nos polos de grãos do Centro-Oeste e do Matopiba (região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), as pendências já viraram calote efetivo: a taxa chega a 8,8% em Goiás e supera 15% nos estados do Maranhão e de Tocantins.
Outro ponto de alerta apontado pelo estudo envolve o avanço do investimento fora do sistema bancário formal. As aplicações em melhorias agropecuárias cresceram 71% desde 2019, mas 64% dessa expansão ocorreu fora das linhas tradicionais de crédito rural, utilizando capital próprio, Cédula de Produto Rural (CPR), crédito de fornecedores e contratos de leasing (arrendamento mercantil). As bases estatísticas oficiais não detalham quanto desse montante representa dívida líquida.
A intervenção pública recente gerou efeitos limitados até o momento. A Medida Provisória 1.376/2026 renegociou R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro, montante que corresponde a 5% do volume estimado, com apenas 1,3% direcionado a passivos de investimento.
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Diante do cenário, os economistas recomendam que as soluções não passem por prorrogações generalizadas de prazos. A orientação técnica sugere separar dificuldades temporárias de liquidez (falta de dinheiro imediato em caixa) de problemas estruturais de solvência (patrimônio insuficiente para cobrir as contas), avaliando cada propriedade conforme a realidade de suas planilhas de custos.
