Agroband

Berço da Seleção Brasileira, Granja Comary já foi fazenda de galinhas e rãs

Conheça a história da propriedade, localizada em Teresópolis (RJ), que já foi criatório de galinhas francesas, pertenceu a Renato Aragão, e hoje é referência mundial em treinamento esportivo

VIVIANE TAGUCHI

31/05/2026 • 10:00 • Atualizado em 31/05/2026 • 10:34

Fazenda Comary foi loteada em 1966 antes de se tornar o CT da Seleção

Fazenda Comary foi loteada em 1966 antes de se tornar o CT da Seleção

Reprodução/Clube Comary

Os jogadores de futebol convocados por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo, estão concentrados na Granja Comary, em Teresópolis (RJ). Neste domingo, a Seleção enfrenta o Panamá. O local é mundialmente reconhecido como a casa da Seleção Brasileira masculina e feminina de futebol. Mas, dá pra imaginar que, antes de se tornar o local de treinamento e concentração mais importante do futebol mundial, o espaço já foi uma granja de criação de galinhas?

Compartilhar

Nos anos 1940, a propriedade rural em Teresópolis pertecencia a uma tradicional família da elite carioca, os Guinle. E lá, eram criadas galinhas da raça Bresse, importadas da França, para a produção de ovos e carne considerada de alto padrão.

Inicialmente, o imóvel era registrado como Fazenda Comary, e o nome granja, de acordo com os registros históricos, é apenas decorativo, já que propriedades onde se criam galinhas, recebem esta denominação. Já o nome Comary era o apelido de Gilda Guinle, esposa do empresário Carlos Guinle, proprietário da fazenda.

Registros em cartório relatam que o objetivo de Guinle era tornar a propriedade em uma fazenda modelo para a avicultura. Mas no local, também havia uma área destinada para a criação de raposas, um ranário, para a criação de rãs. Segundo depoimentos de Carlos Tuccimei Guinle, bisneto de Carlos Guinle, o aviário era administrado por um homem chamado Amarildo, que dizia a todos que o local era um “mini zoológico”. Ele mesmo abria as porteiras da propriedade, para visitação pública, aos fins de semana.

A área, situada em uma região privilegiada da Serra Fluminense, manteve a característica rural por pelo menos três décadas, antes ter suas atividades descontinuadas e vendida, após o falecimento do proprietário, em 1969. A propriedade já estava loteada.

Granja Comary já pertenceu ao Trapalhão Didi Mocó

Outro fato curioso na história do CT do Brasil é que, nos anos 1970, um dos lotes da propriedade foi vendido a ninguém menos que Renato Aragão, intérprete do personagem Didi Mocó, de Os Trapalhões. O local começou a ficar conhecido, já que o novo dono mostrou a mansão, chamada de Casa do Lago, ao público. Somente nos anos 1980 que Aragão finalmente vendeu a propriedade à Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Essa transação foi fundamental para a consolidação do projeto do Centro de Treinamento (CT), permitindo que a entidade máxima do futebol brasileiro expandisse a área e iniciasse as obras de modernização. O CT foi inaugurado oficialmente em 31 de janeiro de 1987, tornando-se o quartel-general da equipe nacional em preparações para Copas do Mundo.

Atualmente - e sem lembranças dos criatórios de Bresse - o CT da Granja Comary possui uma área total de aproximadamente 149 mil metros quadrados, com cerca de 8.500 metros quadrados de área construída. O complexo é considerado um dos mais modernos do mundo, oferecendo suporte completo para atletas de elite e comissões técnicas.

Galinha Bresse, a ‘rainha das aves’

A Granja Comary traz em seu histórico um passado ligado à riqueza e até a raça de galinhas escolhida para ser criada lá também tem essa ligação com a riqueza. A galinha da raça Bresse Gauloise é conhecida comercialmente pelo selo Poulet de Bresse, é uma raça de elite francesa celebrada por gastrônomos como a "rainha das aves e a ave dos reis".

Com características físicas estritas que remetem ao símbolo nacional da França, o animal exibe uma crista vermelha, plumagem branca e pés azuis metálicos. Originária da região histórica de Bresse, na França, a raça é a única no mundo a possuir a certificação de Denominação de Origem Controlada (AOC), concedida em 1957.

A certificação AOC é um selo jurídico que restringe o uso do nome comercial apenas para aves criadas na região delimitada na França. Aves da mesma linhagem biológica criadas fora desse perímetro são comercializadas apenas como Bresse Gauloise, sem o prestigiado selo. Atualmente, o processo de seleção genética é centralizado no Centre de Sélection de la Volaille de Bresse, órgão oficial que garante a pureza e o padrão da raça.

Os Guilne optaram por criar a Bresse Gauloise porque, nos anos 1940, ela já era símbolo de riqueza e de grandes banquetes. Mas a ave é uma excelente poedeira e a variedade preta da raça, por exemplo, é capaz de produzir ovos brancos de casca fina que chegam a pesar até 70 gramas. Para a produção de carne, o manejo inclui uma dieta especial na fase final de engorda, que inclui cereais e leite.