
Quem Ama Não Esquece
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Renata conheceu o André em um dia difícil, quando tinha acabado de perder o emprego. Juntos, eles começaram uma vida cheia de amor e vencendo na base do esforço.
Com o tempo, o casal abriu um hortifruti, prosperou e conquistou tudo o que, antes, parecia impossível. Acontece que o sucesso mudou André: ele ficou arrogante, perdeu a empatia e se afastou das raízes.
Renata continuou a mesma, mas viu o homem que amava se tornar um estranho e percebeu que o amor que resistiu à pobreza não sobreviveu ao luxo.
O despertar da ganância
Tem história de amor que tem tudo para acabar em conto de fadas.
Mas a vida, às vezes, escreve outro final... Eu me lembro até hoje do dia em que conheci o André, num daqueles dias de calor infernal em que parece que o mundo vai derreter.
Eu peguei o metrô arrasada porque tinha acabado de perder o emprego e, quando saí na estação, vi aquele homem tão bonito com uma barraquinha vendendo frutas. Acho que ele percebeu que eu estava com uma cara péssima.
– Boa tarde, moça bonita. Vai uma frutinha para espantar o calorão?– Ah, não... obrigada mesmo.– Vai, pega esse potinho de abacaxi. Está doce que só vendo.– Eu realmente não posso agora. Estou sem dinheiro.– É de graça, moça. Presente.– Presente? Por quê?– Porque você está triste. Estou vendo nos seus olhos.
Eu aceitei o presente e nós começamos a conversar. De repente, me vi ali, chorando e contando para um estranho que tinha acabado de ser mandada embora. Na época, eu trabalhava na casa de uma família e eles estavam de mudança para o interior.
O André foi super gente boa, me ouviu, me deu melancia e pêssego para experimentar e fez com que eu me sentisse um pouco melhor. Contou que trabalhava na feira, mas que resolveu montar a barraquinha na porta do metrô por causa do calorão daqueles dias. O papo foi tão bom que trocamos telefone e, depois, continuamos conversando. E foi assim, de um jeito simples e bonito, que a nossa história começou.
Eu e o André começamos a namorar mesmo sem termos absolutamente nada – nem planos, nem certeza de onde estaríamos na semana seguinte. Mas, poucos meses depois, já me mudei para a casinha em que ele morava, e nem um colchão decente a gente tinha.
Era um aperto tão grande que, às vezes, até a esperança faltava, mas a gente tinha um ao outro – e isso era tudo. Dividíamos os boletos, o macarrão instantâneo que, para nós, era tipo um banquete, sonhos, carinhos e as muitas dificuldades do dia a dia.
É... a gente passou muito aperto junto. Tinha mês em que era só conta chegando e o gás acabando. A gente ria para não chorar, saía catando moeda para comprar ovo e dividia o que tinha – até o último gole de café.
Mas a verdade é que o amor crescia junto com a dificuldade. Quando tudo é duro, mas tem amor de verdade, cada conquista vira festa. E a gente sabia valorizar cada vitória, por menor que fosse, como ninguém.
O André sempre foi muito trabalhador, e isso era o que eu mais admirava nele. Meu marido não reclamava, não parava, não descansava e estava sempre feliz.
Acordava de madrugada e ia para a feira com chuva ou sol, tendo dormido ou não, com saúde ou doente. Ia – e ia feliz. Ia com sorriso no rosto, sempre com uma palavra de gentileza para quem estivesse por perto, principalmente para mim. Ele sempre me tratou como uma princesa.
Às vezes, eu pedia a Deus para nos dar uma vida mais confortável, não porque eu quisesse luxo, mas porque o André merecia ser recompensado por tanto trabalho. Não sei se foi Deus que ouviu minhas preces ou se foi só o esforço do André, mas, depois de alguns anos, as coisas começaram a melhorar. Primeiro, ele conseguiu comprar um carrinho para transportar as coisas. Depois, alugou uma vaga fixa numa feira grande. E aí veio o grande passo: ele montou uma segunda barraca e precisou até contratar ajudantes para trabalhar e fazer entregas.
– A gente está vencendo, Renata.– Você é merecedor, André.– Eu não faria nada se não tivesse você do meu lado. Seu apoio sempre foi o maior dos combustíveis.– Então você vai conseguir muito mais, porque apoio nunca vai faltar.– Nós vamos. Nós vamos conseguir. Pode anotar.
Era verdade. A gente estava vencendo. O tempo foi passando e, com ele, vieram mais conquistas – tanto profissionais quanto pessoais. Tivemos o nosso primeiro filho, o Matheuzinho, um bebê forte e cheio de saúde. E a gente ia dando conta.
O André seguia lutando, virando noite, trabalhando dobrado. Eu cuidava da casa, do nosso filho e, quando conseguia, ajudava nas barracas e no serviço de entrega das frutas. A gente se revezava, se apoiava e se completava.
Mas o André começou a pensar e a sonhar grande. Juntou dinheiro, fez um empréstimo e alugou um ponto pequenininho num bairro perto do nosso. Ali nasceu o nosso hortifruti.
No começo, era só um mercadinho simples, improvisado, mas era nosso. E o André cuidava daquilo como quem cuida de um filho. Eu estava lá também, todos os dias, com o Matheus ainda pequeno no colo ou brincando pelo chão.
Talvez Deus tenha mesmo os seus escolhidos... Porque era só um negócio simples – mas o "negócio simples" foi crescendo. E crescendo. E crescendo. Os vizinhos gostavam do jeito do André, e meu marido não media esforços para agradar os clientes.
Depois de um tempo, conseguimos aumentar a loja, depois abrimos uma segunda e, de feira em feira, de loja em loja, o nome do André foi ficando conhecido. As coisas foram melhorando.
Não foi do dia para a noite – nem por sorte. Foi demorado, suado e fruto de muito esforço mesmo. O dinheiro foi entrando, o hortifruti crescendo, os negócios prosperando de uma maneira que eu nunca tinha nem sonhado.
Mas acho que foi aí – mais ou menos aí, quando olhamos para a nossa vida como estava e percebemos que não passávamos mais nenhum tipo de dificuldade – que o André começou a mudar.
Não foi de um dia para o outro, não. Foi sutil. Bem sutil. Tanto que, no começo, eu nem prestei muita atenção. Mas depois, lembrando, vejo que ele começou com uma roupa mais cara, um relógio novo, um jeito diferente de falar...
Começou a escolher as palavras, a tirar sarro das pessoas que falavam “errado”, a reclamar do atendimento em todo lugar que a gente ia. E foi ficando cada vez mais impaciente.
– Não. Não tem como ajudar, não.– Mas, André, a gente conhece o Rafael desde menino. A mãe dele era nossa vizinha. Ele está precisando de uma chance, de trabalho. Você pode colocá-lo em algum dos hortifrutis.– Não, Renata. Eu conheço essa gente. Tudo vagabundo, preguiçoso.– Que isso, meu amor? Por que você está falando isso?– Eu conheço bem a família dele. O pai é um folgado. Se até hoje está morando lá no bairro, é porque é um acomodado que nunca quis subir na vida. Vagabundo não prospera, Renata. Essa é a real. Quem quer moleza, que se conforme com migalha. A vontade de vencer está no sangue, no DNA. Olha o nosso filho – já mostrando que leva jeito para o negócio. Mas esse povo...
– André, o Matheus tem tudo de mão beijada, né? Absurdo você falar isso.– Quem quer, consegue. Eu não consegui? Aquela gente vai morrer naquele fim de mundo porque é um bando de encostado. Eu não quero esse menino trabalhando para mim de jeito nenhum. Quero distância de todo mundo dali. Bando de acomodado. Isso sim.


