A Clara e Daniel tinham um casamento perfeito e um sonho em comum: ter um filho. Após tentativas frustradas, eles decidiram adotar o Lucas, um menino de 6 anos com um passado difícil. A adaptação foi complicada e ele tinha um comportamento agressivo com os pais, que afastou o Daniel. Chegando no seu limite, ele exigiu que a Clara escolhesse entre o casamento e manter a adoção.
Agora, diante de uma decisão impossível, ela se vê dividida entre o amor da sua vida e a promessa de não abandonar o seu filho adotado. Leia abaixo, na integra, o Quem Ama Não Esquece desta quarta-feira, 26/2, da Band FM:
E se um dia você tivesse que escolher entre o grande amor da sua vida e a promessa de um futuro que parecia certo? Às vezes, a vida nos coloca diante de escolhas impossíveis...Eu e o Daniel éramos aquele casal que todo mundo admirava. Desde que a gente tinha se conhecido, realmente parecia que tudo se encaixava. A gente se entendia no olhar, ria das mesmas bobagens, tinha uma sintonia inexplicável, uma conexão que parecia coisa de filme e resolvia qualquer problema sem brigar.Nosso casamento era leve, cheio de carinho e de cumplicidade. Ele era o meu porto seguro e meu melhor amigo e se existia um amor que parecia inabalável, era o nosso. A gente tinha nossas piadas internas, nossas conversas profundas, nossas músicas, nossas manias. Era uma felicidade simples, mas intensa. Eu me sentia completa ao lado dele. Ou quase…"Quase" porque nós também tínhamos um sonho: ter um filho. Mesmo que a gente tivesse aquele amor imenso um pelo outro, ter um filho era uma vontade que a gente tinha desde a época de namoro.Só que por mais que o tempo fosse passando, aquele sonho nunca se realizava. Parecia uma coisa tão natural para qualquer casal, mas para nós virou sinônimo de frustração. Depois de mais de um ano de tentativas, a gente procurou ajuda para ver se tinha alguma coisa de errada com a gente. Nós passamos por vários exames e consultas, além de esperas intermináveis, até que infelizmente, nós soubemos que eu realmente tinha uma questão que dificultava muito uma gravidez natural.- Não fica assim, Clara. A gente vai dar um jeito!- Eu tô me sentindo tão incapaz, tão envergonhada por não poder realizar o nosso sonho.- Shhhh! Que isso, meu amor? Nós estamos juntos nessa. Você não tem culpa de nada.- E agora, Dani? Como a gente vai formar a nossa família?- Nós vamos adotar, Clara. Tá cheio de criança precisando de um lar e de amor e nós temos isso para dar.A gente nunca tinha falado em adoção porque o nosso objetivo era engravidar, mas a partir do momento em que soubemos que não seria possível, o Daniel nem pensou duas vezes e eu achei a coisa mais linda do mundo.Ele tinha razão! Eu não precisava gerar uma vida para ser mãe. Eu confesso que nos primeiros momentos em que eu soube que eu não poderia ter um filho, eu cheguei a ficar com medo que o Daniel desistisse de mim, de nós, mas aquele problema só serviu para unir a gente ainda mais.
Eu só não poderia imaginar que uma decisão tão bonita como essa, fosse testar um amor que parecia, como eu disse, inabalável.
O processo de adoção não foi rápido, mas cada etapa só trazia mais certeza de que estávamos no caminho certo. Foram entrevistas, formulários, encontros com outras famílias que adotaram e eu e o Dani ficávamos horas conversando sobre o nosso filho, ou filha, que iria chegar um dia. Uma ansiedade que eu nem sei explicar.
Até que um dia, o telefone tocou. Tinha um menino de 6 anos. Meu coração disparou. A história dele era muito dura, tinha perdido o pai assassinado e a mãe era usuária de drogas e foi presa tentando vender o próprio filho. Vender, gente. Olha isso! Na mesma hora que eu ouvi aquilo, eu já me sensibilizei. Nós marcamos um primeiro encontro e quando eu cheguei, eu vi o Lucas e os meus olhos encheram de lágrimas. A minha vontade era correr para colocar ele no meu colo. Eu me apaixonei... foi como se minha alma reconhecesse aquela criança. Ele era o meu filho. O Daniel apertou a minha mão e eu sabia que ele estava nervoso, mas eu percebi que o Lucas tava muito assustado. E era normal. Ele já tinha passado por vários orfanatos e por isso nós fizemos tudo com calma. Mas, depois de alguns encontros, o Lucas continuava muito quieto, arredio, parecia desconfiado. A assistente social falou que era normal e eu estava com a maior paciência, mas o meu marido... o meu marido estranhava tudo aquilo.- Não sei, Clara. Será que ele não gostou da gente? Toda criança ia ficar feliz na situação dele.- Ele nem teve tempo para gostar, Dani. É uma criança que foi vendida pela própria mãe. Imagina como ele não tem mágoa dentro dele? É um menino assustado e traumatizado.- Mas a gente já veio aqui várias vezes visitar e ele nunca deu um sorriso.- Quando ele vier para casa, vai ser mais fácil. Você vai ver. Quando ele perceber que a gente realmente quer ter ele como filho, ele vai confiar. Aqui é diferente, tem sempre alguém olhando, acompanhando... - Sei não... não sei mesmo. - Você não quer mais adotar? - Clara, ter uma família com você é o que eu mais quero no mundo. Mas eu tenho um sentimento estranho aqui dentro.Depois de um tempo, o Lucas pôde vir para nossa casa e nós conseguimos a guarda provisória. Eu estava nas nuvens... eu era mãe. Eu tinha me tornado mãe. Tudo bem que ainda era provisório, mas eu sabia que eu era a mãe dele, sim. Eu iria ser em definitivo... Mas também foi aí que começaram os problemas. A gente já tinha ouvido falar que a adaptação poderia ser difícil, mas com o Lucas... nossa! Foi realmente desafiador! O Lucas estava em casa, mas ele não parecia EM CASA. Ele evitava qualquer contato físico e, sempre que eu tentava conversar, ele ignorava, desviava o olhar, isso quando não dava uma resposta grosseira. Eu tentava não me abalar e sabia que ele só precisava de tempo, mas o Daniel ia ficando cada vez mais incomodado com aquele comportamento.Os dias foram passando e, apesar do nosso esforço, o Lucas só piorava. Ele tentava nossos limites, fazia birra, tinha explosões de raiva sem nenhum motivo, quebrava as coisas em casa propositalmente, se recusava a comer com a gente, tratava todo mundo mal... Na escola que tínhamos colocado o Lucas, os problemas também eram aos montes. A diretora chamou a gente para conversar dizendo que ele debochava da professora e batia nos colegas. Além disso, ele vivia inventando histórias de que eu e o Dani batíamos nele. Imagina!As crises foram ficando cada vez mais difíceis de controlar, mas eu procurava ajuda, coloquei o Lucas para fazer psicóloga, tinha paciência e demonstrava carinho para que ele confiassem mim, mas o meu marido ia se afastando cada vez mais.Um dia, o Daniel fez uma última tentativa e chamou o Lucas para jogar bola, mas quando nosso filho pegou a bola, arremessou com tudo no rosto do meu marido. Depois, ele gritou que odiava a gente e quando eu cheguei na sala para entender o motivo da gritaria, ele me empurrou de uma forma tão forte, que eu até cai e bati a cabeça. Quando o Lucas viu o que tinha feito, eu achei que iria recuar e pedir desculpa, mas ele só me olhou e falou que queria que a gente morresse.- Chega! Eu não consigo, Clara. - Como não consegue? O que você quer dizer com isso?- Ele precisa de mais do que eu posso dar. A gente não está preparado para isso. É melhor devolver. - Dani, pelo amor de Deus, ele não é uma camiseta que a gente devolve na loja. Ele é nosso filho, é nossa família.- Isso não é uma família, é um inferno. Eu não aguento mais. Se ele não sabe ser grato pelo que a gente tem feito, então que volte para de onde saiu.
Eu fiquei em estado de choque. O que o meu marido estava dizendo? Como "devolver"? Essa nunca foi uma hipótese. Não pra mim, pelo menos. Nossa... meu chão sumiu. Mas o Dani encerrou a conversa de uma maneira enfática e que não deixou mais espaço para eu argumentar.- Clara, eu tô decidido. Eu não quero mais esse menino na minha casa. Você precisa tomar uma decisão e eu vou respeitar, mas... ou ele, ou eu.O Dani era o amor da minha vida, mas o Lucas... o Lucas era o meu filho. Era uma vida que eu aceitei cuidar. Como eu ia escolher entre um deles? Como eu ia lidar com o peso da minha decisão, seja lá qual fosse?Claro, óbvio que eu implorei para o meu marido reconsiderar, mas ele estava decidido. Já eram meses, muita terapia, e nada resolvia. Aliás, só piorava. Mas... mas e se fosse um filho biológico dando trabalho, ele também ia desistir dele?Naquela noite, eu entrei no quarto do Lucas e ele já estava dormindo. Tão pequeno, tão frágil... Depois de toda aquela briga, ele parecia um anjinho indefeso. Mas eu sabia que, quando ele acordasse, o dia ia recomeçar com os mesmos problemas.Eu fiquei ali olhando para ele lembrando também de toda a minha história com o Daniel, do nosso amor, o nosso casamento, do que a gente construiu, de como ele me olhava como se eu fosse a mulher mais especial do mundo, de como a gente era feliz e completo antes de começar toda essa história de adoção. Nosso amor inabalável. E agora... agora eu tinha que escolher entre ele e uma criança quebrada, que nem parecia me querer como mãe.Eu fechei os olhos e tentei imaginar como seria a vida sem o Dani. O vazio naquela casa, o silêncio, a falta do abraço, do cheiro, do companheirismo... Eu amava o Daniel. Meu Deus como eu amava. Eu tinha tanto medo de perder o Dani, tanto!Mas e se fosse o contrário? E se eu desistisse do Lucas? Eu imaginei aquele menino, todo traumatizado pegando as coisinhas dele e indo embora, mais uma vez rejeitado, abandonado... eu iria conseguir viver com isso?O meu coração está completamente dividido. Essa decisão está me sufocando porque eu não consigo dar nenhum passo. Como eu posso escolher entre o homem que eu amo e o filho que eu prometi amar?Como eu posso escolher entre o homem que me ensinou o amor e uma criança que precisa dele? Como eu posso tomar uma decisão como essa? Me diz... me diz o que fazer! Me diz como resolver. Me diz.


