
Quem Ama Não Esquece
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Lucas sonhava em ter uma família quando conheceu a Mari, uma mulher mais velha que já era mãe de um adolescente de 16 anos que rejeitava a relação.
Após alguns meses, o garoto deu um ultimato: ou ele ou o amor pelo Lucas, namorado da mãe. Mari escolhou o namorado e o filho acabou indo embora de casa.
Desde então, Lucas carrega uma culpa silenciosa e passa a enxergar a relação com outros olhos. O amor persiste, mas a admiração se desgasta por conta da ausência dos laços familiares.
Hoje ele está em paz em casa, mas tem uma dúvida se essa mulher é a ideal para sua vida e para ser mãe dos seus filhos. Confira mais uma história do "Quem Ama Não Esquece":
Filho, amor e culpa
Meu nome é Lucas, tenho 30 anos e, desde muito novo, sempre imaginei que um dia encontraria alguém legal com quem pudesse construir uma família.
Esse era o meu sonho: ter alguém para dividir a vida e filhos correndo pela casa. Eu até tive algumas namoradas, mas, infelizmente, com nenhuma delas o meu projeto de futuro foi adiante. Até que, quando eu já não estava mais pensando muito em encontrar alguém, conheci a Mari.
Ela era diferente de tudo o que eu já tinha vivido: forte, decidida e com um sorriso lindo. A Mari era um pouco mais velha, tinha 40 anos, mas isso não me impediu de ficar encantado por ela. O que eu senti foi arrebatador! Sabe aqueles amores que chegam como um furacão e mudam tudo? Foi assim.
— Não é que eu não ache que pode dar certo, Lucas. É que nossas vidas são muito diferentes.— Só por conta da diferença de idade?— Por isso também. Mas eu já tenho um filho de 16 anos e você ainda sonha em construir uma família. Eu não sei se posso ser essa pessoa que você quer!— Deixa que eu decido isso, Mari. Eu gosto de você como nunca gostei de ninguém. Você gosta de mim também, não gosta?— Eu gosto. Gosto demais. Gosto de um jeito que me dá até medo.
E era verdade. A gente se gostava de um jeito que não dava para fingir que era pouco. Eu queria muito que desse certo. Queria tanto que, logo nos primeiros meses, pedi para conhecer o filho dela, mas a Mari sempre desviava. Dizia que era cedo, que o Pedro era fechado ou que ele podia reagir mal.
Eu entendia, afinal, sabia que ela nunca tinha namorado sério com ninguém depois de se separar do ex-marido. Mas, depois de cinco meses, insisti até ela topar. A Mari marcou um jantar na casa dela, e eu me preparei todo para ter assunto com um menino de 16 anos, mas, quando cheguei, o Pedro sequer apareceu — ficou trancado no quarto o tempo todo — e a Mari ficou super constrangida tentando justificar que ele era meio reservado mesmo.
Quando o Pedro finalmente saiu, só na hora de comer, percebi que o problema dele não era ser reservado… era não me querer ali mesmo. Tentei puxar assunto várias vezes, tentei ser leve, tentei ser engraçado, mas ele visivelmente não queria papo. Foi péssimo, como conversar com uma parede.
Eu me sentia como aqueles homens de antigamente, que iam pedir a aprovação do pai da namorada. Mas eu estava muito apaixonado pela Mari e não ia deixar um adolescente estragar o meu namoro. Então, tentei, várias e várias vezes, conquistar o menino, mas parecia que só piorava a situação.
Até que, um dia, ele olhou bem para mim e disse, de forma grosseira, que eu devia me enxergar e parar de ser ridículo, porque a Mari tinha idade para ser minha mãe. Claro que não era verdade, mas ali entendi que ele ia mesmo ser um problema difícil de resolver.
Enquanto eu falhava miseravelmente em ter um bom relacionamento com o Pedro, meu namoro com a Mari só melhorava. Que mulher incrível, e como ela me fazia feliz. Parecia que eu já estava com ela há anos, de tanta intimidade, cumplicidade e companheirismo.
A Mari, com certeza, foi a primeira mulher que eu amei de verdade, e eu ficava com pena porque via o quanto ela se envergonhava com as atitudes do filho, mas fazia questão de mostrar que isso não mudaria em nada o que eu sentia por ela.
Mesmo com os problemas com o Pedro, a gente estava vivendo uma história linda. Eu nunca tinha me sentido tão inteiro com alguém. A Mari me fazia bem de um jeito que é até difícil de explicar. A gente ria por qualquer coisa, fazia planos simples e tinha uma conexão surreal.
Teve uma noite em que a gente ficou deitado no sofá, sem falar quase nada. Ela deitou no meu peito e ficou ali, ouvindo o meu coração.
— Eu nunca achei que fosse amar alguém assim de novo.— E eu nunca achei que fosse amar assim pela primeira vez.— É tão grande, tão verdadeiro… Eu tenho medo de te perder.— Você nunca vai me perder. Eu amo você, ouviu? E vou te fazer a mulher mais feliz do mundo.— Eu sei que a situação não é fácil com o Pedro. Ele tem dificultado bastante, mas eu tenho fé que tudo vai se ajeitar.
A gente era amor de verdade. Amor que tenta e não desiste. Mesmo que a convivência com o filho dela fosse cada dia mais insuportável. Eu, que sempre fui um homem extremamente calmo e tranquilo, perdia a paciência e tinha que contar até dez para não falar umas verdades para aquele moleque que se achava adulto. Cada vez mais grosseiro, mais debochado, mais empenhado em fazer da minha vida e da vida da mãe dele um inferno.
Uma vez, quando passou e me viu com a Mari na sala, saiu rindo e disse alto para ela ouvir:
— Isso tudo é uma fase, mãe. Uma hora ele vai cansar de brincar de casinha e vai procurar uma menininha da idade dele.
A Mari ficou sem reação. Ficou vermelha, foi atrás dele para dar uma bronca, e eu só respirei fundo e não respondi. Ele parecia ter prazer em fazer a mãe se sentir mal. Jogava na cara dela um monte de desaforos e parecia querer humilhá-la. Ela tentava conversar, mas ele era muito revoltado. Batia a porta do quarto na cara dela, sumia por horas, e ela ficava sem saber como agir.
Eu dava colo, apoiava, dizia que ela não merecia nada daquilo, mas o que mais eu podia fazer? Se nem ela sabia… O que estava ao meu alcance era ser parceiro, mostrar que eu estava do lado dela e que não era o jeito do Pedro que ia me afastar.
Mas a verdade é que tudo tem um limite, e o Pedro parecia testar esse limite todos os dias. Comecei até a evitar ir à casa da Mari quando sabia que ele estaria lá. Não queria que ela se sentisse mal.
Só que, um dia, não deu mais para fugir. Era um sábado e a Mari me chamou para jantar com ela e o Pedro. Ela disse que ele tinha pedido, que queria conversar, que estava calmo, que parecia disposto a recomeçar. Eu fui, mesmo duvidando. Aquilo não estava me cheirando bem.
A noite já começou estranha. O Pedro estava muito quieto, mas, pelo menos, não estava sendo agressivo. Quando terminamos de comer, ele soltou a bomba: disse que não dava mais para continuar daquele jeito e que, ou eu saía da vida deles, ou quem sairia era ele.
A Mari ficou olhando para ele, sem entender, e ele continuou. Disse que o nosso namoro estava indo longe demais e que era hora de ela escolher: ou eu, ou ele.
Pela primeira vez, tentei me meter. Disse que era um absurdo ele fazer isso com a mãe, que ela estava feliz. Mas ele logo me cortou e disse que o papo era só com ela naquele momento.
Coitada, ela tremia, e ele dizia que, se ela não tomasse uma atitude, ia embora morar com o pai e não ia mais querer saber dela. Eu fiquei apavorado, porque naquele momento vi o meu namoro acabando. Eu não queria, eu não podia perder a Mari. E foi aí que ela falou:
— Pedro… se é pra me colocar contra a parede desse jeito… então vai. Você que vá. Porque eu não vou abrir mão do que me faz feliz. Vai. Junta suas coisas. Se você prefere sair, então sai. Eu estou cansada.


