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Antibióticos detectados em peixes no Rio Piracicaba acendem alerta

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA-USP) e publicado na revista Environmental Sciences Europe

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25/03/2026 15:54 • Atualizado há 213 dias

Antibióticos detectados em peixes no Rio Piracicaba acendem alerta

Um estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA-USP) e publicado na revista Environmental Sciences Europe, identificou resíduos de diferentes antibióticos no rio Piracicaba. O estudo também avaliou como essas substâncias se acumulam em peixes e como uma planta aquática amplamente encontrada na região, a Salvinia auriculata, pode diminuir parcialmente essa acumulação.

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Liderado por Patrícia Alexandre Evangelista e apoiado pela FAPESP, o estudo combinou monitoramento ambiental, estudos de bioacumulação, análises de danos genéticos em organismos aquáticos e experimentos de fitorremediação.

As amostras foram coletadas na região da barragem de Santa Maria da Serra, próxima ao reservatório de Barra Bonita, onde se acumulam poluentes de toda a bacia hidrográfica do rio Piracicaba. Essa área recebe contribuições de esgoto urbano tratado, efluentes domésticos e atividades associadas à aquicultura e à suinocultura, bem como escoamento difuso proveniente da agricultura.

Amostras de água, sedimentos e peixes foram analisadas durante dois períodos: a estação chuvosa e a estação seca. No total, o monitoramento incluiu 12 antibióticos de classes amplamente utilizadas – tetraciclinas, fluoroquinolonas, sulfonamidas e fenóis.

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As concentrações variaram de nanogramas por litro na água a microgramas por quilograma no sedimento. Por exemplo, fluoroquinolonas como a enrofloxacina e sulfonamidas foram detectadas no sedimento em níveis superiores aos relatados em estudos internacionais comparáveis. O sedimento é rico em matéria orgânica e nutrientes, como fósforo, cálcio e magnésio. Essa composição permite que o sedimento atue como um reservatório para esses compostos, com potencial para remobilização ao longo do tempo.

A substância foi encontrada nos peixes apenas durante a estação seca, com concentrações na faixa de dezenas de microgramas por quilograma. Isso é digno de nota porque a espécie de peixe é amplamente comercializada e consumida localmente, indicando uma possível via indireta de exposição humana por meio dos alimentos.

Evangelista explica que a escolha do cloranfenicol e da enrofloxacina como foco dos experimentos de laboratório se deveu à sua relevância ambiental e para a saúde.

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Além de mapear a contaminação, o estudo investigou se a Salvinia auriculata, uma macrófita flutuante frequentemente considerada uma praga em corpos d’água, poderia ajudar a remover antibióticos do meio ambiente. Em experimentos de laboratório, a planta foi exposta a concentrações ambientais e 100 vezes superiores de enrofloxacina e cloranfenicol, utilizando compostos radiomarcados com carbono-14. O uso de moléculas radiomarcadas permitiu o rastreamento preciso do destino dos antibióticos na água, na planta e nos peixes.

Os resultados mostraram a alta eficiência da Salvinia na remoção da enrofloxacina. Em tratamentos com maior biomassa vegetal, mais de 95% do antibiótico foi removido da água em poucos dias. A meia-vida do composto caiu para cerca de dois a três dias. No caso do cloranfenicol, a remoção foi mais lenta e parcial. A planta foi capaz de remover de 30% a 45% do antibiótico da água, com meias-vidas variando de 16 a 20 dias, indicando a maior persistência do composto no meio ambiente.

As imagens de autorradiografia revelaram que, em ambos os casos, os antibióticos se concentraram principalmente nas raízes da planta, sugerindo que a rizofiltração e a absorção radicular desempenham um papel central no processo.

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Um dos aspectos mais complexos do estudo diz respeito à bioacumulação em peixes. Experimentos controlados mostraram que a redução da concentração de antibióticos na água não resulta necessariamente em menor absorção pelo organismo.

No caso da enrofloxacina, a maior parte do composto permaneceu dissolvida na água e foi rapidamente eliminada pelo lambari, com uma meia-vida de cerca de 21 dias. O fator de bioconcentração foi baixo, indicando uma menor tendência de acumulação nos tecidos. O cloranfenicol, por outro lado, apresentou um comportamento diferente. Esse antibiótico apresentou maior persistência no organismo, com meia-vida superior a 90 dias e um alto fator de bioconcentração, refletindo maior retenção nos tecidos dos peixes.

Uma hipótese é que a planta possa transformar parcialmente o composto original, tornando-o mais biodisponível mesmo em concentrações totais mais baixas.

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Apesar dessas complexidades, as análises genotóxicas revelaram resultados significativos. O cloranfenicol aumentou significativamente os danos ao DNA nos peixes, conforme medido pela frequência de micronúcleos e anomalias nucleares nas células sanguíneas. Quando a Salvinia auriculata estava presente no sistema, no entanto, esses danos foram reduzidos, aproximando-se dos níveis observados nos grupos de controle. No caso da enrofloxacina, porém, a presença da planta não levou a uma redução significativa dos efeitos genotóxicos.

Evangelista enfatiza que a Salvinia auriculata não deve ser vista como uma solução simples ou definitiva para a poluição por antibióticos. O estudo destaca seu potencial e suas limitações. Além das incertezas quanto à formação de subprodutos, há o desafio de gerenciar a biomassa contaminada. Se não for devidamente removida e tratada, a planta pode se tornar uma fonte secundária de poluição, reintroduzindo antibióticos no meio ambiente.

No entanto, os resultados sugerem que as macrófitas aquáticas poderiam ser incorporadas a estratégias de mitigação econômicas e baseadas na natureza, particule economicamente viáveis, especialmente em sistemas onde tecnologias avançadas de tratamento, como a ozonização ou processos oxidativos, são economicamente inviáveis.

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“A detecção de resíduos de antibióticos na água, nos sedimentos e nos peixes do rio Piracicaba mostra o quanto as atividades humanas podem ser prejudiciais. A resistência de microrganismos aos antibióticos pode levar ao surgimento de superbactérias no meio ambiente. A pesquisa produziu resultados positivos com soluções ambientais de baixo custo e permitiu uma melhor compreensão do funcionamento integrado dos ecossistemas aquáticos e do uso de técnicas naturais eficazes para a mitigação de impactos”, acrescenta Valdemar Luiz Tornisielo, orientador da pesquisa de Evangelista e coautor do artigo.

As moléculas radiomarcadas utilizadas no estudo foram fornecidas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

O artigo “Abordagem integrada para avaliar e mitigar a contaminação por antibióticos em águas naturais utilizando bioacumulação e fitorremediação” pode ser lido pelo link.

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*Texto: Agência FAPESP

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