
Café
Pixabay
Um ensaio clínico internacional recente, publicado na JAMA Network, gerou debate ao sugerir que o consumo de café com cafeína pode estar associado a uma redução de 39% no risco de recorrência de fibrilação atrial (FA) em pacientes submetidos à cardioversão.
No entanto, o especialista em cardiologia Dr. Fernando Porto, responsável pelo Serviço de Ritmologia do Hospital PUC Campinas (SP), alerta que esse resultado não deve ser interpretado como um incentivo para que pessoas com arritmia cardíaca passem a consumir café como forma de tratamento ou controle da doença.
Metodologia
O Dr. Fernando Porto critica abertamente a metodologia do estudo. De acordo com o especialista, a publicação é um "estudo muito pequeno", que contou com 200 pacientes no total, ou "cento e poucos pacientes para cada lado de análise". Ele afirma que, por essa razão, o resultado que aponta para um menor risco de recorrência "não tem muito valor estatístico".
Café não é benéfico ou maléfico
O alerta central do cardiologista é que o estudo deve ser usado apenas para derrubar o antigo paradigma de que o café é "pró-arritmogênico", e não para promover o consumo como medida terapêutica:
"A conclusão é que o café não é maléfico, mas não dá para falar que o café é benéfico", explica o Dr. Porto.
Historicamente, a sabedoria convencional na cardiologia levava médicos a aconselharem pacientes com arritmia a minimizar o consumo de café. O estudo sugere que esse consumo moderado – cerca de 1 xícaras por dia – é seguro.
No entanto, a orientação médica para pacientes com arritmia cardíaca não será alterada pelo estudo. A recomendação dos especialistas continua sendo a mesma:
- Não "estimular a tomar café em grande quantidade".
- Continuar "liberando as pessoas no uso moderado da bebida".
Os próprios autores reconhecem limitações importantes, como o fato de o estudo não ter sido cego (not blinded), o que pode aumentar o risco de viés, e a amostra ter sido modesta. Além disso, a aderência no grupo de abstinência foi subótima, com 69% dos pacientes de fato não consumindo café, o que os autores admitem que poderia "subestimar a verdadeira magnitude" de qualquer benefício.
Apesar dos autores sugerirem que "o consumo de café e outros produtos cafeinados pode ser razoavelmente considerado em pacientes com FA", a cautela se mantém: este estudo é visto como uma confirmação da segurança do consumo moderado, e não como uma indicação para iniciar o café visando o controle de uma doença cardíaca grave como a Fibrilação Atrial.
Pacientes com arritmia cardíaca devem sempre seguir a orientação de seu cardiologista sobre o consumo de café, evitando o uso em grandes quantidades. O estudo reforça a segurança da moderação, mas não o controle ativo da doença.
O estudo mencionado foi de autoria de pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos, e da Universidade de Adelaide, na Austrália.
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