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Campinas e Região

Déficit de natureza: projeto transforma escolas e ouve crianças em Campinas

Iniciativa 'Verdejando Escolas' revitaliza pátios com áreas verdes, mas atende apenas uma parte das escolas da cidade, alcançando cerca de 20% das creches conveniadas do município

RAFAELA OLIVEIRA

02/10/2025 • 14:19 • Atualizado em 02/10/2025 • 14:19

O projeto Verdejando Escolas escuta crianças e transforma pátios de creches em Campinas

O projeto Verdejando Escolas escuta crianças e transforma pátios de creches em Campinas

Foto/Vilson Smanhoto

"Raiz que escuta, folha que sente, espalhe essa ideia para toda a gente", cantarolavam as crianças ao redor de uma árvore na escola Espaço Crescer e Vencer, em Campinas (SP), durante mais uma oficina do projeto Verdejando Escolas. Entre risos, meninas e meninos com idade entre quatro e seis anos expressavam o desejo de reformar o pátio e transformá-lo em um espaço fresco, verde, cheio de vida e lugares para explorar.

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“Tem muito sol, não tem muitas árvores e não tem muita sombra”, descreve Bela, de 6 anos, a atual área de recreação ao ar livre da escola, que fica no bairro Jardim Paineras. O calor, que afeta a menina, é apontado por especialistas como um fator que desencoraja brincadeiras. Campinas, inclusive, é a cidade do interior do Estado de São Paulo mais vulnerável aos efeitos de ilhas de calor, segundo estudo da UrbVerde de 2021.

Diante dessa necessidade essencial, o projeto Verdejando Escolas, desenvolvido pelo CoCriança com apoio da Fundação FEAC, do Instituto Arcor Brasil e do Instituto Tecendo Infâncias, realiza a formação de professores, guia oficinas com os alunos e cria um projeto em conjunto com as crianças para reformar e tornar mais verdes os pátios das escolas ao longo de 2025.

Cibele Amaral, colaboradora do projeto, ressalta que, normalmente, a parte urbanística, arquitetônica das cidade não leva em consideração as crianças, mas o CoCriança traz essa ideia de incluí-las, desde a criação, até como ser que habita esse ambienta.

Não tem como pensar numa cidade boa para todos sem levar em consideração a opinião das crianças.

O projeto, que começou em 2024 com apoio apenas da Fundação FEAC, já atendeu três creches: Associação Douglas Andreani (Jardim Monte Cristo), Espaço Infantil Corrente do Bem (Vila Brandina) e Instituto Educacional Sementes do Amanhã (Jardim Monte Cristo).

Em 2025, a iniciativa conseguiu mais apoiadores e expandiu para seis novas creches comunitárias:

  1. Lar Escola Jesus de Nazaré (Jd. Bela Vista)
  2. Casa da Criança Vovô Nestor (Parque Itália)
  3. SPES Educação Infantil (Jd. São Marcos / Região dos Amarais)
  4. Casa da Criança Meimei (Jd. Chapadão / Região dos Amarais)
  5. Creche Tia Léa (Jd. São Pedro)
  6. Espaço Crescer e Vencer (Jd. Paineras/Jd. Novo Flamboyant)

Todas essas seis escolas passam, ao longo deste ano, por meses de trabalho. A equipe realiza oficinas usando histórias com personagens como o pássaro Pia, que ajudam a entender como é a relação das crianças com a natureza e de que forma isso as afeta. “O que é que vocês sentem falta? O que é que vocês gostariam que fosse? As crianças vão trazendo em desenho, em conversa, em brincadeiras, com elementos que surgem delas mesmas”, afirma Cibele Amaral.

Desenhos das crianças mostram o que desejam no pátio

Desenhos das crianças mostram o que desejam no pátio

Crédito: Vilson Smanhoto

Por meio das histórias, até quem parece distraído absorve uma lição importante, conta a professora Daniela Amódio, da Educação Infantil da escola Espaço Crescer e Vencer:

“Uma das crianças parecia não prestar atenção na história, mas foi justamente quem encontrou um outro livro na nossa escola e disse: ‘Olha, como Pia ensinou, nós temos que cuidar da natureza para proteger o nosso mundo’. Ele mostrou a imagem de uns troncos cortados e falou: ‘É muito ruim, porque a gente não pode deixar isso acontecer’. Foi a mesma criança que, ao final da oficina, disse que não gostou de um toco cortado no pátio, porque parecia uma árvore recém-abatida.”

‘Déficit de natureza’

Conforme aumentam o medo da violência e o uso das telas, principalmente nas grandes cidades, menos tempo as crianças passam ao ar livre — o que pode impactar a saúde física e mental delas. Esse fenômeno é chamado de transtorno de déficit de natureza pelo jornalista norte-americano Richard Louv.

Os principais riscos incluem obesidade, problemas oculares, ansiedade, depressão, dificuldades de atenção e concentração, deficiências no desenvolvimento emocional e sensorial, além de menor apreciação ambiental.

“É provável que uma criança hoje saiba falar sobre a floresta amazônica, mas não sobre a última vez que explorou uma mata sozinha ou deitou-se em um campo ouvindo o vento e observando as nuvens”, escreve Louv em seu livro A Última Criança na Natureza. Ele também é cofundador da organização Children & Nature Network.

O alerta dialoga com a explicação de Luciana Curado, psicóloga e psicopedagoga, que afirma que o contato com o meio ambiente é importante no desenvolvimento global – físico, cognitivo, social e emocional – das crianças na primeira infância. “É em contato com a natureza que a criança desenvolve movimentos, habilidades únicas e experiências que só o próprio ambiente pode oferecer”, explica.

Esse alerta também é reforçado por um estudo realizado no Japão, em 2023, que acompanhou o desenvolvimento de 7.097 crianças. O levantamento aponta que crianças de 1 ano que passam de uma a quatro horas diárias em frente a telas têm, aos 2 anos, risco até três vezes maior de déficits em comunicação, coordenação motora fina, resolução de problemas e habilidades sociais.

Rede

O projeto não consegue acolher todas as crianças. A rede municipal de educação de Campinas é formada por 267 unidades, sendo 178 de Educação Infantil, 45 de Ensino Fundamental e 44 colaboradoras (organizações conveniadas à Secretaria Municipal de Educação). Ao todo, são 69 mil alunos matriculados em 2025.

Desse total, nove creches conveniadas foram atendidas pelo Verdejando Escolas — cerca de 20%. A CoCriança informou que aproximadamente 20 unidades se inscreveram no edital no ano passado, o que mostra a demanda por mais ações de educação ambiental.

Mesmo nas escolas contempladas, nem todos os alunos participam diretamente. No Espaço Crescer e Vencer, apenas a turma Chocolate integra as oficinas. Mas a novidade se espalhou: “Cada professora está participando com um quadro feito pelas crianças, para representar que toda a escola é beneficiada. No final, cada turma terá seu quadro entregue”, explica Daniela.

A Secretaria de Educação Municipal afirma que também promove ações voltadas à educação ambiental. “Hortas e pomares são alguns dos projetos em diversas escolas da nossa rede”, diz Luma Feboli, professora articuladora do Programa de Educação Ambiental. Ela lembra que o programa, criado em 2021, incentiva o uso de praças, parques e visitas a locais como o Bosque dos Jequitibás e a Mata Santa Genebra.

Luma Feboli destaca o incentivo às escolas para a promoção da educação ambiental

Luma Feboli destaca o incentivo às escolas para a promoção da educação ambiental

Crédito: Vilson Smanhoto

“O Programa de Educação Ambiental funciona a partir de três princípios: a ambientação curricular, que traz o tema socioambiental de forma transversal; a formação de professores; e a articulação em rede, construindo parcerias com outras instituições e secretarias para fortalecer esse trabalho”, explica Luma.

Com cerca de quatro anos de existência, o programa busca estreitar a relação das crianças com a natureza, promovendo uma educação que integra questões ambientais no cotidiano escolar e fortalece o vínculo entre a comunidade, as escolas e o meio ambiente.

Família

Na apresentação do projeto arquitetônico às crianças do Espaço Crescer e Vencer, chamou atenção a presença de um chuveirão e até de uma poça de lama. Aos olhos mais velhos, aquilo evocava memórias: a bronca por voltar para casa sujo, mas também a alegria da brincadeira.

Questionada sobre a preocupação dos pais com os filhos cobertos de lama ou molhados, Cibele Amaral foi enfática: “Tudo o que é aplicado no projeto, seguindo os desejos das crianças, passa pela aprovação da escola, que faz o intermédio com a família. Ou seja, se tem chuveirão, tem aprovação".

A coordenadora pedagógica do Instituto Educacional Sementes do Amanhã, Arleide Cardoso, disse nunca ter recebido reclamações dos pais. “Eles estão aqui para vivenciar”, resume, observando os alunos cobertos de areia e brincando no espaço reformado em 2024. Ela garante que tudo é comunicado previamente às famílias e que nunca houve problemas.

Em uníssono, as especialistas e educadoras ressaltam a importância da família para aumentar o contato das crianças com a natureza.