Taylor Swift em: The Fate of Vinyl

Um texto sobre o destino do vinil

Por Redação
REDAÇÃO

20/03/2026 • 16:27 • Atualizado em 20/03/2026 • 16:27

Amanda Costa
Um texto sobre o destino do vinil

Um texto sobre o destino do vinil

Getty Images / Unsplash

O setor fonográfico dos Estados Unidos acabou de alcançar uma marca histórica: a receita com as vendas de vinil ultrapassaram US$ 1 bilhão pela primeira vez desde 1983, crescendo pelo 19º ano consecutivo. A notícia foi comemorada: parece que a música física está salva. O herói tem nome?

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Tem, e para surpresa de zero pessoas, atende pelo nome de Taylor Swift. Seu álbum “The Life of a Showgirl” vendeu 1,6 milhão de cópias só em vinil: uma fatia de 3% de tudo que foi vendido no país. O segundo lugar, Sabrina Carpenter, ficou com modestos 292 mil. Taylor está lá no topo, dando tchauzinho pra uma formiguinha aqui embaixo.

Mas antes disso receber o título de vitória cultural, precisamos fazer uma pergunta incômoda: esses números refletem a qualidade da música, ou apenas a eficiência de uma estratégia agressiva de venda?

Com vocês, a estrategista, Taylor Swift

“The Life of a Showgirl” foi lançado com 34 variantes diferentes entre CDs, vinis e downloads digitais. Trinta e quatro. Um cardápio do McDonalds tem menos opções. Cada variante foi feita com detalhes diferentes: outra capa, outra cor, talvez uma faixa acústica exclusiva aqui, uma faixa comentada ali. O fã mais dedicado adquiriu o máximo de versões que coube no orçamento.

Um artigo publicado no Consequence of Sound, chamado “Taylor Swift Girl-Bossed Too Close to the Sun With Her 28 Album Variants” (algo como: Taylor Swift foi pega na ambição louca com seu álbum de 28 variações) explica a mecânica da coisa: Taylor abre a pré-venda, e depois vai soltando novas variantes aos poucos, com contagens regressivas e janelas de 48 horas para compra. O fã que comprou na sexta vê uma nova versão exclusiva anunciada na segunda. Só mais U$ 30, o fã pensa.

Billie Eilish deu sua opinião sobre a estratégia. Ela declarou que não consegue expressar o quão desperdiçador é lançar dezenas de variantes com pequenas diferenças só para fazer os fãs comprarem mais. Andrew Mall, professor de música na Northeastern University, reconhece que Taylor não é a primeira a praticar tal estratégia, mas aponta que a cantora está entrando no terreno da exploração afetiva.

E o fã é obrigado a comprar? Não. Compra porque quer pertencer. Taylor sabe que sua base de fãs é fiel. Mas mesmo os mais dedicados chegaram a fazer críticas. No perfil do Instagram Taylor Nation, há comentários como: “Taylor, amo sua arte do fundo da minha alma. Mas estou perdendo o respeito por você devido às suas táticas de marketing. Essa profecia autorrealizável de mercantilização será sua ruína artística, se você não parar para pensar.” Forte, né?

Michael Jackson vendeu 66 milhões de cópias sem precisar de 34 variantes

Thriller, de 1982, é o álbum mais vendido da história: as fontes variam de 66 a 100 milhões de cópias globais. Passou 37 semanas no topo da Billboard 200 e foi o álbum mais vendido dos EUA por dois anos consecutivos, 1983 e 1984.

E como Michael conseguiu isso? Com 9 músicas, uma delas cantada com Paul McCartney, um videoclipe de terror de 14 minutos, uma coreografia chamada moonwalk e muita, muita genialidade.

Thriller vendeu porque era impossível não ouvi-lo. O brasileiro foi até o Mapping e comprou um disco, sem ser fã do Michael, simplesmente porque o disco era onipresente. Porque a música era forte. E o disco tinha só uma capa. Eu tinha em casa e corria de medo da risada do Vincent Price.

Adele fez 3,4 milhões na primeira semana sem postar nada no Instagram

Quando o disco 25 saiu em 2015, Adele quebrou o recorde de primeira semana de vendas com 3,4 milhões de cópias nos EUA. E ela fez isso sem sair de casa, segurando uma taça de vinho na mão.

A cantora britânica se recusou a colocar o álbum em streaming. Não deu entrevistas em quantidade. Não usou redes sociais com regularidade. Não fez shows em festivais. O lançamento teve 30 segundos num programa de TV, e nem mencionava a artista. Ela só falava “Hello” e acabou.

A própria Adele disse numa rádio, refletindo sobre o mercado: “somos uma espécie em extinção. Existíamos antes do streaming, antes das redes sociais. Existíamos na velha escola da indústria”. Ela lembra com nostalgia sobre uma época em que o sucesso dependia de talento, não de estratégia.

Eu poderia continuar com dezenas de exemplos de discos que venderam sem algoritmo, sem capa bonita, sem estratégia nenhuma, só a boa e velha música, num mundo que não volta mais.

O problema não é Taylor Swift.

A Taylor é uma artista que tem, inegavelmente, um talento real. É compositora prolífica. Conecta-se com fãs de forma genuína. E nenhuma estratégia de marketing funciona sem um produto que as pessoas queiram.

O problema é outro: estamos usando a mesma métrica para medir coisas diferentes. Os números de Thriller refletem impacto cultural. Os números de Life of a Showgirl são consequência do desejo de compra. Capitalismo em seu estado purinho.O problema é que ela está sustentando uma indústria que não vai deixa-la parar. Taylor é dona de 3% da fatia das vendas sozinha. A indústria fonográfica se anima, ela fica bilionária, o mercado diz credo que delícia e repete a receita.

Vinil é lindo

Sinceridade? No Brasil, a música mais ouvida de Life of a Showgirl nem estava no disco. Foi a assombrosa ótima versão feita por IA, chamada A Sina de Ofélia, que todo mundo ouviu no TikTok, You Tube ou nos blocos de carnaval.

Comprar um vinil hoje não tem mais nada a ver com ouvir música. Aliás, vinil não serve mais para ouvir, serve para ter. (É uma edição mais linda que a outra, dizem.) A gente ouve música no celular, no streaming, no rádio do carro.

A Gen Z nem toca disco tem, compra vinil por um fetiche pelo analógico. (Assunto para outro dia.)

Parece que o destino do vinil é ser mesmo uma coisa de colecionador ou peça de decoração. Você ainda põe um vinil pra tocar, como os Maias e os Astecas? Diz pra mim.

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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.

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