
Cabo Verde fez grande festa com gol histórico
REUTERS/Marco Bello
Quando a FIFA anunciou que aumentaria de 32 para 48 o número de seleções participantes da Copa do Mundo, fui contra. Pensei que o nível técnico cairia com tantas equipes sem tradição ou qualidade futebolística. Imaginava que haveria muitos jogos desinteressantes. Afinal, quando a Copa contava com 32 seleções, eu já considerava esse número elevado. Para mim, o melhor formato era o de 24 participantes, quando praticamente todos os confrontos eram grandes jogos. Naquela época, a preocupação parecia ser mais técnica do que comercial.
De uns tempos para cá, porém, a prioridade da FIFA mudou. O foco passou a ser o business. Com um número maior de seleções, aumentam também as receitas provenientes dos diversos negócios que a entidade movimenta. Na Copa do Mundo de 2026, por exemplo, a FIFA deverá alcançar um faturamento líquido de aproximadamente superior a US$ 11 bilhões de dólares.
A Copa do Mundo de 2026 mostrou que eu estava errado.
A Copa do Mundo pode contar histórias que uma análise baseada apenas no nível técnico jamais conseguiria enxergar. Um exemplo é o goleiro Vozinha, de Cabo Verde. Um atleta praticamente desconhecido, que atua na segunda divisão dos Estados Unidos e que, durante 90 minutos, fechou o gol contra a Espanha, conquistando o coração dos brasileiros e de boa parte do mundo. Uma história fantástica. Se a competição ainda tivesse apenas 32 seleções, o pequeno país africano provavelmente não estaria disputando a Copa, não conquistaria o respeito do mundo e não teria feito história ao arrancar o empate por 2 a 2 contra o Uruguai, bicampeão mundial. Mais do que o resultado, aquele jogo representou um marco para o país: foram os dois primeiros gols de Cabo Verde em uma Copa do Mundo. Cada comemoração carregava o peso de décadas de sonhos, de gerações que jamais imaginaram ver sua bandeira balançando no maior palco do futebol. Mostrou vale toa é que não tinha medo do desconhecido.
Outro exemplo é Curaçao, um país de com pouco
Mais de 500 mil habitantes e que demonstrou enorme resiliência para conquistar o primeiro ponto de sua história em Copas do Mundo, em um empate heroico contra o Equador. Ao apito final, os jogadores foram às lágrimas.
O técnico holandês Dick Advocaat, o treinador mais velho da história das Copas do Mundo, também protagonizou um capítulo emocionante. Aos 78 anos, superou a marca do alemão Otto Rehhagel, que tinha 71 anos quando comandou a Grécia na Copa de 2010, na África do Sul. Antes da partida, Advocaat se emocionou. Depois, chorou ao lado de um jovem estreante.
Sua trajetória é impressionante. São mais de 40 anos de carreira, passagens por cerca de 20 clubes e três períodos diferentes no comando da seleção da Holanda: entre 1992 e 1994, entre 2002 e 2004 e novamente em 2017. Após conduzir Curaçao à primeira Copa do Mundo de sua história, ele deixou o cargo para acompanhar o tratamento de câncer da filha. A melhora no estado de saúde dela e a saída de seu sucessor, Henk Fraser, mudaram tudo. Advocaat voltou atrás na aposentadoria e reassumiu a seleção para disputar mais uma Copa do Mundo.
Com apenas 32 seleções, Curaçao talvez nunca tivesse a oportunidade de contar uma história tão emocionante.
E é justamente aí que vale uma máxima: nem tudo em uma Copa do Mundo pode ser medido pela qualidade técnica. Às vezes, o verdadeiro valor do torneio está nas histórias humanas que ele revela ao planeta.
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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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