
Neymar Jr. após a eliminação da Seleção Brasileira da Copa do Mundo
REUTERS/Mike Segar
A derrota para a Noruega evidenciou uma mudança preocupante na identidade da Seleção Brasileira. O Brasil terminou a partida com apenas 35% de posse de bola, pior da história, algo incomum para uma equipe que sempre construiu sua história impondo o jogo aos adversários.
A estratégia de Carlo Ancelotti foi difícil de compreender. O treinador optou por um bloco baixo, abriu mão da pressão na saída de bola e praticamente aceitou que a Noruega controlasse a partida. Na entrevista coletiva, justificou a escolha afirmando que uma marcação alta aumentaria o risco de deixar espaços para a velocidade de Erling Haaland nos confrontos individuais. O problema é que essa postura tornou o jogo lento, previsível e excessivamente reativo. Historicamente, o Brasil sempre foi protagonista, nunca um time que espera o adversário. E há uma contradição evidente: como jogar de forma reativa se a equipe sequer tinha a bola?
Outro ponto que merece questionamento foi a cobrança do pênalti. Bruno Guimarães, aos 28 anos, havia cobrado apenas três pênaltis em toda a carreira profissional — dois pelo Newcastle e um pelo Lyon. Ainda assim, foi o escolhido para bater no momento mais decisivo da partida. A responsabilidade deveria ter sido de Vinícius Júnior, principal estrela da equipe. Se errasse, teria estrutura emocional e protagonismo suficientes para suportar o peso da cobrança. Bruno Guimarães, que vinha fazendo uma boa atuação, sentiu o golpe. Depois da penalidade desperdiçada, caiu de rendimento e se abalou emocionalmente.
Os números das finalizações também ajudam a explicar o resultado. O Brasil chutou mais que a Noruega: foram 10 finalizações contra 6. A diferença esteve na eficiência. Haaland precisou de poucas oportunidades para marcar os dois gols que decidiram o jogo. Do lado brasileiro, Endrick desperdiçou uma chance clara, cara a cara com o goleiro, e Casemiro também teve uma oportunidade semelhante que não conseguiu converter.
Neymar deveria ter começado a partida como titular. Sua entrada mudou o comportamento da equipe. Chamou a responsabilidade, empurrou o Brasil para o ataque, enfrentou as provocações dos jogadores noruegueses, Casemiro sofreu o pênalti, o camisa 10 converteu a cobrança com extrema categoria. Um jogador com esse nível técnico e essa personalidade não pode ser reserva.
Se o trabalho dentro de campo foi decepcionante, a postura de Ancelotti após a derrota foi ainda pior. O treinador abandonou os jogadores, que permaneceram destroçados no gramado, e se esquivou da responsabilidade. Em vez de encarar a imprensa e prestar esclarecimentos, enviou o próprio filho para conceder a entrevista coletiva após a partida. Uma atitude incompatível com quem ocupa o principal cargo de comando da Seleção Brasileira. Nos momentos de vitória, o técnico costuma assumir o protagonismo. Nas derrotas, porém, espera-se a mesma responsabilidade.
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) antecipou a renovação do contrato de Ancelotti até 2030 apostando em um projeto de longo prazo. Mas, se a avaliação for de que o trabalho não corresponde às expectativas e não há perspectiva de evolução, insistir apenas pelo compromisso firmado pode custar ainda mais caro. Em alguns casos, pagar a multa rescisória e buscar um novo caminho é uma decisão menos onerosa do que prolongar um projeto sem resultados.
É difícil admitir, mas a Seleção Brasileira hoje se tornou um time comum. Há bons jogadores em praticamente todas as posições, porém falta um atleta capaz de decidir partidas e assumir o protagonismo nos momentos mais importantes. O único jogador que ainda merece ser chamado de craque é Neymar. E, ironicamente, ele começou a partida no banco de reservas.
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