
Pôster de Toy Story 5
Reprodução/Internet
A estreia de Toy Story 5 me fez pensar em uma pergunta que tenho repetido cada vez mais nos últimos anos: o cinema está perdendo a vontade de criar?
Não me entendam mal. Continuações não são um problema. Trilogias e sagas sempre existiram, e muitas delas fazem sentido justamente porque possuem um arco narrativo. Existe uma apresentação, um conflito, uma evolução e um desfecho. Há histórias que pedem continuidade. O problema é quando a continuidade deixa de servir à narrativa e passa a servir apenas à marca.
Confesso que já não vejo Toy Story com o mesmo encantamento dos dois primeiros filmes. O mesmo acontece com franquias como Velozes e Furiosos, que parecem ter abandonado qualquer noção de fim. Não porque sejam necessariamente filmes ruins, mas porque chega um momento em que a pergunta deixa de ser "essa história precisava ser contada?" e passa a ser "até quando isso vai continuar?".
Talvez essa seja uma das maiores características do cinema contemporâneo. Hoje, parece que vivemos em uma indústria movida pela reciclagem. Reboots, remakes, live-actions, spin-offs, universos compartilhados e continuações infinitas dominam boa parte dos grandes lançamentos. O passado nunca esteve tão presente. Em vez de olharmos para frente, estamos constantemente revisitando aquilo que já conhecemos.
E é impossível ignorar que a nostalgia se tornou uma ferramenta extremamente lucrativa.
A nostalgia é confortável. Ela desperta memórias afetivas, faz o público se reconectar com personagens e mundos que marcaram sua infância e cria uma sensação de familiaridade. Não há nada de errado nisso. Relembrar o passado faz parte da experiência humana. O problema surge quando esse sentimento deixa de ser algo espontâneo e passa a ser tratado como produto.
Hoje, Hollywood não vende apenas filmes. Ela vende memórias.
Talvez seja justamente por isso que estamos cercados por tantos remakes e continuações. Apostar no desconhecido custa caro. Criar um universo novo significa correr riscos. Já trazer de volta algo que o público ama oferece uma segurança muito maior. Afinal, por que investir centenas de milhões em uma ideia inédita quando é possível fazer mais um live-action, mais uma sequência ou mais uma série derivada de uma franquia já consolidada?
Não é que Hollywood esteja sem criatividade. O problema é que ela parece cada vez menos disposta a correr riscos.
Isso não significa que a criatividade tenha desaparecido do cinema. Muito pelo contrário. Ela continua surgindo em diferentes lugares, muitas vezes longe das grandes franquias.
Nos últimos anos, filmes como Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, Corra! e Parasita mostraram que histórias originais ainda são capazes de conquistar público, crítica e até as principais premiações da indústria. Nenhum deles nasceu de uma franquia consolidada. Nenhum dependia da nostalgia para existir. Todos apostaram em ideias próprias e provaram que o público também está disposto a abraçar o desconhecido quando recebe algo realmente novo.
O terror talvez seja hoje um dos melhores exemplos disso. Enquanto muitos estúdios apostam em marcas já conhecidas, novos diretores continuam explorando conceitos originais, formatos diferentes e narrativas que desafiam fórmulas prontas. Produções recentes como Obsessão e Backrooms chamaram atenção justamente por apresentarem propostas que não dependem de personagens consagrados ou universos compartilhados para despertar interesse. São filmes que nasceram da curiosidade criativa, não da segurança comercial.
Talvez o problema não seja a falta de criatividade no cinema. Talvez ela apenas esteja encontrando espaço em lugares diferentes daqueles que costumavam dominar a indústria.
Saudades da época em que os maiores clássicos do cinema eram apostas. George Lucas não sabia se Star Wars seria um sucesso. Steven Spielberg não tinha como prever o impacto de Tubarão. Francis Ford Coppola não imaginava que O Poderoso Chefão se tornaria um marco cultural. Eram projetos originais que poderiam fracassar. E talvez fosse justamente essa possibilidade do fracasso que permitia tamanha liberdade criativa.
É curioso perceber que o próprio Star Wars se tornou um exemplo dessa transformação. O que nasceu como uma obra original e ousada hoje parece existir em função da própria nostalgia. Novas séries, spin-offs, personagens retornando décadas depois, produtos licenciados e referências constantes ao passado fazem com que a sensação de descoberta seja substituída pelo conforto do familiar. Em alguns momentos, parece que não estamos mais explorando uma galáxia muito distante, mas apenas consumindo diferentes formas de uma mesma lembrança.
E isso não acontece apenas com Star Wars. A Disney transformou suas animações clássicas em live-actions. Hollywood revive franquias encerradas há décadas. Filmes que possuíam finais definitivos ganham continuações porque ainda existe potencial de lucro. Em muitos casos, as produções já são anunciadas pensando em futuras sequências, universos compartilhados e expansões de marca antes mesmo de se preocuparem em contar uma boa história.
Qual é o limite entre homenagear o passado e se tornar prisioneiro dele?
Porque homenagear é diferente de depender. Uma homenagem olha para trás sem deixar de seguir em frente. Já a dependência transforma o passado em uma muleta criativa.
Talvez eu seja romântica demais, mas sinto falta da sensação de não saber o que esperar de um filme. Sinto falta de sair do cinema tendo conhecido personagens novos, mundos novos e histórias inéditas. Sinto falta de diretores e roteiristas que criavam seus maiores trabalhos sem saber se eles seriam sucessos ou fracassos.
Hoje, muitas vezes, parece que os estúdios não querem descobrir o próximo Star Wars. Eles querem apenas continuar vendendo o antigo.
Talvez Toy Story 5 tenha uma ótima história para contar. E, se tiver, será muito bem-vindo.
Mas o simples fato de sua existência já desperta uma pergunta que diz muito sobre o cinema atual.
Os estúdios ainda estão procurando o próximo grande universo original ou apenas tentando prolongar os que já existem?
Porque, no fim das contas, a nostalgia é maravilhosa. Ela nos conecta a momentos, personagens e histórias que marcaram nossas vidas. Mas deveria ser um abraço no passado, não um substituto para o futuro.
E nenhum cinema sobrevive apenas de memórias.
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