A importância da figura paterna na construção da subjetividade da criança

Por Redação
REDAÇÃO

22/12/2023 • 09:49 • Atualizado em 22/12/2023 • 09:49

Os Nós da Mente
A importância da figura paterna na construção da subjetividade da criança

A importância da figura paterna na construção da subjetividade da criança

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Por Simone Pontes, psicanalista - @simone_galvao_pontes

A família é o lugar em que a criança encontra condições para seu desenvolvimento, onde os pais desempenham papel fundamental na sua formação, transmitindo-lhe a linguagem, seus valores familiares e culturais. Os pais são a referência da criança, indivíduos com quem elas se identificarão, fornecendo a estrutura das relações que serão estabelecidas ao longo da vida.

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Ao contar com pais afetivos que proporcionem apoio e proteção, a criança consegue desenvolver estruturas psíquicas consistentes e seguras, conseguido assim enfrentar as adversidades da vida e estabelecer vínculos mais afetivos em suas relações.

O impacto causado pela ausência paterna vai depender dos recursos emocionais individuais dessa criança/ adolescente e o manejo da família ou rede de apoio, que podem ou não amenizar os efeitos advindos dessa ausência.

É importante considerar os recursos emocionais da mãe e o tipo de convívio entre ela e filho, pois desta relação pode haver uma propensão para conflitos associados à falta do pai, de maior ou menor relevância.

Além desses aspectos, devemos considerar também que o comportamento parental encontra-se vinculado, em alguma medida, aos modelos transgeracionais, a partir da qual os padrões familiares se repetem de uma geração a outra, através de valores, crenças, mitos e segredos.

A presença ativa e constante do pai na vida do indivíduo desde seu nascimento tem grande importância na estruturação psíquica e no desenvolvimento social e cognitivo da criança, facilitando a capacidade de aprendizagem e a integração da criança na sociedade, podendo ajudar principalmente a criança a se sentir mais segura com as novas vivências que vão se apresentando no decorrer de seu crescimento.

Sem essa presença, essas crianças tendem a não desenvolver as habilidades adequadas para a convivência em sociedade, sendo incapazes de seguir regras, leis ou respeitar figuras de autoridade, podendo também desenvolver sentimento de inferioridade, rejeição, não se sentindo amada, prejudicando muito sua autoestima.

E qual é o lugar do pai na constituição dessa subjetividade? A ausência do referencial paterno é fator gerador de filhos e filhas despreparados para as relações afetivas em geral, refletindo em como vãos se estabelecer na vida adulta.

A ausência do pai na infância, seja física ou afetiva, resultante de seu falecimento, divórcio ou qualquer outra circunstância temporária ou permanente é entendida como a falta física e/ou emocional do pai para seus filhos, podendo trazer muitas consequências, sendo extremamente prejudicial ao desenvolvimento psíquico e comprometendo o desenvolvimento da criança e do adolescente, gerando vários problemas na formação da personalidade do mesmo, que refletirão posteriormente na sua jornada como indivíduo inserido em uma comunidade.

A repercussão do distanciamento da figura paterna, seja físico e/ou afetivo, vai refletir em sentimentos de auto depreciação, de inexistência, abandono, rejeição, culpa, privações, solidão, inseguranças, carências, baixa autoestima e dificuldades de estabelecer relacionamentos, colocando em risco a formação de novos vínculos. Esses sentimentos começam a ser percebidos na infância e interferem no desenvolvimento do jovem chegando até a idade adulta.

A criança que consegue contar com pais afetivos que lhe proporcionem apoio, conforto e proteção é capaz de desenvolver estruturas psíquicas suficientemente seguras para enfrentar as dificuldades da vida, enquanto a criança que vive a privação paterna, seja física ou afetiva tem em sua constituição um fator de risco para o seu desenvolvimento, prejudicando assim as relações com seus pares, aumentado o risco de envolvimento com drogas, criminalidade, depressão, ansiedade, entre outros.

Os filhos necessitam de apoio, segurança e o estabelecimento de valores que, cabe ao pai transmitir. Assim, as crianças que chegam à adolescência privadas, do convívio físico e afetivo com o pai podem enfrentar problemas de identificação sexual, além de dificuldades de reconhecer limites e de aprender regras de convivência social, o que estaria relacionado com a dificuldade de internalização de um pai simbólico, capaz de representar a instância moral do indivíduo.

É necessário que o pai impulsione o filho a seguir adiante, se oferecendo como um elemento importante e fundamental para a identificação, que antes era um papel restrito à mãe. Os jovens procuram no próprio pai um modelo com o qual possam identificar-se e, se este está ausente, outros modelos poderão ocupar esse vazio, com maior possibilidade de não serem modelos positivos.

As questões relacionadas à ausência paterna que tem início na infância, permanecem trazendo dificuldades quando os indivíduos chegam à idade adulta, não se sentindo preparados para enfrentar os problemas do cotidiano.

Tratar danos emocionais de um pai ausente é um dos maiores desafios da clínica e um grande desafio para garantirmos o desenvolvimento de uma constituição psíquica saudável para crianças e jovens. É preciso entender que muitos sentimentos estão envolvidos nesse processo que é fundamental para o desenvolvimento da personalidade dos indivíduos.

A fim de melhor compreender como a condição da ausência paterna interfere na trajetória de desenvolvimento na idade adulta, é imprescindível realizar uma escuta ativa e continente dos pacientes, sejam crianças, adolescentes ou adultos em suas relações familiares.

É um processo delicado e árduo acessar esse local de sofrimentos, vulnerabilidades, mágoas e angústias, mas que necessita ser revisitado para que esses indivíduos possam enfrentar essa realidade e encontrar formas de lidar com as dificuldades emocionais que decorrem dessas relações.

A questão de quem são nossos pais e de onde viemos é central na nossa constituição.

Quando um pai se ausenta, isso deixa marcas na criança - Belinda Mandelbaum

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