
A Garrafa sobre a mesa
Inteligência Artificial
Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.
Em 1994, um caso de contaminação ambiental no bairro Recanto dos Pássaros, em Paulínia, ganhou repercussão nacional.
Um terreno próximo que abriga chácaras havia sido contaminado por metais pesados despejados no solo por uma antiga fábrica de pesticidas da Indústria Shell Química.
A contaminação aconteceu na década de 70, mas a descoberta só veio à tona nos anos 90.
Na época, eu era repórter da TV Tracajá e acompanhei boa parte das investigações e processos que vieram depois.
No início, era apenas o relato dos chacareiros que viviam e produziam ali. A Shell simplesmente não reconhecia o problema.
Com o tempo começaram a surgir laudos técnicos mostrando que amostras do solo continham substâncias que eram patentes da própria empresa — compostos da família de substâncias dos chamados “Drins”, pesticidas que haviam sido banidos do mercado justamente por serem altamente tóxicos e cancerígenos.
Mesmo assim, a indústria continuava negando qualquer responsabilidade.
Enquanto isso, a situação das famílias só piorava.
Alguns chacareiros que cultivavam alimentos naquela área começaram a apresentar problemas graves de saúde.
Ao mesmo tempo, ex-funcionários da antiga fábrica de pesticidas também passaram a relatar doenças semelhantes e entraram na Justiça contra a empresa.
A prefeitura de Paulínia acabou encampando a causa dos moradores e colocou a Secretaria de Saúde à disposição para exames e acompanhamento médico.
A Shell seguia adotando a mesma postura: não falava diretamente com a imprensa e respondia apenas por meio de notas oficiais negando qualquer relação com a contaminação.
Mas a pressão aumentava.
O Ministério Público e a Polícia Civil abriram investigações e começaram a apontar relações importantes entre a contaminação do solo e os problemas de saúde relatados por moradores e antigos trabalhadores da fábrica.
Foi nesse ambiente de tensão que aconteceu uma audiência pública coordenada pela promotoria de Justiça do Estado de São Paulo.
Os representantes da empresa tentavam desmontar as acusações. Argumentavam que não havia comprovação científica da relação entre as doenças e a contaminação do solo.
Em determinado momento, os advogados da Shell afirmaram que análises da água da região apontavam níveis de potabilidade dentro dos padrões.
Ou seja: segundo eles, não havia contaminação.
Foi quando surgiu um elemento que ninguém esperava.
O líder da associação que representava os chacareiros entrou na sala carregando algumas garrafas com uma água meio turva.
Colocou uma delas sobre a mesa e disse:
— O senhor acabou de afirmar que a água do local é potável. Essa água aqui foi retirada dos poços das chácaras. O senhor poderia beber um pouco agora, aqui na frente de todos?
Silêncio absoluto.
Os advogados da empresa gaguejaram entre um “veja bem” e um “ora veja”...
Mas a pergunta já tinha feito o estrago.
Pouco tempo depois, quando a empresa percebeu a gravidade da situação e os prejuízos para a própria imagem, já era tarde.
O caso havia se espalhado pelo país. Foi parar no Jornal Nacional, ganhou repercussão internacional e o impacto atingiu até o valor das ações da companhia.
A partir daí começaram as negociações.
Anos depois, um acordo homologado no Tribunal Superior do Trabalho envolveu a Shell e a Basf, que assumiu a planta industrial posteriormente.
O acordo garantiu assistência médica integral e vitalícia para mais de mil pessoas afetadas, além de indenizações milionárias, construção de hospital e monitoramento permanente da área contaminada.
Mas naquele dia, eu aprendi algo que levo para qualquer palestra:
Crise não se administra apenas com laudos e notas oficiais.
Às vezes, tudo se resume a uma garrafa d’água sobre a mesa.
---
*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail.
Selecione os seus temas favoritos:


