
Carnaval que acabou no Distrito Policial
Inteligência Artificial
Era fevereiro de 1989 e a Central Tracajá de Jornalismo, como de costume, preparava uma cobertura especial para o Carnaval em todo o Brasil.
Naquele tempo ainda não existia o slogan “Carnaval Tracabeleza”. A cada ano surgia uma vinheta diferente para embalar a programação.
Em 1989 ela dizia:
— Tracajá é, é... samba no pé, no pé... quem sabe, sabe... vai dizer como é que é...
E entravam os boletins.
Como acontecia em todas as grandes coberturas, profissionais das emissoras do interior eram convocados para reforçar as equipes nas capitais.
Da TV Tracajá Campinas, quatro pessoas seguiram para São Paulo. Eu era uma delas. Mas ninguém trabalhava junto.
- A repórter Renata Ceribelli ficou responsável pelas entradas ao vivo na dispersão dos desfiles.
- O cinegrafista Alfredo Morganti acompanhou o repórter Brito Júnior.
E eu fui escalado para a equipe que produzia boletins e flashes de curiosidades ao longo da Avenida Tiradentes.
Sim, Avenida Tiradentes.
O Sambódromo do Anhembi ainda não existia. Seria inaugurado apenas dois anos depois.
Todos nós tínhamos pouco mais de vinte anos. E, como qualquer grupo de jovens enviado para cobrir o Carnaval de São Paulo, começamos a fazer planos para o pós-expediente.
É importante lembrar que não existiam celulares.
Por isso, antes de sairmos do hotel, combinamos tudo nos mínimos detalhes.
- Terminados os desfiles;
- Equipamentos entregues;
- Serviço encerrado.
Todo mundo se reencontraria para aproveitar um pouco da folia.
O plano parecia perfeito. A cobertura foi um sucesso. Os chefes em São Paulo elogiaram o trabalho. O dia já clareava quando a última escola deixou a avenida.
Era hora de guardar os equipamentos e partir para a segunda etapa da missão: divertir-se.
Mas foi justamente aí que o Carnaval acabou.
Quando chegamos ao carro da reportagem, um dos integrantes da equipe percebeu algo estranho.
O iluminador Jurandir foi o primeiro a notar.
— Cadê a lancheira?
"Lancheira" era o apelido de uma mochila de baterias Maxicom, fundamental para o funcionamento dos equipamentos.
Bastou uma rápida conferência para descobrir o problema. O vidro havia sido violado. A mochila tinha sido furtada.
Fim dos planos.
Fim da folia.
Fim da estratégia cuidadosamente montada horas antes.
Pouco depois, toda a equipe seguia para o 2º Distrito Policial, no Bom Retiro, para registrar a ocorrência. E quem já entrou num plantão policial durante o Carnaval sabe o que isso significa.
A fila parecia não ter fim.
- Brigas;
- Furtos;
- Discussões;
- Confusões de toda espécie.
Enquanto isso, nós aguardávamos. Hora após hora.
Em determinado momento surgiu uma boa notícia.
Graças ao trabalho dos investigadores, a mochila foi localizada.
Mas o alívio trouxe um novo problema.
Recuperar o equipamento significava acompanhar procedimentos, depoimentos e toda a burocracia necessária para formalizar o flagrante.
O relógio avançava.
A disposição desaparecia.
E o Carnaval também.
Quando tudo terminou, mais de seis horas depois, ninguém tinha energia para clube, festa ou avenida.
Voltamos para o hotel. Cada um para o seu quarto. Cada um para a sua cama.
E ali terminou o grande plano carnavalesco da equipe.
No jornalismo, aprendemos cedo a conviver com o imprevisto. Às vezes ele aparece durante a cobertura. Às vezes aparece depois que ela termina.
E há ocasiões em que a melhor história do Carnaval não acontece na avenida — acontece dentro de um distrito policial.
Participação dos repórteres @fcrenataceribelli e @brittojr.
Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.
*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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