
O celular que apagou a audiência
Inteligência Artificial
Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.
Maio de 2012.
O juiz Nelson Augusto Bernardes presidia mais uma audiência do caso Sanasa — o maior escândalo de corrupção vivido até então em Campinas.
Segundo o Gaeco, políticos e funcionários públicos recebiam propinas para favorecer empresas em contratos da Sanasa, responsável pelo saneamento da cidade.
Naquela fase do processo, o juiz ouvia testemunhas, promotoria e advogados de defesa.
A imprensa podia acompanhar.
Mas havia uma regra clara:
Nada de gravação.
Nada de fotos.
Nada de perguntas dentro da sala.
Eu cobria o caso pela TV Tracajá. Bloco de anotações na mão, silêncio absoluto.
O ambiente era pesado.
As acusações eram graves.
O poder público municipal parecia derreter diante das revelações.
Entre um depoimento e outro, o silêncio foi rasgado por um toque estridente.
O telefone de Valéria Reis, colega de uma emissora concorrente, disparava dentro da bolsa.
Ela já era conhecida pelos episódios atabalhoados. Mas ali não havia espaço para humor.
Réus, advogados, promotor e o próprio juiz voltaram os olhos na direção dela.
Ela enfiou a mão na bolsa, desligou o aparelho.
O toque continuava.
Não era o corporativo. Era o pessoal.
Mais alto.
Desespero.
Finalmente conseguiu desligar.
Enquanto pedia desculpas e tentava recompor a postura na cadeira, bateu a cabeça no interruptor.
A sala mergulhou na escuridão.
Audiência suspensa.
Por alguns segundos, o maior escândalo político da cidade foi interrompido por dois celulares e um interruptor.
As luzes voltaram.
O juiz retomou a sessão.
Eu voltei a anotar.
Nada apaga a tensão daquele dia, mas sempre que me lembro daquela audiência, é impossível não rir.
#casosanasa, #audiência, #corrupção, #jornalismo, #bandtv.
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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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