O celular que apagou a audiência

Por Redação
REDAÇÃO

18/03/2026 • 13:38 • Atualizado em 18/03/2026 • 13:38

Valter Sena
O celular que apagou a audiência

O celular que apagou a audiência

Inteligência Artificial

Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.

Compartilhar

Maio de 2012.

O juiz Nelson Augusto Bernardes presidia mais uma audiência do caso Sanasa — o maior escândalo de corrupção vivido até então em Campinas.

Segundo o Gaeco, políticos e funcionários públicos recebiam propinas para favorecer empresas em contratos da Sanasa, responsável pelo saneamento da cidade.

Naquela fase do processo, o juiz ouvia testemunhas, promotoria e advogados de defesa.

A imprensa podia acompanhar.

Mas havia uma regra clara:

Nada de gravação.

Nada de fotos.

Nada de perguntas dentro da sala.

Eu cobria o caso pela TV Tracajá. Bloco de anotações na mão, silêncio absoluto.

O ambiente era pesado.

As acusações eram graves.

O poder público municipal parecia derreter diante das revelações.

Entre um depoimento e outro, o silêncio foi rasgado por um toque estridente.

O telefone de Valéria Reis, colega de uma emissora concorrente, disparava dentro da bolsa.

Ela já era conhecida pelos episódios atabalhoados. Mas ali não havia espaço para humor.

Réus, advogados, promotor e o próprio juiz voltaram os olhos na direção dela.

Ela enfiou a mão na bolsa, desligou o aparelho.

O toque continuava.

Não era o corporativo. Era o pessoal.

Mais alto.

Desespero.

Finalmente conseguiu desligar.

Enquanto pedia desculpas e tentava recompor a postura na cadeira, bateu a cabeça no interruptor.

A sala mergulhou na escuridão.

Audiência suspensa.

Por alguns segundos, o maior escândalo político da cidade foi interrompido por dois celulares e um interruptor.

As luzes voltaram.

O juiz retomou a sessão.

Eu voltei a anotar.

Nada apaga a tensão daquele dia, mas sempre que me lembro daquela audiência, é impossível não rir.

#casosanasa, #audiência, #corrupção, #jornalismo, #bandtv.

---

*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.

Newsletter Notícias

Inscreva-se na nossa newsletter e receba as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail.

Selecione os seus temas favoritos: