
O Contraluz, a caravela e a atriz
Inteligência artificial
Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.
Final de abril de 1989. A TV Tracajá foi requisitada pela Rede para apoiar o sorteio do “Caminhão do Paulão”, uma promoção exibida dentro do principal programa dominical de auditório da época.
A convidada escalada era a atriz Ítala Nandi, então em evidência na novela de maior audiência.
A direção local decidiu ousar: a transmissão seria feita da réplica de uma caravela instalada na Lagoa do Taquaral. Um cenário histórico para um programa popular. Cinco câmeras, carro de link e o sistema de micro-ondas enviando som e imagem para a torre da emissora em Campinas, que rebatia o sinal para São Paulo e, de lá, para o Rio de Janeiro, onde o programa era gerado ao vivo.
Era tecnologia de ponta para a época. E delicada.
Para não correr riscos, o diretor sugeriu um ensaio geral no dia anterior.
Fizemos.
De manhã.
Escolhemos ângulos, enquadramos a caravela em plano aberto, aproveitamos a luz natural. Tudo parecia impecável. A equipe saiu com a sensação de missão cumprida.
No dia seguinte, às 15h, horário da transmissão, o sol estava em outra posição.
Contraluz.
O fundo brilhava. O primeiro plano escurecia. Nos equipamentos analógicos do fim dos anos 80, isso não era mero detalhe estético — era problema sério.
Em poucos minutos, câmeras foram reposicionadas, a montanha de cartas mudou de lugar, a atriz foi conduzida para um ponto improvisado da embarcação. Ajustes feitos na pressa, sob tensão, enquanto o relógio avançava.
Contagem regressiva:
— Atenção, 10 segundos…
9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1…
No ar.
O apresentador, direto do estúdio, chamou com entusiasmo:
— Vamos falar com a gloriosa atriz Ítala Nandi!
E lá estava ela.
Microfone na mão. Fones no ouvido. Olhando para a lagoa.
Sem reação.
Ela não ouvia nada.
Até hoje não sabemos se, na correria das mudanças, algum cabo foi desconectado, se houve pane na mesa de som ou falha no retorno. O fato é que o Brasil inteiro assistia, e a atriz não escutava o apresentador.
Eu tinha vinte e três anos.
Naquele silêncio, senti tudo ao mesmo tempo: adrenalina, confusão, uma vergonha antecipada.
Mas principalmente medo.
Medo de prejudicar o programa.
Medo de que aquela falha respingasse na imagem da TV Tracajá.
Medo de que, ainda tão jovem, eu estivesse participando de um erro grande demais.
O apresentador percebeu a ausência de resposta e, com habilidade, avisou que ela retornaria em instantes com o sorteio.
Foi o tempo necessário para a equipe correr, revisar conexões e restabelecer o áudio.
Na segunda entrada, tudo funcionou. Sorteio realizado. Família premiada. Programa salvo.
O público provavelmente nunca soube do que aconteceu.
Mas eu soube.
Naquele dia entendi que ensaio não é garantia de controle.
Ao vivo, o controle é sempre provisório.
E a reputação construída ao longo de anos pode tremer em dez segundos de silêncio.
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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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