O Contraluz, a caravela e a atriz

Por Redação
REDAÇÃO

11/03/2026 • 14:05 • Atualizado em 11/03/2026 • 14:05

Valter Sena
O Contraluz, a caravela e a atriz

O Contraluz, a caravela e a atriz

Inteligência artificial

Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.

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Final de abril de 1989. A TV Tracajá foi requisitada pela Rede para apoiar o sorteio do “Caminhão do Paulão”, uma promoção exibida dentro do principal programa dominical de auditório da época.

A convidada escalada era a atriz Ítala Nandi, então em evidência na novela de maior audiência.

A direção local decidiu ousar: a transmissão seria feita da réplica de uma caravela instalada na Lagoa do Taquaral. Um cenário histórico para um programa popular. Cinco câmeras, carro de link e o sistema de micro-ondas enviando som e imagem para a torre da emissora em Campinas, que rebatia o sinal para São Paulo e, de lá, para o Rio de Janeiro, onde o programa era gerado ao vivo.

Era tecnologia de ponta para a época. E delicada.

Para não correr riscos, o diretor sugeriu um ensaio geral no dia anterior.

Fizemos.

De manhã.

Escolhemos ângulos, enquadramos a caravela em plano aberto, aproveitamos a luz natural. Tudo parecia impecável. A equipe saiu com a sensação de missão cumprida.

No dia seguinte, às 15h, horário da transmissão, o sol estava em outra posição.

Contraluz.

O fundo brilhava. O primeiro plano escurecia. Nos equipamentos analógicos do fim dos anos 80, isso não era mero detalhe estético — era problema sério.

Em poucos minutos, câmeras foram reposicionadas, a montanha de cartas mudou de lugar, a atriz foi conduzida para um ponto improvisado da embarcação. Ajustes feitos na pressa, sob tensão, enquanto o relógio avançava.

Contagem regressiva:

— Atenção, 10 segundos…

9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1…

No ar.

O apresentador, direto do estúdio, chamou com entusiasmo:

— Vamos falar com a gloriosa atriz Ítala Nandi!

E lá estava ela.

Microfone na mão. Fones no ouvido. Olhando para a lagoa.

Sem reação.

Ela não ouvia nada.

Até hoje não sabemos se, na correria das mudanças, algum cabo foi desconectado, se houve pane na mesa de som ou falha no retorno. O fato é que o Brasil inteiro assistia, e a atriz não escutava o apresentador.

Eu tinha vinte e três anos.

Naquele silêncio, senti tudo ao mesmo tempo: adrenalina, confusão, uma vergonha antecipada.

Mas principalmente medo.

Medo de prejudicar o programa.

Medo de que aquela falha respingasse na imagem da TV Tracajá.

Medo de que, ainda tão jovem, eu estivesse participando de um erro grande demais.

O apresentador percebeu a ausência de resposta e, com habilidade, avisou que ela retornaria em instantes com o sorteio.

Foi o tempo necessário para a equipe correr, revisar conexões e restabelecer o áudio.

Na segunda entrada, tudo funcionou. Sorteio realizado. Família premiada. Programa salvo.

O público provavelmente nunca soube do que aconteceu.

Mas eu soube.

Naquele dia entendi que ensaio não é garantia de controle.

Ao vivo, o controle é sempre provisório.

E a reputação construída ao longo de anos pode tremer em dez segundos de silêncio.

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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.

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