O disquete 17

Por Redação
REDAÇÃO

08/04/2026 • 12:56 • Atualizado em 08/04/2026 • 12:56

Valter Sena
O disquete 17

O disquete 17

Foto/IA

O ano era 1997. Eu atuava como assessor de imprensa no gabinete da primeira-dama de Tracajá City. Início de governo, demandas em avalanche, sensação permanente de urgência.

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Precisávamos de apoio técnico da empresa municipal de informática. A primeira-dama ligou diretamente para o presidente da autarquia. Milagre administrativo: no mesmo dia, dois técnicos entraram na minha sala carregando algumas caixas.

De dentro delas surgiu um Pentium 166 MHz, rodando o poderoso Windows 95. Para a época, aquilo era quase um foguete da NASA. Vieram também caixas de som, microfone, impressora colorida e uma pequena caixa de acrílico contendo 34 disquetes.

Trinta e quatro.

Perguntei ao técnico o que era aquilo. E ele respondeu:

— Bem-vindo ao mundo maravilhoso da tecnologia. Esse é o pacote Office.

Dei um sorriso e ele iniciou a instalação do tal pacote, uma verdadeira saga de entra disquete, sai disquete.

A cada etapa, uma janela cinza com uma barrinha azul avançava lentamente, como se estivesse ensinando paciência a dois adultos ansiosos.

Depois de mais de uma hora vendo o ato se repetindo, por um capricho da computação, o disquete número 17, que estava bem no meio do processo, travou.

Mensagem de erro na tela e olhos incrédulos na sala.

O técnico retirou pacientemente aquela mídia do drive, abriu uma pequena janelinha na lateral e soprou forte.

Recolocou o bendito disquete na máquina. A mensagem de falha desapareceu e respiramos aliviados.

A cerimônia de instalação durou 2 horas e 47 minutos.

Quando o último disquete foi ejetado, senti que havíamos atravessado uma fronteira histórica.

Agora éramos modernos.

Ou quase.

Nem todas as redações tinham computador. E-mail era luxo. A rotina era a seguinte: escrever o press release, imprimir, subir três andares até a assessoria central e entregar o texto ao operador de fax.

O fax era quase mágico. Você colocava uma folha num aparelho, ele fazia um barulho de nave espacial e, minutos depois, uma cópia surgia do outro lado da cidade — desde que a linha telefônica não estivesse ocupada.

E quase sempre estava.

Cada redação tinha uma única linha para tudo: telefone e fax. Se alguém estivesse falando, o envio falhava. Voltava para o fim da fila. O operador recolhia os comprovantes como quem coleciona medalhas de uma maratona invisível.

O tempo parecia correr mais devagar. Mas a pressão era a mesma.

Hoje, um release atravessa o país em segundos. Um clique substituiu 34 disquetes e uma pilha de comprovantes térmicos. A tecnologia acelerou tudo.

Só não ensinou ninguém a esperar.

Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.

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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.

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