
O disquete 17
Foto/IA
O ano era 1997. Eu atuava como assessor de imprensa no gabinete da primeira-dama de Tracajá City. Início de governo, demandas em avalanche, sensação permanente de urgência.
Precisávamos de apoio técnico da empresa municipal de informática. A primeira-dama ligou diretamente para o presidente da autarquia. Milagre administrativo: no mesmo dia, dois técnicos entraram na minha sala carregando algumas caixas.
De dentro delas surgiu um Pentium 166 MHz, rodando o poderoso Windows 95. Para a época, aquilo era quase um foguete da NASA. Vieram também caixas de som, microfone, impressora colorida e uma pequena caixa de acrílico contendo 34 disquetes.
Trinta e quatro.
Perguntei ao técnico o que era aquilo. E ele respondeu:
— Bem-vindo ao mundo maravilhoso da tecnologia. Esse é o pacote Office.
Dei um sorriso e ele iniciou a instalação do tal pacote, uma verdadeira saga de entra disquete, sai disquete.
A cada etapa, uma janela cinza com uma barrinha azul avançava lentamente, como se estivesse ensinando paciência a dois adultos ansiosos.
Depois de mais de uma hora vendo o ato se repetindo, por um capricho da computação, o disquete número 17, que estava bem no meio do processo, travou.
Mensagem de erro na tela e olhos incrédulos na sala.
O técnico retirou pacientemente aquela mídia do drive, abriu uma pequena janelinha na lateral e soprou forte.
Recolocou o bendito disquete na máquina. A mensagem de falha desapareceu e respiramos aliviados.
A cerimônia de instalação durou 2 horas e 47 minutos.
Quando o último disquete foi ejetado, senti que havíamos atravessado uma fronteira histórica.
Agora éramos modernos.
Ou quase.
Nem todas as redações tinham computador. E-mail era luxo. A rotina era a seguinte: escrever o press release, imprimir, subir três andares até a assessoria central e entregar o texto ao operador de fax.
O fax era quase mágico. Você colocava uma folha num aparelho, ele fazia um barulho de nave espacial e, minutos depois, uma cópia surgia do outro lado da cidade — desde que a linha telefônica não estivesse ocupada.
E quase sempre estava.
Cada redação tinha uma única linha para tudo: telefone e fax. Se alguém estivesse falando, o envio falhava. Voltava para o fim da fila. O operador recolhia os comprovantes como quem coleciona medalhas de uma maratona invisível.
O tempo parecia correr mais devagar. Mas a pressão era a mesma.
Hoje, um release atravessa o país em segundos. Um clique substituiu 34 disquetes e uma pilha de comprovantes térmicos. A tecnologia acelerou tudo.
Só não ensinou ninguém a esperar.
Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.
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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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