
O General e o marceneiro
Foto/IA
Era novembro de 1996 e a Rádio Tracajá completava 5 anos de filiação ao poderoso “Sistema Tracajá de Rádio”. A direção da emissora decidiu comemorar em grande estilo: café da manhã caprichado e entrevista ao vivo com um general do Exército, comandante da brigada que comandava as unidades das Forças Armadas na região.
Oficialmente, tratava-se de uma pauta institucional. Extraoficialmente, circulava na antessala uma expectativa mais estratégica. Comentava-se que o militar tinha bom trânsito em Brasília — e a emissora, digamos, enfrentava uma pequena pendência burocrática envolvendo sua antena de transmissão.
Nada declarado. Apenas um “talvez o senhor conheça alguém”.
O general chegou pontualmente. Recepção impecável. Diretores apresentados, instalações exibidas, croissants elogiados. Tudo dentro do roteiro.
Dez minutos antes da entrevista, o assistente avisou que era hora de ir ao estúdio. Microfone, enquadramento, últimos ajustes. A comitiva seguiu pelo corredor em clima de absoluta normalidade.
Até que, a poucos metros da porta, surgiu Tião.
Marceneiro eventual da casa, homem prático, martelo na mão e zero compromisso com diplomacia corporativa. Parou o que fazia, olhou para o visitante estrelado e perguntou, em alto e bom som:
— Esse é o magnata do quartel que veio resolver o pobrema da antena?
O silêncio foi imediato. O superintendente perdeu a cor. O diretor de jornalismo ensaiou um sorriso nervoso. O general virou-se, sereno:
— Que problema vocês têm com a antena?
Resposta rápida, seca, protocolar:
— Nenhum, general. O Tião deve ter confundido o senhor com outra pessoa.
A entrevista aconteceu normalmente. O general agradeceu a recepção, elogiou a estrutura da emissora e foi embora com a mesma pontualidade com que chegou.
A antena continuou com a pendência.
E Tião… bem, Tião nunca mais foi visto pelos corredores.
Na comunicação, você pode planejar o roteiro, ensaiar a abordagem e caprichar no croissant. Mas sempre haverá um corredor — e alguém disposto a atravessá-lo dizendo exatamente o que ninguém combinou.
Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.
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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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