O General e o marceneiro

Por Redação
REDAÇÃO

15/04/2026 • 17:06 • Atualizado em 15/04/2026 • 17:06

Valter Sena
O General e o marceneiro

O General e o marceneiro

Foto/IA

Era novembro de 1996 e a Rádio Tracajá completava 5 anos de filiação ao poderoso “Sistema Tracajá de Rádio”. A direção da emissora decidiu comemorar em grande estilo: café da manhã caprichado e entrevista ao vivo com um general do Exército, comandante da brigada que comandava as unidades das Forças Armadas na região.

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Oficialmente, tratava-se de uma pauta institucional. Extraoficialmente, circulava na antessala uma expectativa mais estratégica. Comentava-se que o militar tinha bom trânsito em Brasília — e a emissora, digamos, enfrentava uma pequena pendência burocrática envolvendo sua antena de transmissão.

Nada declarado. Apenas um “talvez o senhor conheça alguém”.

O general chegou pontualmente. Recepção impecável. Diretores apresentados, instalações exibidas, croissants elogiados. Tudo dentro do roteiro.

Dez minutos antes da entrevista, o assistente avisou que era hora de ir ao estúdio. Microfone, enquadramento, últimos ajustes. A comitiva seguiu pelo corredor em clima de absoluta normalidade.

Até que, a poucos metros da porta, surgiu Tião.

Marceneiro eventual da casa, homem prático, martelo na mão e zero compromisso com diplomacia corporativa. Parou o que fazia, olhou para o visitante estrelado e perguntou, em alto e bom som:

— Esse é o magnata do quartel que veio resolver o pobrema da antena?

O silêncio foi imediato. O superintendente perdeu a cor. O diretor de jornalismo ensaiou um sorriso nervoso. O general virou-se, sereno:

— Que problema vocês têm com a antena?

Resposta rápida, seca, protocolar:

— Nenhum, general. O Tião deve ter confundido o senhor com outra pessoa.

A entrevista aconteceu normalmente. O general agradeceu a recepção, elogiou a estrutura da emissora e foi embora com a mesma pontualidade com que chegou.

A antena continuou com a pendência.

E Tião… bem, Tião nunca mais foi visto pelos corredores.

Na comunicação, você pode planejar o roteiro, ensaiar a abordagem e caprichar no croissant. Mas sempre haverá um corredor — e alguém disposto a atravessá-lo dizendo exatamente o que ninguém combinou.

Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.

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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.

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