O tamborim do empresário

Por Redação
REDAÇÃO

25/03/2026 • 15:08 • Atualizado em 25/03/2026 • 15:08

Valter Sena
O tamborim do empresário

O tamborim do empresário

Imagem criada por IA

Setembro de 1992.

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Inflação descontrolada, dólar em alta, questionamentos sobre o plano Collor e o país mergulhado no processo de impeachment do presidente da República.

Fui destacado pela chefia de reportagem da TV Tracajá para produzir uma matéria sobre a instabilidade econômica e seus reflexos na cidade.

A produção agendou entrevista com um empresário importante do setor produtivo local.

Entramos no escritório. A secretária ofereceu café. Esperamos alguns minutos até sermos conduzidos à sala dele.

Antes mesmo de falarmos sobre a pauta, ele avisou:

— Não tenho muita facilidade com televisão. Estou um pouco tenso.

Tentei tranquilizá-lo. Disse que ele dominava o assunto, que seria uma conversa simples.

Mas o assunto era grave: inflação corroendo margens, risco de quebradeira, dólar pressionando custos. Era um país inseguro tentando se reorganizar.

Montamos o enquadramento padrão da época: ele sentado atrás da mesa, eu do outro lado, estendendo o microfone a cada pergunta.

Primeira resposta.

Um som seco.

Olhei discretamente.

Os dedos dele tamborilavam na mesa.

Nova pergunta. Silêncio.

Nova resposta. O tamborim voltava.

O operador de VT fazia caretas. O microfone captava tudo e a batucada ecoava nos ouvidos dele.

Eu precisava do depoimento.

Ele já estava nervoso.

Apontar o problema poderia piorar.

Interrompi a gravação.

— Sr. Carvalho, o vidro da janela está refletindo nossa imagem. Pode prejudicar a cena. Podemos fazer de pé, aqui no meio da sala?

Ele concordou.

Refizemos todas as perguntas.

Longe da mesa, o tamborim desapareceu.

As mãos continuavam tremendo. Mas agora estavam fora do alcance da câmera — e do microfone.

A entrevista terminou.

Meses depois, o país mudaria de presidente.

A inflação continuaria a assustar por algum tempo.

E eu nunca mais ouvi um tamborim da mesma maneira.

Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.

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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.

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