Quando a redação também amadurece

Por Redação
REDAÇÃO

14/05/2026 • 15:07 • Atualizado em 14/05/2026 • 15:07

Valter Sena
Imagem criada por Inteligência artificial

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I.A.

Em 1988, durante as eleições municipais, a Central Tracajá de Jornalismo solicitou equipes do interior para reforçar a cobertura na capital. Quatro profissionais da TV Tracajá de Campinas foram convocados. Eu era um deles.

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Os paulistanos acabavam de eleger Luiza Erundina prefeita de São Paulo, e fui escalado para integrar a equipe do programa especial “Tracajá Repórter” exibido sempre às sextas-feiras.

Naquela edição o programa contaria a trajetória da nova gestora, mulher nordestina de Uiraúna na Paraíba que se tornava prefeita da maior cidade do Brasil.

Ainda no almoxarifado técnico, enquanto separávamos equipamentos, começaram as brincadeiras típicas de rede com afiliada. Campinas, naquela época, carregava uma fama caricata que rendia piadas recorrentes nas redações do país.

Vieram as provocações. Risadas. Trocadilhos.

Um deles perguntou:

— É verdade que o prefeito de Campinas está construindo o viaduto “redondão” lá? E eu, sem conhecer o contexto perguntei:

Redondão? E eles em gargalhadas:

— Sim, para se encontrar com o minhocão aqui em SP. Hahaha...

Eu era jovem. Entrava no jogo. Ria junto.

Até que um senhor de semblante sério entrou na sala. Cabelos grisalhos, crachá prateado no peito. Apresentou-se:

— Sou Guerra, responsável pelas rotas de micro-ondas da rede. 23 anos de casa.

Ele ouviu o burburinho, olhou ao redor e disse com calma:

— Deixem o rapaz em paz. Campinas é uma cidade maravilhosa. Que coisa sem graça.

O ambiente silenciou por alguns segundos.

Ele então olhou para o meu crachá, ergueu levemente a credencial, examinou o logotipo da emissora e, tentando aliviar o clima, arrematou:

— Você também não ajuda, campineiro. Olha o símbolo da TV dele… parece uma arruela de pressão.

A sala voltou a rir.

As equipes seguiram para a cobertura. O programa foi ao ar com sucesso. E as piadas, como quase tudo em redação, continuaram por muito tempo.

Hoje, quando lembro desse episódio, não penso apenas na graça improvisada do momento. Penso em como os ambientes profissionais evoluem — e como nós evoluímos com eles.

Naquele tempo, muita coisa era tratada como “brincadeira de redação”. Comentários que hoje seriam questionados eram naturalizados. A cultura era outra. O olhar era outro. Nós éramos outros.

O jornalismo muda. A sociedade muda. E o que consideramos aceitável também muda.

Se existe algo que aprendi ao longo da profissão é que maturidade não está apenas na técnica ou na experiência de cobertura. Está também na capacidade de rever comportamentos, ajustar posturas e entender que respeito nunca deveria depender da época.

A redação dos anos 80 já não existe mais.

E talvez isso, em certo aspecto, também seja uma boa notícia.

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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.

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