
Marcha das Mulheres em Curitiba
Foto: Carlos Savzyn
A Frente Feminista de Curitiba, Região Metropolitana e Litoral do Paraná realizou na manhã deste domingo (8) a marcha do Dia Internacional da Mulher, que reuniu milhares de pessoas no centro da capital paranaense para protestar contra a violência de gênero, a precarização do trabalho e a escala 6x1.
Marcha ocupou o Centro de Curitiba
A concentração começou por volta das 9h, na Praça Santos Andrade, com falas de lideranças políticas, sindicais e de movimentos sociais. O bloco de Carnaval "Ela pode ela vai" puxou o coro de palavras de ordem e músicas alusivas à luta das mulheres.

A vereadora de Curitiba Laís Leão (PDT) participa da marcha do 8 de março no Centro da capital, ato que reuniu manifestantes em defesa dos direitos das mulheres na região da Praça e da Rua Marechal Deodoro. Foto:
A vereadora de Curitiba Laís Leão (PDT) afirmou que a mobilização deste ano teve forte participação popular e também maior presença de homens no ato.
“A marcha mostra que seguimos firmes na luta para que nenhuma mulher seja deixada para trás. É um momento de união das pautas e de mobilização da sociedade”, afirmou.
Segundo a vereadora, a manifestação reuniu uma grande quantidade de pessoas na região central da cidade.
“A Marechal Deodoro estava lotada. Foi um exemplo bonito de mobilização em Curitiba”, disse.
Às 10h, as manifestantes iniciaram a caminhada, que seguiu pela Rua João Negrão até a Rua Marechal Deodoro, passando pela Marechal Floriano Peixoto e pela Rua XV de Novembro, até a Boca Maldita, onde o ato foi encerrado com apresentação do grupo Maracatu Baque Mulher.
Segundo a organização, cerca de 70 entidades – entre movimentos sociais, sindicatos, coletivos, partidos, mandatos parlamentares e organizações da cidade e do campo – construíram de forma unificada o 8 de Março em Curitiba.
O lema da mobilização foi "Em defesa da vida das mulheres, da democracia, da soberania e contra o imperialismo e a escala 6x1", em sintonia com atos realizados em outras capitais brasileiras.
Violência e jornada exaustiva motivam protestos
A marcha foi convocada a partir do Manifesto Nacional do 8 de Março Unificado, que reafirma o caráter histórico e popular da luta das mulheres no país. De acordo com o documento, elas seguem nas ruas porque continuam sendo as mais atingidas pela violência, pela precarização do trabalho e pelas desigualdades estruturais.
O manifesto lembra que, em 2025, o Brasil registrou 1.470 mulheres assassinadas, a maioria delas negras. O texto denuncia que feminicídios e transfeminicídios resultam da combinação entre patriarcado, racismo e exploração econômica e cobra mais orçamento para políticas de enfrentamento à violência.
No campo trabalhista, as organizadoras colocaram no centro da pauta o fim da escala 6x1, apontada como modelo que aprofunda desigualdades e compromete a saúde e o tempo de vida das trabalhadoras. Elas defendem a redução da jornada sem redução salarial e a implementação da Política Nacional de Cuidados.
Para as entidades que integram a Frente Feminista, a defesa da democracia e da soberania também passa pela garantia de políticas públicas que assegurem condições dignas de vida às mulheres em todo o país.
Números da violência contra a mulher no Paraná
Os dados mais recentes de segurança pública no Paraná, relativos a janeiro de 2026, foram citados por organizadoras como um retrato da gravidade da situação no estado.
- 8 feminicídios registrados em janeiro de 2026;
- 430 estupros registrados no mesmo período;
- 6.687 ocorrências de violência doméstica contra a mulher;
- 97 homicídios no estado em janeiro;
- 1.140 roubos e 11.681 furtos registrados.
Ao mesmo tempo, o governo estadual informa que quase 224 mil pessoas foram alcançadas por ações do programa Mulher Segura no Paraná. A Patrulha Maria da Penha recebeu 54 novas viaturas para reforçar o atendimento a mulheres com medidas protetivas.
Para movimentos feministas, esses números reforçam a necessidade de ampliar investimentos em prevenção, acolhimento e atendimento especializado, além de políticas que garantam autonomia econômica às vítimas.
Lula sanciona lei que reforça presunção de vulnerabilidade
No mesmo 8 de março, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a lei que altera o Código Penal para reforçar a presunção absoluta de vulnerabilidade da vítima no crime de estupro de vulnerável.
A norma foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União neste domingo (8) e estabelece expressamente que a vulnerabilidade da vítima é absoluta, não podendo ser relativizada com base em circunstâncias específicas de cada caso.
De autoria da deputada federal Laura Carneiro, a lei modifica o artigo 217-A do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal). Segundo o Palácio do Planalto, o texto deixa claro que as penas previstas se aplicam independentemente de consentimento da vítima, de sua experiência sexual, do fato de ter mantido relações sexuais anteriormente ao crime ou da ocorrência de gravidez resultante da violência.
"Mais uma medida importante para fechar o cerco a quem comete esse crime brutal. Em pleno século XXI, não podemos mais aceitar esse tipo de violência contra nossas meninas. E essa mudança é um passo civilizatório nas leis brasileiras", escreveu Lula nas redes sociais.
Para o governo federal, a sanção se soma a outras ações para fortalecer a rede de proteção às mulheres e crianças em situação de violência.
O que diz a legislação e o objetivo da mudança
Pela legislação brasileira, são considerados vulneráveis, para fins de tipificação do crime de estupro de vulnerável, os menores de 14 anos e as pessoas que, por enfermidade, deficiência mental ou qualquer outra causa, não possuem discernimento para a prática do ato ou não podem oferecer resistência.
Conforme informou o Planalto, a proposta surgiu após decisões judiciais que teriam mitigado a vulnerabilidade com base em circunstâncias como relacionamento prévio ou gravidez da vítima. A nova lei busca evitar interpretações que relativizem essa condição e esclarece que tais fatores não impactam a responsabilização penal.
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 indicam elevados índices de violência sexual contra crianças, especialmente na faixa etária de 10 a 13 anos. "O texto sancionado busca assegurar uma redação legal clara e inequívoca para fortalecer a proteção da dignidade sexual de crianças e pessoas incapazes, impedindo interpretações que reduzam a proteção às vítimas", destacou o governo.
A lei não cria um novo tipo penal nem altera as penas já previstas, mas consolida o entendimento de que a proteção às vítimas vulneráveis deve prevalecer de forma absoluta nesses casos, o que, na avaliação do Executivo, reforça a segurança jurídica e a efetividade no combate à violência sexual infantil.
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