Em 2025, o Brasil voltou a registrar mais cesarianas do que partos vaginais, com 67% dos nascimentos ocorrendo por cirurgia, segundo dados da Anvisa, o que reacende o debate sobre como as gestantes são informadas na hora de escolher como terão seus filhos.
Os mesmos dados mostram que apenas 38,7% dos partos foram naturais, em um cenário distante do parâmetro da Organização Mundial da Saúde (OMS), que considera adequada uma taxa de cesáreas entre 10% e 15%.
No Paraná, a tendência se repete: 59.162 mulheres passaram por cesarianas, enquanto 32.603 optaram pelo parto vaginal. Para especialistas, os índices acima do recomendado indicam falhas na oferta de informação clara sobre riscos e benefícios de cada tipo de parto.
Experiências opostas na maternidade
A assessora de comunicação Caroline Belotto viveu duas gestações recentes, em 2023 e no ano passado, e em ambas acabou na sala de cirurgia. Ela conta que decidiu pela cesariana no primeiro filho por acreditar que, por o bebê ser grande, não teria outra opção.
"Quando eu vi que o bebê era grande, já pensei: 'vai ser cesárea e pronto'. Eu não sabia que existia a possibilidade de fazer parto normal. Só na segunda gestação descobri que, se tivesse tido parto normal na primeira, poderia ter um segundo com mais tranquilidade e segurança. Como a diferença de idade é pequena, os riscos são maiores e as opções, menores".
Hoje, Caroline admite que faria uma escolha diferente se tivesse recebido mais orientação. "Ter filho é maravilhoso, e minha segunda experiência foi a melhor possível dentro do que eu podia fazer. Mas, se eu pudesse voltar, teria tentado o parto normal na primeira experiência", afirma.
Já a dona de casa Aline Dobrot passou por duas gestações e, nas duas, optou pelo parto vaginal. Para ela, viver o início das contrações e perceber o corpo trabalhando fez parte do processo.
"Hoje estamos tão imediatistas que viver o começo das dores, sentir meu corpo trabalhando e entender esse processo foi uma experiência única de viver o natural. Acredito que, se tivesse optado pela cesárea, não teria entendido tão bem os meus limites", relata Aline.
"Por mais que você opte por um parto normal, há formas de reduzir o impacto da dor: analgesias, procedimentos que aliviam, massagens. O sinônimo de parto normal não deve ser dor, e sim transformação", completa.
Direito de escolha e papel do sistema de saúde
Para a pós-doutora em direitos à saúde Aline Albuquerque, o ponto central está no acesso à informação desde o início do pré-natal.
Segundo ela, toda gestante deve entender claramente o que é a cesariana, quais são seus riscos e benefícios e em quais situações existe indicação médica para o procedimento, além de conhecer as vantagens do parto normal.
"A gestante tem direito a saber o que é cesárea, quais são seus riscos, seus benefícios, quando ela é por indicação médica e quais são as vantagens do parto normal", afirma Albuquerque. "O parto normal não é uma cirurgia; já a cesárea é, embora eventualmente você possa ter indicação médica".
Na avaliação da especialista, o país passou a tratar a cesariana como um procedimento rotineiro, o que esvazia a percepção de que se trata de uma cirurgia.
"Normalizou-se a cesárea. Ela passou a ser vista como algo normal, diferentemente do que deveria, que é ser reconhecida como uma cirurgia", aponta.
O debate, ressalta Albuquerque, não é sobre acrescentar mais um item à lista de culpa materna, mas garantir que cada mulher tenha o direito de escolher, com tranquilidade e segurança, o tipo de parto que deseja, com base em informações precisas e corretas oferecidas pelos profissionais de saúde.
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