
Presidente da Acelpar, Giseli da Silveira pediu atenção dos vereadores à doença celíaca
Fotos: Carlos Costa/CMC
A frase "doença celíaca não é mimimi" marcou a participação da presidente da Associação dos Celíacos do Paraná (Acelpar), Giseli da Silveira Vilela da Silveira, na Tribuna Livre da Câmara Municipal de Curitiba (CMC), nesta quarta-feira (20), quando ela defendeu que a condição seja tratada como tema de saúde pública, inclusão social e direito à alimentação segura.
A atividade foi proposta pela Comissão de Direitos Humanos, Defesa da Cidadania, Segurança Pública e Minorias, presidida pela vereadora Delegada Tathiana Guzella (PL), no mês de conscientização sobre a doença. Segundo a parlamentar, a falta de conhecimento ainda expõe celíacos a riscos no cotidiano. Ela relatou experiência familiar e afirmou que só quem convive com um celíaco entende a gravidade do quadro.
No requerimento que originou o debate, a comissão descreveu a doença celíaca como distúrbio autoimune crônico desencadeado pelo glúten. Sem diagnóstico e tratamento adequados, o problema pode causar desnutrição, anemia, osteoporose, infertilidade, danos neurológicos, aumento do risco de câncer intestinal e impactos na saúde mental, além de comprometer o desenvolvimento infantil.
Giseli reforçou que a condição não se confunde com intolerância ou alergia alimentar. "Estamos falando de uma doença autoimune", afirmou. Segundo ela, o único tratamento é a exclusão total do glúten, com vigilância permanente contra a contaminação cruzada em superfícies, utensílios e ingredientes originalmente isentos da proteína.
Acelpar quer política pública para celíacos
Durante a fala, a presidente da Acelpar anunciou que a entidade protocolará na Câmara um pré-projeto para criar a primeira política pública curitibana voltada a pessoas com doença celíaca e empreendedores sem glúten. A proposta deve reunir diretrizes sobre alimentação segura, diagnóstico, fiscalização e inclusão em escolas, hospitais, eventos e estabelecimentos comerciais. Ela lembrou que cerca de 1% da população vive com a doença.
Ela relatou dificuldades de celíacos em escolas, restaurantes, supermercados, feiras, shoppings e espaços de lazer, além da falta de opções seguras para jovens na vida noturna. Giseli afirmou que a associação recebe chamados de hospitais que ainda não garantem alimentação adequada e defendeu a necessidade de ensinar empresas sobre o direito do consumidor celíaco.
Um dos focos da apresentação foi diferenciar doença celíaca de sensibilidade não celíaca ao glúten. Na sensibilidade, o consumo provoca mal-estar, mas não caracteriza doença autoimune. Em celíacos, qualquer contaminação reativa a inflamação intestinal e degrada as microvilosidades do intestino delgado, mesmo em pessoas sem sintomas aparentes. "Não é dieta da moda, não é frescura", afirmou.
Relatos de vereadores e projetos em Curitiba
A exposição mobilizou relatos de vereadores. Delegada Tathiana Guzella questionou sintomas e cuidados em caso de crise e destacou projetos em tramitação para ampliar a identificação de glúten e lactose em estabelecimentos. Sidnei Toaldo (Avante) citou proposta que garante a estudantes com doença celíaca o direito de levar o próprio alimento para escolas públicas e privadas. Giorgia Prates - Mandata Preta (PT) mencionou texto que assegura a pessoas com restrições alimentares severas o porte e consumo de alimentos próprios em espaços coletivos sem opção segura.
Camilla Gonda (PSB) relatou que o diagnóstico de doença celíaca da mãe representou um recomeço para a família e disse receber casos de crianças sem alimentação adequada em escolas. Laís Leão (PDT) contou que a mãe descobriu a doença após os 40 anos, após anos com problemas de saúde, e reforçou que restrição alimentar é questão de saúde, não de "frescura". Já Meri Martins (Republicanos) pediu mais informações sobre os riscos da contaminação acidental por glúten.
Diagnóstico difícil e necessidade de informação
A presidente da Acelpar descreveu a doença celíaca como "doença camaleão", por se manifestar com sintomas gastrointestinais e extraintestinais, como enxaqueca, névoa mental, dificuldades cognitivas, problemas de crescimento e alterações reprodutivas. Segundo ela, muitos pacientes levam cinco ou seis anos para obter o diagnóstico correto, o que reforça a importância de conscientizar também profissionais da atenção básica para suspeitar da doença diante de quadros persistentes.
Fiscalização e acesso a produtos sem glúten
Questionada sobre fiscalização, Giseli avaliou que esse ainda é um dos grandes desafios para garantir a efetividade das leis. Ele citou prateleiras exclusivas de produtos sem glúten organizadas de forma inadequada em supermercados e afirmou que a Acelpar atua a partir de denúncias de associados. Segundo a dirigente, mais de mil pessoas funcionam como "fiscais" no Paraná, acionando a entidade, que por sua vez comunica a vigilância sanitária, o Ministério Público, o Procon e outros órgãos.
Vanda de Assis (PT) destacou o custo elevado dos alimentos sem glúten para famílias em vulnerabilidade. Em resposta, Giseli lembrou que os Armazéns da Família mantêm prateleiras exclusivas para celíacos e exigem apenas laudo médico para acesso, sem comprovação de renda, e citou o projeto social AMA, que oferece apoio em alimentos ou cartão de mercado. Ao encerrar a Tribuna Livre, Delegada Tathiana Guzella agradeceu a presença da Acelpar e disse que a comissão está aberta ao diálogo. Para Giseli, o diagnóstico da doença celíaca deve ser visto como "diagnóstico de vida, de mais saúde, novas oportunidades e recomeços mais inclusivos".
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail.
Selecione os seus temas favoritos:

