O consumo de drogas ilícitas no Brasil cresceu 80% entre 2012 e 2023, segundo levantamento nacional com 11 mil questionários anônimos publicado pela Revista Pesquisa Fapesp, que aponta que quase um em cada seis brasileiros já experimentou maconha ao menos uma vez.
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O estudo indica que o índice de pessoas que admitiram ter feito uso de alguma substância psicoativa ao menos uma vez passou de 10% para 18% no período analisado. A pesquisa mostra que o perfil predominante é de adultos com menos de 50 anos, em maioria homens.
Os pesquisadores observaram, porém, que o avanço mais acentuado ocorre entre as mulheres. O uso de maconha por brasileiras a partir dos 14 anos registra crescimento superior ao de outros grupos, o que, segundo os autores, altera o padrão histórico de consumo no país.
Percepção de risco e novos padrões de consumo
O aumento no uso de derivados de cannabis aparece como principal motor da alta geral. Atualmente, quase um em cada seis entrevistados declara já ter experimentado maconha, enquanto a cocaína ocupa a segunda posição, mencionada por cerca de 5% dos participantes.
Para a professora da Unifesp e coordenadora do estudo, Clarice Madruga, parte desse movimento se explica por uma leitura equivocada dos efeitos da droga. Segundo ela, há uma "falsa percepção de menos danoso e controle de ansiedade". A especialista ressalta que os produtos disponíveis hoje no mercado ilegal têm concentrações mais altas de THC, o que pode gerar reações opostas às esperadas pelos usuários.
Tráfico em alta e efeitos nas estatísticas criminais
A maior demanda impacta diretamente a dinâmica do tráfico. Dados do Ministério da Justiça indicam que, mesmo com uma redução pontual no início de 2026 em relação ao ano anterior, o país registra em média 558 ocorrências de tráfico por dia, com apreensão de quase duas toneladas de entorpecentes diariamente.
Na avaliação dos pesquisadores, o avanço do consumo, especialmente da maconha, dialoga com a expansão das organizações criminosas e com o volume de ocorrências registradas pelas forças de segurança em todo o território nacional.
Venda on-line desafia fiscalização
A modernização das formas de comercialização também redesenha o mercado ilegal. O modelo tradicional, baseado em pontos físicos de venda, divide espaço com o ambiente virtual, o que muda o alcance dos traficantes e as estratégias de fiscalização do Estado.
Na visão do especialista em segurança pública Leandro Piquet, a oferta de drogas em plataformas de venda on-line funciona como uma alavanca para o setor. "O sistema mudou muito, não é mais aquela coisa tradicional de controlar biqueira, ponto de venda. Muita coisa on-line, muita coisa digital", avalia.
Piquet argumenta que a inteligência policial precisa direcionar mais recursos ao monitoramento do comércio eletrônico de itens proibidos. Para ele, essa ainda é uma área com pouca regulamentação e que exige investigações específicas para acompanhar a rápida adaptação das redes criminosas.
Disparidades regionais nas apreensões
Os dados de repressão ao tráfico revelam fortes diferenças regionais. Enquanto São Paulo registra queda de 64,20% nas apreensões, estados como Goiás e Amazonas apresentam altas expressivas, de 1115,79% e 99,35%, respectivamente.
Essas variações apontam dinâmicas próprias em cada região e reforçam, segundo especialistas, que o avanço do consumo de maconha e de outras drogas influencia diretamente a forma de atuação das quadrilhas e o comportamento dos indicadores criminais no país.
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