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Maio Laranja expõe avanço da violência contra crianças no Paraná

Dados apontam alta de 18,7% em maus-tratos, mais que o dobro da média nacional, e psicólogo alerta para fim da 'cultura da palmada'

Da redação
DA REDAÇÃO

18/05/2026 • 12:55 • Atualizado em 18/05/2026 • 15:41

Neste mês de maio, dedicado ao combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado em 2025 mostram que o Paraná registrou em 2024 alta de 18,7% nos casos de maus-tratos, mais que o dobro do crescimento nacional.

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Maio Laranja relembra caso Araceli

A mobilização se apoia no Maio Laranja, que lembra o caso de Araceli Cabrera Crespo. A menina de oito anos desapareceu em 18 de maio de 1973, ao voltar da escola em Vitória (ES), e foi encontrada dias depois com sinais de violência extrema. O crime permanece sem punição e virou símbolo da luta por direitos infantojuvenis.

Paraná lidera alta nos maus-tratos

No País, os registros de maus-tratos contra crianças e adolescentes de 0 a 17 anos cresceram 8,1%, passando de 31.146 em 2023 para 33.269 em 2024. No Paraná, o salto foi maior: com 2.494 ocorrências notificadas, o estado hoje ocupa a terceira posição no ranking absoluto de violência desse tipo.

Cultura da palmada e responsabilidade coletiva

Para romper esses índices, o desafio não se limita à segurança pública. Segundo o psicólogo Guilherme Wansaucheki, do programa DEDICA, mantido pela Associação dos Amigos do Hospital de Clínicas, é preciso desconstruir a chamada cultura da palmada e proteger o desenvolvimento infantil.

"Bater na criança para educar é uma ideia completamente deturpada. Na prática, a agressão apenas ensina que uma ação leva a uma consequência física de dor, não à compreensão do erro", explica o especialista.

A rede de proteção, reforça o psicólogo, depende do olhar atento de toda a sociedade. Ele orienta que qualquer suspeita seja comunicada pelo Disque 100, canal que inicia a investigação. Já o 190, da Polícia Militar, deve ser acionado em situações emergenciais, quando o crime acontece no momento.

Exploração sexual e subnotificação

Quando o recorte é a exploração sexual, o Paraná aparece entre os dez estados com maiores números absolutos, com 40 registros em 2024. Embora tenha havido redução de 19,4% no estado, maior que a queda média de 7,9% no Brasil, os números ainda reforçam a necessidade de vigilância constante.

A dimensão do silêncio aparece na pesquisa Percepções sobre Direitos de Meninas e Mulheres Grávidas Pós-Estupro, do Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Instituto Locomotiva, que ouviu 1,2 mil pessoas com mais de 16 anos em todo o Brasil. O levantamento indica que seis em cada dez mulheres que sofreram violência sexual antes dos 14 anos não contaram para ninguém.

Apenas 27% confiaram em algum familiar; destas, só 15% foram levadas a uma delegacia e 9% receberam acolhimento em serviço de saúde. Segundo o estudo, 60% dos entrevistados dizem conhecer uma criança ou adolescente menor de 14 anos que foi estuprada, e 30% relatam saber de caso em que a vítima engravidou em decorrência da violência.

Atendimento especializado do programa DEDICA

Nesse cenário, iniciativas como o programa DEDICA, Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, ligado à Associação dos Amigos do Hospital de Clínicas, desempenham papel fundamental no acolhimento das vítimas. O serviço oferece atendimento interdisciplinar e gratuito a vítimas de violências graves, com suporte psicológico, médico e social. A proposta é tratar as feridas e reconstruir a dignidade, oferecendo novo horizonte às crianças e adolescentes que tiveram a infância violada.