Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que, no Brasil, trabalhadores que cumprem jornada de 44 horas semanais, na escala 6x1, ganham em média 57% menos do que quem trabalha 40 horas por semana. O levantamento também mostra que o país figura entre aqueles com maior carga horária semanal do G20.
Segundo o Ipea, a relação vai na contramão do senso comum, que associa mais horas a salário maior. Os dados apontam que, em geral, as jornadas mais extensas se concentram em ocupações com exigência menor de qualificação e remunerações reduzidas.
Na prática, isso significa que muitos brasileiros permanecem mais tempo no trabalho sem conseguir converter esse esforço em melhores ganhos. O cenário é mais comum entre empregados com baixa escolaridade, apontam os pesquisadores.
Qualificação pesa mais que tempo de serviço
De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, a explicação principal está na qualificação profissional. Quem tem mais anos de estudo e cursos específicos tende a acessar cargos mais altos, que pagam melhor e, em muitos casos, oferecem jornadas de até 40 horas semanais.
Nessas funções, a remuneração costuma refletir mais a complexidade das tarefas e a responsabilidade do posto do que o volume de horas cumpridas. Já em ocupações que exigem pouca formação, o trabalhador permanece mais tempo à disposição da empresa, mas recebe proporcionalmente menos.
Para especialistas, entre eles a advogada Daniele Slivinski, o dado do Ipea reforça a importância de investir em escolaridade e qualificação continuada. Eles avaliam que ampliar o acesso a cursos técnicos, profissionalizantes e de ensino superior é fundamental para que mais pessoas possam migrar para postos com melhor remuneração e menos horas de trabalho.
Menos horas podem significar mais estudo e produtividade
Outro ponto destacado pelos analistas é que jornadas mais curtas abrem espaço para que o trabalhador busque novos cursos e atualizações, o que aumenta suas chances de ascensão profissional. Ao contrário, quem passa grande parte do dia no emprego tende a ter menos tempo e energia para estudar.
Além do estudo, o tempo extra de descanso e lazer também influencia o desempenho. Especialistas lembram que períodos adequados de sono, convívio social e atividades físicas contribuem para reduzir o estresse e melhorar a concentração, fatores diretamente ligados à produtividade no ambiente de trabalho.
Na avaliação de quem acompanha o tema, os resultados do Ipea ajudam a iluminar o debate sobre o futuro do trabalho no país. A leitura dos dados, dizem, é que o desafio não é apenas criar empregos, mas garantir vagas que combinem melhor qualificação, salários mais altos e jornadas compatíveis com a saúde e o desenvolvimento do trabalhador.
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