Resumo
Investigação da Polícia Civil do Paraná concluiu inquérito sobre maus-tratos a cães em clínica veterinária conveniada ao município, iniciada após denúncias e vídeos que mostravam abandono de animais pós-castração.
Indiciamento de três médicos veterinários e uma empresa foi motivado por decisões gerenciais que priorizaram lucro, falhas sanitárias, condições insalubres, uso de instrumentos inadequados e descarte irregular de animais, contrariando protocolos de recuperação e devolução.
Encaminhamento do inquérito ao Ministério Público do Paraná resultou na análise das provas e definição das providências, com possibilidade de denúncia à Justiça por crime de maus-tratos a animais.
A Polícia Civil do Paraná, por meio do 2º Distrito Policial de Ponta Grossa, concluiu o inquérito que apurava maus-tratos a cães em uma clínica veterinária conveniada ao município, após investigação iniciada em março de 2026.
O trabalho resultou no indiciamento de três médicos veterinários e de uma pessoa jurídica prestadora de serviços médico-veterinários. Segundo a corporação, os crimes decorreram de decisões gerenciais que teriam priorizado o lucro da empresa em detrimento do bem-estar animal, evitando gastos com recuperação, medicação e alimentação no pós-operatório.
As apurações começaram após denúncias divulgadas pela mídia local, com vídeos que mostravam funcionários da clínica descartando cães em via pública. Ficou demonstrado que dois animais, recolhidos para castração por meio de convênio com o Centro de Referência para Animais em Risco (CRAR), foram abandonados logo após o procedimento cirúrgico.
Flagrante de cães abandonados após castração
De acordo com o inquérito, os cães foram soltos de forma desamparada na Vila Mezzomo, em área erma às margens de uma linha férrea ativa, a mais de sete quilômetros da comunidade onde viviam e eram monitorados. Quando resgatados, apresentavam desidratação severa, incisões cirúrgicas abertas, pontos rompidos e ausência de qualquer proteção ou suporte analgésico.
No curso das diligências, vistorias técnicas e laudos periciais apontaram que a clínica funcionava em condições de insalubridade e sem cumprir protocolos sanitários. Segundo a Polícia Civil, havia animais de grande porte em baias tão pequenas que impediam que ficassem em pé ou girassem. Um felino com diagnóstico de esporotricose, zoonose infectocontagiosa, estava em enfermaria comum, sem barreira física ou sinalização de isolamento.
Laudos apontam falhas sanitárias e risco de contaminação
Os peritos também relataram kits cirúrgicos guardados sem controle de esterilização. Na área externa, cadáveres de animais eram mantidos de forma irregular em freezers, ao lado de materiais perfurocortantes destampados. Esses locais ficavam próximos a cadelas lactantes com ninhadas recém-nascidas, e um filhote já estava morto, sem qualquer assistência, segundo o relatório.
Ainda conforme a investigação, a equipe utilizou instrumentos inadequados em procedimento cirúrgico, o que causou danos físicos a um animal. Para a Polícia Civil, o conjunto dessas práticas caracteriza graves situações de maus-tratos.
Polícia contesta uso do protocolo CED
Na defesa, os investigados alegaram que o descarte dos cães seguia o protocolo internacional CED, sigla para Captura, Esterilização e Devolução, utilizado em programas de controle populacional de animais. A tese foi rejeitada pela Polícia Civil.
De acordo com a corporação, esse protocolo exige, de forma cumulativa, a plena recuperação do animal em ambiente asséptico, cicatrização completa, microchipagem e devolução rigorosa ao exato local de origem. Ainda segundo o inquérito, soltar animais debilitados, com feridas abertas, em região distante e perigosa desnatura o procedimento e “configura ato inequívoco de abandono e descarte de resíduos vivos”.
Caso segue para o Ministério Público
Com base no conjunto de provas reunido, a Polícia Civil indiciou os três veterinários e a empresa pelo crime de maus-tratos a animais, considerando a concorrência de condutas e a quebra de deveres jurídicos relacionados à guarda e ao tratamento dos bichos.
O inquérito foi finalizado e encaminhado ao Ministério Público do Paraná, que agora vai analisar o caso e definir as providências cabíveis, como eventual oferecimento de denúncia à Justiça.
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