Band Vale

Reflexão sobre violência e vida

Entre o medo e a esperança, o desafio de proteger o que amamos.

Por Redação
REDAÇÃO

30/10/2025 • 10:48 • Atualizado em 30/10/2025 • 10:48

Bastidores da vida real - com Thais Dantas
Polícia faz megaoperação contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro

Polícia faz megaoperação contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro

REUTERS/Aline Massuca

Na minha rotina, por causa do meu trabalho, assisto muito aos noticiários na TV, em especial os jornais da Band TV!!! E na semana passada, assistindo às notícias sobre a guerra em Israel, senti um misto de medo e alívio: medo por aquelas vidas perdidas, por famílias destruídas, por crianças assustadas... e alívio, por estar no Brasil: um país onde, apesar de todos os problemas, ainda podemos acreditar que nossos filhos sairão de casa e voltarão em segurança.

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Mas nesta semana, esse alívio se desfez. Diante das cenas do Rio de Janeiro, com mais de 120 corpos encontrados, escolas e eventos cancelados, famílias em desespero, a sensação é de que a guerra que a gente acreditava ser “dos outros” também é nossa. Só muda o cenário, o sotaque, a geografia da dor.

Pensei em “Haiti”, aquela canção de Caetano e Gil que atravessa gerações como um espelho:

“Pense no Haiti, reze pelo Haiti, o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui.”

A música fala de desigualdade, de descaso, de uma violência que corrói de dentro e hoje soa mais atual do que nunca. O Haiti, aquele símbolo de um país devastado, está nas vielas do Rio, nas comunidades esquecidas, nas balas perdidas que encontram corpos errados, nas mães que não têm sequer tempo de chorar.

E dói admitir: o Haiti é aqui.

Como mãe da Rafa e da Giovana, confesso que essa dor me atravessa de um jeito diferente. Cada notícia é uma lembrança de que a infância dos meus filhos acontece em um país que naturaliza a barbárie. Eu me pergunto como explicar pra eles que há pessoas morrendo por estarem no lugar errado, na hora errada. Como ensinar empatia sem transmitir medo?

No meu dia a dia, aqui em São José dos Campos, entre uma reunião, o almoço das crianças e a correria das pautas, parece que tudo está sob controle. Mas a vida real não cabe apenas nas câmeras ou nas colunas. Ela escapa pelas frestas: se infiltra na casa, no coração e na cabeça.

E entre o caos do mundo e a rotina da família, me vejo tentando manter acesa uma chama de fé: essa fé que não é religiosa, mas humana. A fé de acreditar que cuidar ainda faz diferença. Que ser gentil ainda importa. Que ensinar o valor da vida aos meus filhos é, de alguma forma, uma forma de resistência.

Porque o mesmo país que nos dá rotina, amor e afeto também é palco de medo, perda e incertezas. Mas talvez, justamente por isso, o que mais precisamos agora é olhar com mais atenção para o que realmente importa: um abraço, uma risada, um momento de presença.

A guerra, a violência, o medo, sim: todos existem. Mas não podem nos roubar a humanidade, a esperança e a capacidade de amar.

Como mulher, mãe e profissional da comunicação, eu sinto que também é parte da minha missão não deixar que a dor vire estatística. Que esses mais de 120 corpos não sejam apenas números, atrás de cada um deles havia uma história, uma vida, uma voz que o país não quis ouvir.

E é exatamente isso que quero levar para o meu trabalho, para a minha família e para o meu viver: a consciência de que o mundo é injusto, complexo, doloroso mas que ainda podemos escolher o cuidado, a gratidão e a esperança como caminhos para atravessar o dia.

Enquanto houver mãe chorando por um filho, o Haiti continua sendo aqui.

Mas enquanto houver amor, talvez ainda exista um jeito de mudar o final.

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