
A dificuldade é um sinal de erro ou fraqueza?
Imagem de internet
Acabei de assistir, junto aos meus filhos, ao documentário RAFA, sobre a trajetoria de Rafael Nadal. Primeiro de tudo, um documentário incrível e altamente recomendado para todos. Enquanto os créditos subiam na tela e eu conversava com meus filhos, comecei a pensar como o ambiente corporativo, muitas vezes, lida mal com o desconforto, pois existe hoje uma pressa quase desesperada nas empresas em eliminar qualquer tipo de atrito. Se uma negociação começa a ficar tensa ou se o cliente do outro lado da mesa faz cara feia, o estômago da maioria dos profissionais embrulha imediatamente e o impulso automático é ceder na margem, baixar o preço ou aceitar um prazo absurdo. Qualquer acordo serve, desde que acabe logo com a ansiedade daquele momento.
Essa busca incessante por saídas rápidas acontece porque as pessoas foram condicionadas a enxergar a dificuldade como um sinal de erro ou fraqueza. Profissionais experientes e até mesmo preparados tecnicamente entram em salas de reunião acreditando que, se o processo for doloroso, arrastado ou exigir firmeza, algo na estratégia falhou. Quando o cansaço do trimestre bate ou a pressão interna por resultados imediatos aumenta, a concessão disfarçada de flexibilidade vira a saída mais atraente do dia. É um mecanismo de defesa emocional. Prefere-se fechar um acordo ruim a aguentar a pressão de um impasse. Afinal, assinar um contrato traz uma falsa sensação de produtividade, enquanto sustentar uma posição difícil gera uma tensão que poucos aprenderam a gerenciar na carreira.O preço dessa fuga constante é a erosão do valor que a empresa entrega ao mercado. Negociações fechadas na base do cansaço destroem as margens de lucro e geram contratos que se tornam insustentáveis no médio prazo. Times de vendas que cedem ao primeiro sinal de resistência desvalorizam o próprio produto e viciam o mercado. Da mesma forma, equipes de compras que aceitam o primeiro reajuste entregam o lucro da operação inteira. Mas o verdadeiro estrago não fica restrito aos números da planilha. O dano principal está na formação da postura profissional. Quem se acostuma a recuar diante da pressão perde a capacidade de liderar a si mesmo e, consequentemente, perde o direito de liderar os outros.
A virada de perspectiva exige entender o primeiro grande aprendizado que a história de Nadal deixa claro: a satisfação legítima vem justamente da dificuldade, nunca da facilidade. Os grandes campeões encontram sentido na dor de ter superado o pior cenário possível, não no jogo fácil. No mercado corporativo, a lógica é idêntica. Muitas vezes, grandes acordos e carreiras sólidas nascem de momentos onde tudo parecia caminhar para o colapso. Há sempre a tentação de abandonar a postura firme quando as circunstâncias apertam, mas a diferença fundamental entre o topo e a média é a capacidade técnica de aguentar uma bola a mais.
Ao trabalhar diretamente com equipes de compra ou venda em setores de alta pressão, fica nítido como os profissionais entregam os pontos no último minuto por puro cansaço mental. Anos atrás, prestei consultoria para uma executiva que estava prestes a conceder vinte por cento de desconto para um cliente importante apenas para fechar o contrato dentro do trimestre. A estratégia foi redesenhada para suportar o silêncio e a pressão da outra parte por dias. Foi um processo duro para ela, mas o contrato acabou fechado pelo valor cheio original. Os resultados práticos com profissionais que passam por treinamentos de negociação confirmam essa premissa. Depois que as equipes de várias empresas passaram por essa capacitação, conseguiram aumentar a margem média dos contratos, simplesmente porque aprenderam a tolerar a frustração temporária sem entregar valor antes da hora.
As grandes batalhas do Rafael Nadal em Roland Garros e Wimbledon mostram como os adversários históricos se alimentavam mutuamente para alcançar a excelência. Isso nos deixam outro ensinamento importante: o concorrente ou o cliente difícil não são inimigos; são o elemento que força o profissional a subir de nível.
E é justamente aí que tudo se conecta. Esse aprendizados não são exclusivos para quem já ocupa cargos de alta gestão, mas serve para todos que aspiram a ser líderes no futuro. Para liderar pessoas, é preciso primeiro aprender a dominar os próprios impulsos de fuga.
Na próxima vez em que o silêncio pesar na sala de reunião ou o desconforto fizer surgir a vontade quase incontrolável de ceder, lembre-se de Nadal sustentando mais um rally impossivel. Pare. Respire. E faça a si mesmo a pergunta definitiva: a sua decisão está realmente protegendo o valor do negócio ou você está apenas pagando (caro) para aliviar a sua própria ansiedade?
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