
Dados e Inteligência Artificial
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No ambiente corporativo, o acúmulo de dados costuma virar uma espécie de amuleto de segurança. Existe uma razão para isso, pois o mercado ensina que o conhecimento técnico protege os profissionais. Com isso, cria-se o hábito automático de coletar relatórios antes de qualquer movimento importante, acreditando que mapear cada variável trará proteção contra surpresas. O problema é que esse comportamento gera uma sensação de blindagem falsa. Quando a pressão aumenta e o jogo começa de verdade, o excesso de dados brutos costuma nublar a visão periférica do tomador de decisão. Em vez de ler os sinais humanos e as reais prioridades do interlocutor, o profissional fica preso tentando encaixar a realidade fluida da mesa de negociação nos moldes rígidos do papel que trouxe de casa.
Esse desalinhamento, na maioria das vezes, provoca uma perda de valor que poucos percebem a tempo. Executivos sobrecarregados de dados tendem a focar apenas no que é mensurável, como a linha final do preço, negligenciando variáveis subjetivas que mudam o patamar de um acordo. Lembro de uma executiva do setor de tecnologia que ajudei há alguns anos. Ela chegou para uma renovação de contrato com um mapeamento dos custos do fornecedor e sabia exatamente qual era a margem deles. Ela ficou tão obcecada em usar esses números para forçar um desconto que não percebeu o óbvio: o fornecedor estava mudando o modelo de negócios e precisava de garantia de volume e de um contrato diferente, não de margem alta. Ela quase perdeu o contrato para um concorrente que ofereceu um preço maior, mas garantiu a previsibilidade que o parceiro buscava. Ela tinha os dados, mas faltou a leitura do contexto por falta de diálogo e de exploração. Como ela recuperou o negócio? Bom, ela me chamou para uma consultoria e conseguimos marcar outra reunião com esse fornecedor. Nessa nova conversa, mudamos o foco para a troca de informações, tentando entender a real necessidade do fornecedor por meio de perguntas estratégicas e validação de suposições.
Os profissionais que operam no topo do mercado pensam de forma diferente porque tratam o dado não como um destino, mas como matéria-prima para a organização mental. Negociadores treinados entendem que o dado estático perde valor no momento em que a conversa começa, tornando-se inútil se não for aplicado em tempo real.
A verdadeira maestria está na agilidade cognitiva, que é a capacidade de cruzar o que foi estudado com o comportamento que o outro lado está demonstrando em tempo real. Quando trabalho de perto com equipes de compras e vendas de grandes indústrias, percebo que os melhores resultados surgem justamente quando os profissionais param de usar os dados como armas de ataque e passavam a usá-los como ferramentas de validação de hipóteses.
Os reflexos práticos dessa mudança de postura aparecem nos resultados financeiros, gerando maior rentabilidade e capturando mais valor para a empresa por meio da negociação. Por exemplo, uma equipe de vendas de uma multinacional do varejo que participou do treinamento no final de 2025 conseguiu reduzir o tempo de fechamento em quase 30%. Eles não mudaram os dados que tinham, mas aprenderam a transformar o estoque de relatórios em fluxos de perguntas inteligentes direcionadas ao alvo certo.
A informação serve para calibrar a sua escuta ativa, e não para ditar um monólogo arrogante. Se a sua preparação para fechar um negócio importante se resume a decorar argumentos técnicos e empilhar gráficos para esmagar o argumento alheio, você não está se preparando para negociar. Você está apenas se preparando para ter razão. E ter razão sem gerar valor tangível é apenas uma vaidade que pode custar muito caro para a companhia.
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