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Regeneração das águas: inovação de São José dos Campos O2Eco ganha reconhecimento internacional

Por Fabiano Porto (@fabiano.pporto)

Por Redação
REDAÇÃO

05/09/2025 • 10:43 • Atualizado em 05/09/2025 • 10:43

Sustentabilidade e Regeneração - com Fabiano Porto

A água é a base da vida e da nossa economia. No entanto, seguimos tratando esse bem essencial como se fosse infinito. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 70% de toda a água consumida no mundo é utilizada na irrigação agrícola, enquanto a indústria responde por 22% e o consumo doméstico apenas por 8%. No Brasil, esse número é ainda maior: 72% da água consumida no país vai para a irrigação.

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Esses dados mostram a contradição: em plena emergência climática, ainda desperdiçamos e poluímos nossos recursos hídricos, comprometendo a saúde de rios, lagos e aquíferos. O desafio é enorme e exige soluções capazes não apenas de tratar, mas de regenerar a água.

Na WikiSolution.org, plataforma global de soluções criada pelo Instituto Regeneração Global, estão cadastradas centenas de iniciativas voltadas para a água. Mas entre as diversas propostas, uma chama a atenção de forma especial no campo do tratamento da água: a tecnologia da O2Eco.

E é justamente essa inovação, baseada em São José dos Campos, que acaba de ser reconhecida pela KPMG como a startup mais inovadora do Brasil em tecnologias ambientais. Um feito histórico, que coloca nossa região no mapa global da regeneração da água.

A O2Eco representa no Brasil uma tecnologia que nasceu na Austrália e hoje é liderada aqui por Luis Fernando Magalhães, Dietor da empresa e tambem Presidente do Conselho de Administração do Instituto Regeneração Global. Ele explica que a base da solução está na bioestimulação, um processo natural que “estimula os microrganismos já presentes no corpo d’água a crescerem de forma exponencial para que eles façam, de forma natural e contínua, o trabalho de limpeza: degradar matéria orgânica, reduzir odores e melhorar a qualidade da água sem adicionar químicos de uso contínuo”.

Na prática, a tecnologia pode ser aplicada em rios, lagos, represas, sistemas de saneamento e até em indústrias de setores como alimentos, papel e celulose ou mineração. Os resultados já medidos impressionam: “Em pilotos e implantações, vemos redução relevante no uso de insumos e logística de lodo. Em um projeto com utility, registramos redução superior a 30% no consumo de químicos e economia anual acima de R$ 500 mil, com impacto positivo para dezenas de milhares de pessoas a jusante”, afirma Magalhães.

Sobre a premiação, ele destaca: “É uma validação de que a água tem que estar no centro da conversa. Trazer a inovação de alto impacto é também uma responsabilidade, porque agora precisamos levar o Brasil ao palco global com uma solução que reduz custo, melhora a vida das pessoas e protege o meio ambiente”.

Mais do que tecnologia, a O2Eco busca despertar uma nova consciência. “Quando a comunidade vê o rio voltar a cheirar bem e clarear, e quando os dados mostram evolução, nasce consciência e corresponsabilidade. Tecnologia é ponte para cultura de cuidado”, completa.

Em um planeta cada vez mais pressionado pela escassez, cada gota conta. Inovações como a O2Eco mostram que é possível regenerar águas e, ao mesmo tempo, inspirar novos comportamentos sociais para promover a transição a uma sociedade em rumo de regeneração.

Os caminhos da O2Eco

A trajetória da O2Eco começou a partir da inquietação de Luis Fernando Magalhães com rios degradados e da percepção de que “tratar não basta, é preciso regenerar”. Da união entre biotecnologia simples e escalável e engenharia enxuta nasceu a tecnologia que hoje se projeta como solução global.

Foram anos de validação em campo, enfrentando desafios técnicos e de mercado, como a resistência à substituição dos métodos químicos tradicionais. A startup superou essas barreiras com resultados práticos e mensuráveis, o que lhe abriu portas em setores de saneamento e indústrias de alto consumo hídrico.

O reconhecimento da KPMG foi o marco mais recente dessa jornada: mais de 100 startups participaram, e a O2Eco conquistou a liderança em um processo criterioso que avaliou inovação, tração de mercado, capacidade técnica e potencial de escala internacional.

Agora, os próximos passos incluem expansão no Brasil e internacionalização para Portugal, Austrália e América Latina, além da integração de novas soluções no portfólio, como o desaguamento inteligente (Salus) e o monitoramento digital. “Nosso foco é combinar impacto ambiental positivo com eficiência econômica para governos, empresas e comunidades”, resume Magalhães.

Entrevista – Luis Fernando Magalhães, Diretor da O2Eco Tecnologia Ambiental

🔹 Sobre a tecnologia O2 Eco

1. Como você explicaria, de forma simples, o que é a tecnologia de bioestimulação para regeneração das águas?É uma tecnologia que, como o nome sugere, bioestimula os microrganismos já presentes no corpo d’água a crescerem de forma exponencial para que eles façam, de forma natural e contínua, o trabalho de limpeza: degradar matéria orgânica, reduzir odores e melhorar a qualidade da água sem adicionar químicos de uso contínuo.

2. Quais processos biológicos ou naturais ela estimula para alcançar resultados positivos na qualidade da água?Nós estimulamos principalmente quatro coisas:

  • Respiração aeróbia: microrganismos degradam a matéria orgânica de forma mais eficiente.
  • Ciclo do nitrogênio: ajudamos na transformação e equilíbrio entre nitrificação e desnitrificação.
  • Controle de algas: a competição por nutrientes reduz o crescimento excessivo de algas e cianobactérias.
  • Biofilme benéfico: formam-se colônias estáveis que ajudam a clarear a água e sedimentar sólidos.

3. Em termos práticos, em que ambientes e situações a tecnologia pode ser aplicada?

  • Rios, córregos e canais (mitigar carga orgânica difusa e maus odores);
  • Lagos e represas (controle de eutrofização, turbidez, clorofila-a);
  • Saneamento (lagoas de estabilização, pré-tratamento de água bruta);
  • Indústrias (alimentos/bebidas, papel & celulose, mineração) como etapa complementar para melhorar eficiência e reduzir custo operacional.

4. Que benefícios concretos e mensuráveis já foram observados em projetos-piloto ou implantações?

  • Melhora de indicadores como DBO/DQO, turbidez, sólidos sedimentáveis e clorofila-a, com água visualmente mais clara e redução de odores;
  • Eficiência operacional: menor arraste de lodo, menor choque de carga;
  • Economia: em pilotos e implantações, vemos redução relevante no uso de insumos e logística de lodo. Ex.: em projeto com utility, registramos redução >30% no consumo de químicos e economia anual superior a R$ 500 mil, com impacto positivo para dezenas de milhares de pessoas a jusante;
  • Carbono e caminhões evitados (quando combinada à nossa solução de desaguamento inteligente Salus).

5. Existe alguma evidência científica ou estudo independente que comprove a eficácia da tecnologia?Trabalhamos com monitoramento de terceiros (laboratórios acreditados e clientes), séries temporais de parâmetros (DBO, DQO, OD, turbidez, clorofila-a, nutrientes) e parcerias acadêmicas no Brasil e no exterior. Publicamos relatórios técnicos por projeto e buscamos desenhar P&D com universidades para papers e réplicas controladas.

🔹 Sobre a startup e a trajetória

6. Como nasceu a ideia da O2 Eco e qual problema central vocês se propuseram a resolver?A O2eco nasce do meu amor pela natureza 💚 e da inquietação com rios e sistemas aquáticos degradados e do entendimento de que “tratar” não basta, é preciso regenerar. Unimos biotecnologia simples e escalável com engenharia enxuta para reduzir carga orgânica, melhorar qualidade da água e diminuir custos (químicos, lodo e CO₂).

7. Quais foram os maiores desafios técnicos e empreendedores que enfrentaram até aqui?

  • Técnico-científico: provar desempenho in situ, em contextos complexos e variáveis;
  • Mercado: superar a “inércia do químico” e processos de compra tradicionais;
  • Escala: padronizar implantação/monitoramento mantendo custo baixo e impacto alto.

8. Vocês sentem que existe abertura no Brasil para inovação em tecnologias ambientais, ou ainda há muita resistência?Existe, sim, especialmente em saneamento e indústria que sentem pressão por ESG e custo. Ainda há resistências (avaliação de risco, licitações), mas a janela para soluções regenerativas está se abrindo rapidamente, e os cases aceleram a adoção.

🔹 Sobre a premiação da KPMG

9. Como foi o processo de seleção da KPMG até chegar ao reconhecimento como a startup mais inovadora do Brasil nesse setor?Passamos por inscrição, heats de avaliação, pitchs técnicos/negociais e a final nacional com duas bancas independentes. Os critérios costumam incluir inovação, proposta de valor, tração/mercado, time e potencial de escala internacional.

10. Quantas startups participaram e como se deu a avaliação do trabalho de vocês?Foram 100 startups e 10 no funil semifinal, com 5 finalistas em uma final enxuta.

11. O que representa, para você e para a equipe, conquistar um prêmio dessa relevância?Validação forte de que a água tem que estar no centro da conversa, e trazer a inovação de alto impacto para a equipe, clientes e parceiros. É também responsabilidade: levar o Brasil ao palco global com uma solução que reduz custo, melhora a vida das pessoas e protege o meio ambiente. E parabéns para a KPMG por ter essa coragem!

12. Quais portas já começaram a se abrir depois da premiação?Acesso à rede KPMG, investidores estratégicos, clientes âncora, convites a eventos e a possibilidade de internacionalizar em plataformas como o Web Summit. Na prática: mais reuniões certas, ciclos de venda mais curtos e POCs estruturadas.

🔹 Próximos passos

13. Quais são os planos da O2 Eco para os próximos anos em termos de expansão e novas parcerias?

  • Brasil: utilidades de saneamento, indústrias de alto consumo hídrico e municípios;
  • Portfólio: integrar bioestimulação (TWC) + desaguamento inteligente (Salus) + monitoramento digital.

14. Existe a intenção de levar a tecnologia para outros países ou contextos internacionais?Sim. Prioridades naturais: Portugal/UE, Austrália e América Latina (parcerias institucionais já em conversas). Foco em bacias críticas e clientes com metas ESG claras.

15. Que tipo de apoio (governos, empresas, sociedade) é essencial para escalar a solução?

  • Governo: marcos regulatórios pró-inovação, PPPs e compras por performance;
  • Empresas: abertura para POCs com metas e dados compartilhados;
  • Academia: protocolos e publicações;
  • Sociedade: educação hídrica e participação comunitária.(Adicional: mecanismos de crédito hídrico para reconhecer quem regenera.)

🔹 Reflexões sobre água e regeneração

16. Muitas vezes, a água é tratada como recurso infinito, mas sabemos que não é assim. Como você enxerga essa contradição?Tratar como “infinita” distorce preços, prioridades e políticas. Água é capital natural crítico: sem ela, não há saúde, nem produção, nem energia.

17. O que significa, para você, falar em “regeneração” quando tratamos da água?Ir além do “cumprir tabela”. É restaurar função ecológica, aumentar resiliência, reduzir dependência de químicos e devolver serviços ecossistêmicos (oxigenação, biodiversidade, estabilidade de sedimentos).

18. Quais são os maiores riscos se continuarmos tratando a água como secundária nas políticas públicas e no cotidiano?Crises hídricas, custos explosivos para indústria e cidades, perda de biodiversidade, conflitos de uso e impacto direto na saúde. Em resumo: risco sistêmico, econômico e social.

19. Você acredita que tecnologias como a O2 Eco podem também despertar consciência social, além de resolver problemas ambientais?Sim. Quando a comunidade vê o rio voltar a cheirar bem e clarear, e quando dados (dashboards simples) mostram evolução, nasce consciência e corresponsabilidade. Tecnologia é ponte para cultura de cuidado.

20. Se pudesse deixar uma mensagem para empresas e cidadãos sobre a importância da água, qual seria?Água é estratégica. Regenere e preserve. Cada vez mais as empresas precisam adotar metas anuais, escolher soluções de alto impacto/custo-efetivo, valorizar crédito hídrico e apoiar iniciativas locais. No dia a dia: cada litro conta do consumo doméstico ao processo industrial.

Veja outras matérias da coluna SUSTENTABILIDADE E REGENERAÇÃO no link: http://www.band.com.br/band-vale/colunistas/sustentabilidade-regeneracao

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