
“Adultização secreta”: como o aumento da conectividade propõe desafios inéditos a seu bem-estar
Divulgação
O debate recente nacional sobre a exposição de crianças a comportamentos adultos levou à popularização do termo “adultização”. Também facilitou o debate e a aprovação no Congresso Nacional da lei contra a “adultização” no ambiente virtual, apelidada de “ECA Digital” ou “Lei Felca”, devido à contribuição do influenciador digital homônimo para a discussão pública dessa pauta.
Apesar da intensidade da discussão, uma pesquisa recente do Cetic (Centro Regional para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação) revela possíveis fontes de preocupações a respeito do bem-estar das crianças no Brasil nos próximos anos. O estudo expõe uma mudança dramática no comportamento infantil, com o uso de internet entre crianças de 6 a 8 anos dobrando de 41%, em 2015, para 82%, em 2024.
O aumento de frequência coincide com o crescimento no porte de celulares no mesmo grupo etário, que saltou de 18% para 36% no mesmo período. Apesar da rápida intensificação de exposição a eletrônicos e comunicações digitais a gerações recentes, a chamada Geração Alfa, nascida a partir de 2010, é primeira geração autenticamente nativa digital e esse fato começa a exibir desafios igualmente inéditos.
Exposição digital intensa
Os jovens da Geração Alfa transitam pelos espaços digitais mais cedo do que qualquer outro agrupamento humano em momentos anteriores. Essa adoção digital acelerada traz preocupações incontornáveis numa idade fundamental de formação de personalidade e socialização.
Se há estudos apontando o crescimento na incidência de transtornos de ansiedade e distúrbios de autoimagem em adolescentes em conexão com uso intenso de redes sociais, o uso desmedido da internet entre crianças de menos de 8 anos pode trazer impactos ainda menos previsíveis.
Embora o uso cotidiano da internet em si não seja danosa, os conteúdos curtos e que capturam a atenção são os mais consumidos pela Geração Alfa, como os vídeos breves do YouTube e TikTok. A exposição prolongada a tais vídeos está associada a desequilíbrios de dopamina e, numa idade tenra, podem influenciar profundamente o sistema de recompensas cerebral de um indivíduo – e, assim, seu desenvolvimento cognitivo e emocional.
Há muitos outros riscos para crianças pequenas em ambiente digita, como a exposição a conteúdos impróprios à idade, contato com estranhos e agentes maliciosos, e manipulação emocional.
Proteções existentes para pais e responsáveis
Diante de um cenário desafiador e ainda em desenvolvimento, pais e responsáveis tendem a se desesperar. Mas a falta de familiaridade com tecnologia não pode ser um fator para manter o ambiente doméstico desguarnecido contra ameaças do ambiente digital.
Apesar da necessidade de novas regulações para usos de meios digitais e da baixa qualidade do debate nacional, já há maneiras cotidianas eficazes de proteger crianças em ambiente digital.
Transparência, diálogo e instrução
Para esse assunto, a autoridade com crianças deve se basear em comunicação transparente e honesta sobre quando elas podem usar a internet e o celular, com quem elas podem se comunicar e de que maneira isso deve acontecer.
“Mandar” não é suficiente. É preciso fazê-las entender que tudo que é posto na internet ou compartilhado de alguma forma online com alguém deixa um rastro de informações que dificilmente pode ser apagado. Nesse sentido, é válido instruir sobre como se comunicar de modo educado e não ofensivo, e que deixar uma “pegada” positiva de dados é o caminho certo a seguir.
Além disso, é fundamental esclarecer que contato com pessoas ou conteúdos que as chateie, deixe desconfortáveis ou assustadas devem ser reportadas a um adulto imediatamente. É preciso se mostrar à disposição para acolhê-las nesses casos negativos, sem julgamentos.
Finalmente, fixar uma disciplina de uso de celular também é muito importante. Ela pode ser difícil de cumprir à risca muitas vezes, mas permite construir uma relação de confiança entre pais e filhos.
Tecnologias protetivas
Não é preciso ser um especialista em tecnologia para usá-la a favor das crianças no cotidiano, mas pode ser necessário algum aprendizado básico por parte dos responsáveis.
No dispositivo da criança, é importante se certificar de que o aparelho está com o sistema operacional atualizado com as mais recentes configurações de segurança da Apple ou Google. Além disso, é preferível personalizar as configurações de coleta e processamento de dados pelo próprio sistema operacional e pelos aplicativos para torná-las o menos invasivas possível.
É relevante investir num bom antivírus e na melhor VPN nos computadores e celulares domésticos. Eles aumentam também a privacidade e proteção e não necessariamente implicam custos exorbitantes, mesmo em planos de família.
Por fim, manter as webcams cobertas em computadores, evitar ao máximo o compartilhamento de imagens e vídeos, e estabelecer controles de busca de palavras sensíveis são medidas particularmente importantes para crianças pequenas.
Presença online paterna e bons hábitos
A educação pelo exemplo e a busca por passar tempo juntos não podem ser desprezados como forças que moldam hábitos entre crianças. Por isso, disciplinar os próprios compartilhamentos, a intensidade e a qualidade das relações e interações mantidas no meio digital servem como encorajamento para que as crianças ajam corretamente nessa seara.
Nesse momento, ser presente passa a significar também intensificar a troca de comunicações digitais, emojis e mensagens positivas digitalmente com as crianças. Sugerir uma conduta educada e ciosa de privacidade ajudará ao pequeno e os que com ele convivem.
Passar tempo online juntos também pode propiciar ensinar o que é informação de baixa qualidade, o que é uma peça publicitária e o que é informação confiável. Escolha sempre previamente atividades, jogos, aplicativos e sites apropriados antes de apresentá-los às crianças.
Por fim, em caso de rotinas online na escola, é relevante se familiarizar sobre como ela funciona. Entender a frequência delas e a comunicação, sem ser invasivo, (e intervir proporcionalmente em caso de abusos ou desconforto) são preocupações saudáveis.
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