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Dia Mundial da Tuberculose: a história dos sanatórios no Vale do Paraíba

Historiadores explicam como São José dos Campos foi classificada como uma das principais alternativas para tratamento da doença

REDAÇÃO BAND VALE
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24/03/2026 • 11:41 • Atualizado em 24/03/2026 • 11:41

Dia Mundial da Tuberculose: a história dos sanatórios no Vale do Paraíba

Dia Mundial da Tuberculose: a história dos sanatórios no Vale do Paraíba

Reprodução: Documentário 'Apresentação Série Tuberculose e História' / Ana Enedi Prince

No Dia Mundial da Tuberculose, celebrado nesta terça-feira, 24 de março, revisitar o passado ajuda a entender como uma das doenças mais devastadoras da história influenciou diretamente o desenvolvimento de cidades inteiras como São José dos Campos.

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Muito antes de se consolidar como referência em tecnologia e indústria, a cidade ficou conhecida como destino de tratamento para pacientes com tuberculose. No início do século 20, quando ainda não existiam medicamentos eficazes, o chamado “tratamento pelo clima” era uma das principais alternativas.

Segundo o historiador David de Albuquerque, fatores naturais foram decisivos para essa vocação. “A cidade já tinha fama de clima benéfico”, explica. Localizada entre a Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar, com temperaturas mais amenas e ar mais seco em determinadas épocas do ano, São José atraía pacientes de diversas regiões. “Vir para cá já ajudava quem tinha infecção pulmonar”, resume.

Esse movimento ganhou força com o crescimento urbano desordenado em grandes cidades brasileiras, especialmente após a abolição da escravidão. A falta de saneamento e infraestrutura favorecia a disseminação de doenças. “Crescimento rápido aumenta doenças”, destaca o historiador. Nesse contexto, surgiram alternativas fora dos grandes centros, como o Sanatório Vicentina Aranha, inaugurado em 1924. Considerado um dos maiores da América Latina na época, o espaço adotava um modelo de tratamento baseado em repouso, alimentação e silêncio. “Era basicamente isso”, pontua.

O sucesso do sanatório impulsionou a criação de outras unidades e até de pensões adaptadas para receber pacientes. Ao todo, a cidade chegou a ter dezenas de estabelecimentos voltados a esse tipo de atendimento. A influência da tuberculose foi tão marcante que ajudou a moldar o próprio espaço urbano, com ruas planejadas para melhorar a circulação de ar e reduzir a contaminação. A partir da década de 1930, São José passou a receber investimentos públicos para ampliar sua estrutura sanitária e atender um número crescente de doentes.

Além do impacto urbano e médico, a doença também carregava forte estigma social. “Era associada a maus hábitos”, lembra Albuquerque. Ainda assim, a cidade teve papel importante no avanço de técnicas de tratamento, contribuindo para o desenvolvimento científico da época. Com o tempo, esse legado ajudou a moldar o perfil moderno do município. “A cidade tecnológica nasce dessa fase”, resume.

Se por um lado o clima e a estrutura urbana explicam a vocação de São José dos Campos, por outro, as políticas públicas e os avanços médicos foram fundamentais no combate à doença. A professora e doutora em História Ana Enedi Prince destaca que, no início do século 20, a tuberculose era um grave problema de saúde pública no estado de São Paulo. “Havia alta mortalidade”, afirma. Foi nesse cenário que surgiu a Reforma Paula Souza, que buscava não apenas tratar, mas educar a população. “Era preciso criar consciência sanitária”, explica.

A consolidação da cidade como estância de tratamento foi oficializada em 1935, quando passou a receber ainda mais pacientes. Além dos sanatórios, pensões também cumpriam papel importante, acolhendo quem não conseguia vaga. Nesses locais, havia acompanhamento médico periódico, enquanto nos sanatórios a rotina era rígida, com horários controlados e foco no repouso físico e mental.

Entre os principais sanatórios estavam:

  • Vicentina Aranha (1924)
  • Vila Samaritana (1928)
  • Rui Dória (1934)
  • Maria Imaculada (1935)
  • Ezra (1936)

Sem antibióticos, o tratamento se baseava no fortalecimento do organismo e na exposição ao ar puro. Em alguns casos, técnicas mais invasivas chegaram a ser utilizadas, como o colapso pulmonar induzido. A mudança mais significativa veio a partir de 1943, com o surgimento da estreptomicina. “Isso mudou o prognóstico”, destaca a professora. Com o avanço dos medicamentos, o tratamento deixou de exigir longas internações, permitindo que os pacientes se recuperassem em casa.

A história de São José dos Campos mostra como o enfrentamento da tuberculose foi determinante não apenas para a saúde pública, mas também para a formação urbana, social e econômica da cidade.

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