Band Vale

Impacto do reajuste do plano de saúde é insustentável, explica especialista

Enquanto o IPCA cresceu 84% em dez anos, planos coletivos avançaram 383%. Segundo o advogado Elton Fernandes, os reajustes abusivos ameaçam a permanência de famílias no sistema de saúde suplementar

BANDFY

28/08/2025 • 15:48 • Atualizado em 28/08/2025 • 15:48

Impacto do reajuste do plano de saúde para famílias

Impacto do reajuste do plano de saúde para famílias

Snowing/Freepik

Os reajustes dos planos de saúde no Brasil têm se tornado uma carga cada vez mais pesada para famílias e empresas, com aumentos que superam significativamente a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Compartilhar

Nos últimos dez anos, entre 2015 e 2025, os planos de saúde coletivos acumularam uma alta de 383,5%, enquanto os planos individuais registraram aumento de 146,48%. No mesmo período, o IPCA cresceu apenas 84%, com projeção de 5,2% para 2025, segundo dados da consultoria Arquitetos da Saúde.

Esses números evidenciam um descompasso que pressiona o orçamento de milhões de brasileiros e levanta questionamentos sobre a sustentabilidade do setor de saúde suplementar, de acordo com o advogado especialista em Direito da Saúde, Elton Fernandes. “Ainda vemos idosos vinculados a um mesmo plano por muitos anos. É improvável que isso se mantenha para os idosos do futuro. Como a maioria está em plano coletivo, o custo de carregar esse contrato é muito maior”, explica.

Foto: Impacto do reajuste do plano de saúde

Foto: Impacto do reajuste do plano de saúde

Drazen Zigic/Freepik

Reajustes acima da inflação

De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o reajuste máximo para planos individuais e familiares em 2025 foi fixado em 6,06%, válido de maio de 2025 a abril de 2026. Esse percentual, embora inferior aos 6,91% de 2024 e 9,63% de 2023, ainda supera a inflação geral, que fechou 2024 em 4,5%.

Para os planos coletivos, que abrangem 43,6 milhões de beneficiários – cerca de 83% do mercado –, os reajustes serão ainda mais elevados. Levantamentos de bancos como BTG Pactual e Itaú BBA mostram que as operadoras aplicaram percentuais na casa dos dois dígitos para os planos coletivos empresariais, como a Unimed Nacional, com 19,5%, a SulAmérica, com 15,23%, e a Bradesco Saúde, com 15,11%.

Peso no orçamento das famílias

O advogado destaca que os reajustes abusivos têm levado a uma alta rotatividade de consumidores, especialmente entre idosos, que enfrentam dificuldades para manter contratos de longo prazo.

A pesquisa “Gastos das famílias com planos de saúde no Brasil e comprometimento da renda domiciliar”, publicada em 2022, confirmou que famílias com planos de saúde, especialmente com idosos ou de baixa renda, têm maior probabilidade de comprometer mais de 40% da renda per capita com despesas de saúde.

Diante desse cenário e do aumento dos custos essenciais, famílias da classe média acabam justamente cortando os gastos com saúde suplementar para garantir o consumo básico, conforme apontou o Índice de Preços dos Gastos Familiares, ou IPGF, um índice alternativo de inflação elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Metodologia da ANS e falta de transparência

A metodologia da ANS para calcular o reajuste dos planos individuais combina o Índice de Valor das Despesas Assistenciais (IVDA), com peso de 80%, e o IPCA, com peso de 20%, descontando o subitem plano de saúde.

O IVDA reflete a variação dos custos com atendimentos, influenciada por fatores como aumento da frequência de uso, incorporação de novas tecnologias e judicialização.

No entanto, Elton Fernandes afirma que a falta de transparência nos reajustes dos planos coletivos impede que o consumidor entenda o porquê de aumentos tão superiores ao índice da ANS. “A ANS toma em consideração os custos, a incorporação de tecnologias e, inclusive, a necessária sustentabilidade do setor. A diferença entre o reajuste ANS dos planos coletivos é gritante”, analisa o advogado especialista.

O advogado aponta que a Justiça tem reconhecido a abusividade nos aumentos dos contratos coletivos, muitas vezes equiparando-os ao teto da ANS para planos individuais. “Famílias foram levadas a contratar planos coletivos, por vezes, se associando a entidades nada representativas ou abrindo CNPJ para ter plano de saúde. Em muitos casos, a Justiça toma isso em consideração para determinar a readequação dos planos coletivos em individuais e familiares”, explica Elton Fernandes.