
Letícia Martins revela os sinais de endometriose além da cólica intensa
TV NOTÍCIAS ASSESSORIA DE IMPRENSA- BRASIL NEWS
Sentir cólica durante a menstruação é comum, mas uma dor que impede a mulher de trabalhar, estudar ou realizar atividades cotidianas não deve ser encarada como parte inevitável do ciclo menstrual. Quando o problema se repete todos os meses e vem acompanhado de outros sintomas, pode haver necessidade de investigação para endometriose.
A doença ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento interno do útero se desenvolve fora da cavidade uterina. As lesões podem atingir estruturas como ovários, trompas, intestino, bexiga e outras regiões da pelve.
Apesar de ser uma condição relativamente frequente, o diagnóstico ainda pode demorar. Um dos principais obstáculos é justamente a dificuldade de diferenciar uma cólica menstrual esperada de uma dor que indica a presença de alguma alteração ginecológica.
Segundo a ginecologista Letícia Martins, atualmente em fellowship de cirurgia ginecológica minimamente invasiva, o impacto do sintoma na rotina é um dos principais critérios de alerta.
“Existe uma diferença entre sentir cólica no período menstrual e ter uma dor que muda completamente a rotina, que impede o trabalho, os estudos ou qualquer atividade cotidiana. Esse tipo de sintoma não deve ser interpretado como parte natural do ciclo.”
Mais do que considerar apenas a intensidade da dor, é importante observar com que frequência ela acontece e de que maneira interfere na vida da paciente. Faltas recorrentes, necessidade constante de analgésicos e dificuldade para cumprir compromissos podem indicar que o quadro precisa ser investigado.
Sinais que podem acompanhar a dor menstrual
Além da cólica incapacitante, alguns sintomas podem reforçar a suspeita de endometriose. Entre eles estão alterações intestinais que acontecem durante a menstruação, dor para evacuar, sangramento na urina nesse período e dor durante a relação sexual, especialmente quando mais profunda.
Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma o diagnóstico. A repetição dos sintomas ao longo dos ciclos, porém, deve ser relatada ao ginecologista.
“Costumo perguntar ativamente, na consulta, se a paciente sente dor intensa que atrapalha a qualidade de vida durante a menstruação e se há alteração do hábito intestinal ou urinário associada a esse período. Muitas vezes, é a primeira vez que essa relação é percebida por ela”, afirma a médica.
De acordo com Letícia, muitas mulheres convivem com esses sintomas durante anos antes de procurar ajuda. A normalização da dor pode ocorrer inclusive entre profissionais de saúde, que nem sempre reconhecem imediatamente que a própria experiência menstrual ultrapassa o que seria considerado habitual.
Esse atraso não acontece apenas por falta de informação. Em muitos casos, está relacionado ao hábito de suportar o desconforto até que ele se torne insustentável.
Diagnóstico depende da avaliação completa da paciente
A investigação da endometriose começa pela história clínica. O médico procura compreender quando a dor acontece, quais atividades são comprometidas, se existem sintomas intestinais ou urinários e como está a vida sexual e reprodutiva da paciente.
Exames de imagem específicos também podem ser solicitados. A escolha depende dos sintomas, da avaliação ginecológica e da suspeita de comprometimento de diferentes órgãos.
Na rede pública, o acesso a exames especializados e a equipes multidisciplinares ainda pode representar um desafio. Segundo a experiência da médica nos serviços em que atua, algumas pacientes enfrentam longos períodos de espera, especialmente quando o quadro exige avaliação conjunta com outras especialidades.
“Às vezes, ainda falta um atendimento mais amplo para essas pacientes, envolvendo diferentes profissionais ao mesmo tempo. A espera pode ser grande até para quem já chega com o diagnóstico estabelecido, e ainda maior para quem continua em investigação.”
Quando existe suspeita de acometimento intestinal, por exemplo, pode ser necessária a participação de profissionais da coloproctologia. Radiologistas especializados, fisioterapeutas pélvicos e outros integrantes da equipe também podem participar do cuidado.
Para a ginecologista, esse cenário vem mudando gradualmente, à medida que novos serviços passam a organizar fluxos específicos para o diagnóstico e o tratamento da doença.
Ter endometriose não significa precisar de cirurgia
A confirmação do diagnóstico não leva, necessariamente, à indicação de uma cirurgia. O tratamento é individualizado e considera a intensidade dos sintomas, a extensão das lesões, a idade da paciente, o desejo de engravidar e a resposta às abordagens clínicas.
Entre as possibilidades estão o bloqueio hormonal, a fisioterapia pélvica, o acompanhamento nutricional e medidas voltadas ao controle da dor e à melhora da qualidade de vida.
“O tratamento costuma começar por outras frentes. Avaliação nutricional, fisioterapia pélvica e bloqueio hormonal são recursos que, em muitos casos, trazem melhora expressiva. A cirurgia passa a ser considerada quando essas alternativas não controlam o quadro ou quando existe uma indicação específica.”
O desejo de engravidar também deve fazer parte da decisão. A endometriose pode afetar a fertilidade de formas diferentes, dependendo da localização e da extensão das lesões. Por isso, a conduta deve ser discutida individualmente.
Quando a cirurgia minimamente invasiva é indicada
Nos casos em que a cirurgia para endometriose é necessária, a videolaparoscopia é, de modo geral, a principal via utilizada para identificar e remover os focos da doença por meio de pequenas incisões no abdômen.
Já a histeroscopia é indicada para a investigação e o tratamento de alterações localizadas dentro da cavidade uterina, como pólipos, miomas submucosos e algumas suspeitas de câncer de endométrio. Como a endometriose se desenvolve fora da cavidade uterina, a histeroscopia não é utilizada no tratamento da doença.
Além da endometriose, a laparoscopia também pode ser empregada em cirurgias para cistos ovarianos, determinados tipos de miomas e outras alterações pélvicas.
As técnicas minimamente invasivas costumam estar associadas a menor tempo de internação, menos dor no pós-operatório e recuperação mais rápida. A indicação, no entanto, depende do diagnóstico, da complexidade do quadro, dos órgãos envolvidos, da estrutura disponível e da experiência da equipe cirúrgica.
“Na endometriose, a abordagem costuma ser realizada por videolaparoscopia. Já a cirurgia aberta pode ser considerada em outras condições ginecológicas, como determinados miomas, cirurgias ovarianas ou histerectomias de úteros volumosos, sempre de acordo com a avaliação individual da paciente.”
A cirurgia robótica também vem ganhando espaço em centros especializados. A tecnologia pode oferecer maior precisão e amplitude de movimentos ao cirurgião, mas sua indicação deve ser individualizada. Nem toda paciente precisa ou terá benefício adicional com esse tipo de procedimento.
O acompanhamento continua depois da cirurgia
A endometriose é uma doença crônica. Mesmo depois de uma cirurgia bem-sucedida, algumas pacientes precisam manter acompanhamento ginecológico para controlar sintomas, monitorar possíveis recorrências e definir estratégias de longo prazo.
“A cirurgia não encerra necessariamente o acompanhamento. São mulheres jovens, que ainda podem conviver durante muitos anos com a função ovariana ativa, e isso exige cuidado contínuo.”
Esse acompanhamento também é importante durante a transição para a menopausa. Mulheres com histórico de endometriose precisam de avaliação individualizada, principalmente quando existe indicação de terapia hormonal.
A presença anterior da doença não significa que toda reposição hormonal esteja proibida. A decisão deve considerar sintomas, histórico clínico, riscos, benefícios e características de cada paciente.
Informação ajuda a reduzir o atraso no diagnóstico
Nos últimos anos, Letícia percebeu uma mudança no comportamento das pacientes. Muitas chegam à consulta com mais informações e conseguem reconhecer sintomas que antes seriam tolerados em silêncio.
Essa conscientização pode reduzir o intervalo entre o aparecimento dos primeiros sinais e a busca por avaliação médica.
A especialista reforça, porém, que conteúdos publicados na internet não substituem a consulta. A endometriose pode se manifestar de formas diferentes, e sintomas semelhantes também podem estar relacionados a outras condições ginecológicas, intestinais, urinárias ou musculares.
O principal alerta é observar o próprio corpo e procurar atendimento quando a dor começa a determinar a rotina.
Quem é Letícia Martins
Letícia Martins concluiu a graduação em Medicina na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e a residência em Ginecologia e Obstetrícia na Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Durante a formação, teve contato com um serviço de referência em atendimento humanizado à gestante e ao recém-nascido. A experiência contribuiu para o desenvolvimento de uma abordagem clínica baseada na escuta atenta, utilizada não apenas como forma de acolhimento, mas também como ferramenta de diagnóstico.
Após a residência, aprofundou os estudos em ginecologia estética, funcional e regenerativa, área em que realizou pós-graduação em São Paulo.
Atualmente, participa de um fellow em endoscopia ginecológica no Núcleo Avançado em Ginecologia (NAG), na Bahia. A formação é voltada à cirurgia ginecológica minimamente invasiva, incluindo técnicas como laparoscopia e histeroscopia.
Sua atuação profissional está dividida entre as redes pública e privada de saúde em Salvador, na Bahia, o que permite acompanhar mulheres em diferentes contextos de acesso ao diagnóstico e ao tratamento ginecológico.
CRM 48116 | RQE 27532 Instagram: @leticiapmar

Foto: Cecília Rachel
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