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"Titanic brasileiro": conheça a história do navio que naufragou em Ilhabela

Considerado um dos maiores desastres marítimos da história do Brasil, o Princípe de Astúrias completou 110 anos

LUCAS GONÇALVES

14/04/2026 • 12:53 • Atualizado em 14/04/2026 • 12:53

Cartão postal com o navio Príncipe de Astúrias

Cartão postal com o navio Príncipe de Astúrias

Créditos: Distribuído pela Cia. Pinillos Izquierdo & Co

O naufrágio do Príncipe de Astúrias é considerado um dos episódios mais marcantes da história marítima brasileira e frequentemente chamado de “Titanic brasileiro” devido à sua dimensão e ao elevado número de vítimas. O caso ocorreu no litoral norte de São Paulo e segue, até hoje, como um dos maiores desastres navais já registrados no país, cercado de relatos históricos, controvérsias e estudos que buscam compreender as causas da tragédia.

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O arqueólogo e historiador Plácido Cali detalha a história do naufrágio do Príncipe de Astúrias, que completou 110 anos no começo desse ano, considerado um dos maiores naufrágios da história do Brasil em número de vítimas.

Segundo ele, o navio era um transatlântico espanhol construído em 1914, na Escócia, com aproximadamente 140 metros de comprimento. Em sua oitava viagem rumo à América, o Príncipe de Astúrias transportava passageiros e cargas diversas, incluindo imigrantes de diferentes nacionalidades e materiais de alto valor.

O naufrágio ocorreu na madrugada de 5 de março de 1916, por volta de 4h15, quando a embarcação colidiu com rochas na região da Ponta da Pirabura, no norte da Ilha de São Sebastião, em Ilhabela. De acordo com o historiador, as condições climáticas eram extremamente desfavoráveis, com forte chuva, tempestade e baixa visibilidade, o que dificultou a navegação.

Além disso, ele destaca que, na época, a região ainda não contava com sistemas adequados de sinalização marítima, como faróis costeiros, o que aumentava o risco de acidentes. Outro fator apontado por pesquisadores seria a presença de formações rochosas e minerais como a magnetita, que poderia interferir no funcionamento das bússolas utilizadas nas navegações daquele período.

Após a colisão, o navio afundou em poucos minutos, o que reduziu drasticamente as chances de resgate. Segundo relatos, apenas uma embarcação salva-vidas teria sido lançada ao mar, e muitos passageiros não conseguiram deixar o transatlântico a tempo.

Última fotografia feita do Príncipe de Astúrias, em 28/02/1916. Autor: Manoel Balda, do navio “Infanta Isabel” | Imagem do acervo José Carlos Silvares.

Última fotografia feita do Príncipe de Astúrias, em 28/02/1916. Autor: Manoel Balda, do navio “Infanta Isabel” | Imagem do acervo José Carlos Silvares.

O número de vítimas é considerado elevado e ainda cercado de variações, já que parte dos passageiros não estava registrada oficialmente. Há registros de imigrantes clandestinos a bordo, especialmente italianos, além de famílias inteiras que não constavam nas listas oficiais. Estimativas indicam centenas de mortos, tornando o episódio o maior naufrágio já registrado no Brasil.

O Príncipe de Astúrias também chamava atenção pela carga transportada. Entre os itens estavam estátuas de bronze destinadas à Argentina, além de toneladas de metais como cobre, estanho e outros materiais industriais. Parte dessa carga alimentou, ao longo dos anos, o interesse de pesquisadores e mergulhadores na região, destaca o historiador.

Uma das peças recuperadas do navio, segundo o historiador, integra atualmente o acervo do Museu Naval, no Rio de Janeiro. Entre os objetos mais curiosos encontrados está uma escarradeira de porcelana, comum na época, utilizada para higiene pessoal.

Plácido Cali também relata que há registros de sobreviventes que não constavam nas listas oficiais de bordo, como imigrantes italianos que teriam embarcado clandestinamente. Algumas famílias inteiras também foram identificadas posteriormente como vítimas do naufrágio, ampliando as incertezas sobre o número real de pessoas a bordo.

O pesquisador destaca ainda que o navio francês Vega teria sido o primeiro a avistar o desastre, iniciando tentativas de resgate. Outro fator que, segundo relatos históricos, teria ajudado na sobrevivência de alguns passageiros foi a carga de cortiça transportada pelo navio, cujos fardos teriam servido como apoio flutuante no mar.

O museu naútico de Ilhabela

O Museu Náutico de Ilhabela reúne a história de cerca de 28 naufrágios registrados na região, com destaque para o Príncipe de Astúrias, conhecido como o “Titanic brasileiro” e considerado o maior desastre marítimo da América do Sul.

De acordo com o guia de turismo histórico e cultural Pedro Henrique Santos, o espaço também apresenta conteúdos sobre a importância dos faróis na navegação, réplicas de embarcações, incluindo modelos do período do Descobrimento e até uma embarcação fenícia, além de peças resgatadas de naufrágios.

O museu está instalado em um prédio histórico de 1914, tombado pelo Condefat, que já funcionou como antiga cadeia e fórum de Ilhabela. Segundo o guia, o mar da região guarda uma história rica, marcada por fatores que contribuíram para acidentes marítimos, como a presença de pedras e recifes em baixa profundidade, a ausência de sinalização adequada no passado e até interferências magnéticas causadas pela magnetita presente na formação rochosa da ilha.

Créditos: Plácido Cali

Créditos: Plácido Cali

Também há registros de naufrágios durante a Segunda Guerra Mundial, com navios torpedeados por submarinos alemães, além de um caso mais recente, em 1991, relacionado a um problema de desembarque no Porto de São Sebastião.

O naufrágio do Príncipe de Astúrias ocorreu na Ponta da Pirabura, área que ainda hoje apresenta navegação e concentra grande número de embarcações naufragadas, especialmente no sul da ilha, região de mar aberto. Há relatos de que o navio transportava itens valiosos, como joias, que permaneceriam no fundo do mar.

Entre os objetos expostos no museu estão itens curiosos, como uma escarradeira, recipiente utilizado no passado por pessoas que mascavam tabaco, e um escafandro, equipamento antigo de mergulho.

O Museu Náutico funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, e aos fins de semana, das 9h às 20h. A visitação é gratuita e conta com guias bilíngues. O espaço é administrado pela Secretaria de Cultura.

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