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O agro que ninguém vê

Como a gestão de processos está transformando a produtividade no campo

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19/02/2026 • 11:47 • Atualizado em 19/02/2026 • 11:47

Agro

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Reprodução/Band

Por muito tempo, o imaginário do agronegócio foi construído sobre figuras quase arquetípicas: o produtor que conhece a terra pelo tato, que lê o céu antes da chuva, que decide com base na experiência acumulada ao longo de décadas. Esse conhecimento segue sendo valioso e indispensável, aliás. Mas já não é o suficiente.

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Hoje, nas grandes operações agrícolas, há um outro perfil ganhando protagonismo: o gestor que enxerga a fazenda como um sistema integrado, onde tempo, movimento, logística e dados são tão determinantes quanto clima e solo.

É nesse contexto que a trajetória do engenheiro agrônomo Thiago Henrique Grimm ajuda a traduzir essa transformação.

Aos 34 anos, engenheiro agrônomo formado pela Universidade Católica Dom Bosco, Grimm construiu sua carreira no coração de uma operação agrícola de larga escala, mais de 6.200 acres sob sua gestão, onde assumiu o papel de Diretor de Operações. Mas seu diferencial nunca esteve no óbvio. Enquanto muitos olhavam para produtividade em toneladas por hectare, ele olhava para o que acontecia entre uma etapa e outra.

Os intervalos. As pausas. Os desperdícios invisíveis.

“Eu sempre procurei olhar para os detalhes que passam despercebidos no dia a dia. São eles que, no final, fazem diferença no resultado”, explica.

A economia que ninguém enxerga

Em uma operação tradicional de plantio de milho ou soja, o abastecimento das plantadeiras é um momento lento. Tradicionalmente, o processo é feito em etapas separadas: primeiro o fertilizante, depois a semente, depois a água. Isso exige tempo, deslocamento e coordenação entre diferentes equipamentos.

Ao reorganizar o processo e permitir o abastecimento simultâneo dos três insumos, apoiado por equipamentos mais eficientes, como guindastes com controle remoto, ele reduziu cerca de 11 minutos por ciclo.

Na prática, isso significa ganhar horas ao longo de um único dia de plantio.

Onze minutos parecem pouco, até serem multiplicados por dezenas de máquinas, dias inteiros de operação e janelas climáticas cada vez mais estreitas. É correto dizer que no campo, tempo não é apenas dinheiro. É risco mitigado.

Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), perdas operacionais podem comprometer até 20% da eficiência total em sistemas agrícolas mal otimizados. Em um setor que responde por cerca de 24% do PIB brasileiro, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), essa margem representa bilhões.

Mas a verdadeira transformação não está nos números isolados. Está na mentalidade que os produz.

A lavoura como sistema

No ano de 2020, Grimm implementou um processo ainda pouco difundido mesmo em fazendas altamente tecnificadas: a descarga de colheitadeiras em movimento, sincronizada com tratores equipados com piloto automático. Antes disso, o procedimento era simples e ineficiente. A colheitadeira interrompia o trabalho, deslocava-se até os caminhões, descarregava e retornava ao ponto de colheita.

Cada parada, um microdesperdício. “São ajustes que, isoladamente, parecem pequenos. Mas, somados, fazem uma diferença grande no final da safra”, afirma o especialista.

Ao eliminar essa interrupção, o fluxo passou a ser contínuo. A colheita deixou de ser uma sequência de ações e passou a funcionar como um sistema. Essa lógica, de fluxo contínuo, é amplamente aplicada na indústria, especialmente em modelos de produção enxuta.

No campo, ainda é exceção. Mas, está mudando!

Um estudo da consultoria McKinsey indica que a digitalização e a otimização de processos podem aumentar a produtividade agrícola global em até 25% até 2030. Não necessariamente por meio de grandes inovações disruptivas, mas pela soma de melhorias operacionais bem executadas. Exatamente o tipo de intervenção que Grimm se especializou em fazer.

O gestor que forma equipes e nova cultura

Se há algo diferente no novo gestor rural, não é apenas sua capacidade de analisar processos, mas de transformar essa análise em cultura operacional.

À frente de uma equipe de 13 colaboradores, Grimm, além de implementar melhoras, também estruturou treinamentos, criou materiais instrucionais e estabeleceu rotinas de feedback contínuo. Porque eficiência, no fim das contas, não é uma decisão isolada. É um comportamento coletivo.

“Não adianta ter um processo bom se a equipe não estiver alinhada. O resultado vem quando todo mundo entende o que está fazendo e por quê”, resume o especialista.

E essa é uma mudança silenciosa no agronegócio contemporâneo. A profissionalização da gestão no campo passa, cada vez mais, por habilidades que extrapolam o conhecimento técnico, como liderança, comunicação e formação de equipes, por exemplo.

O campo deixa de ser apenas produtivo. Passa a ser organizacionalmente sofisticado.

Hoje, em Jacksonville, nos Estados Unidos, Grimm segue aplicando a mesma lógica.

Como empreendedor no segmento de serviços técnicos premium, ele construiu um negócio pautado pela eficiência, precisão e confiabilidade, atendendo clientes exigentes com um padrão elevado de execução.

O cenário mudou. O princípio, não.

O futuro

A imagem do agro como setor tradicional não desapareceu, mas ganhou novas camadas.

Drones, telemetria, inteligência de dados e automação fazem parte desse novo cenário. Mas, curiosamente, o verdadeiro diferencial competitivo continua sendo humano: a capacidade de observar, questionar e redesenhar o que parece imutável.

O novo gestor rural não substitui o produtor tradicional. Ele o complementa. Ele traduz experiência em sistema. Intuição em método. Rotina em estratégia. E, no processo, transforma a fazenda em algo que vai além da produção.

Autor: Vinícius Alonso

Autor: Vinícius Alonso