Indicado ao Oscar, O Agente Secreto recria Brasil com 169 carros clássicos

Filme de Kleber Mendonça Filho ambientado nos anos 1970 reuniu veículos de colecionadores em três capitais

Thiago Ventura

Por Thiago Ventura

Indicado ao Oscar, O Agente Secreto recria Brasil com 169 carros clássicos
Wagner Moura em cena de "O Agente Secreto"
Reprodução/O Agente Secreto/ Victor Jucá e Laura Castro

Indicado a quatro prêmios do Oscar 2026, “O Agente Secreto”, dirigido pelo cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, extrapola o circuito cinematográfico e ocupa espaço relevante nas conversas entre colecionadores e entusiastas de carros antigos no Brasil. 

Ambientado no final dos anos 1970, o filme promove uma recriação detalhada da frota que circulava no país à época, reunindo 169 veículos clássicos durante as gravações realizadas no Recife, em São Paulo e Brasília.

Modelos como Volkswagen Fusca, Brasília e TL, Ford Corcel, Puma, Fiat 147, Karmann-Ghia, Chevrolet Veraneio e Caravan, além de Kombis, ônibus e caminhões, compuseram o cenário das filmagens. O grande destaque é o Fusca amarelo de 1972 usado pelo protagonista interpretado por Wagner Moura.

O projeto exigiu uma ampla curadoria automotiva para garantir fidelidade histórica. O trabalho ficou a cargo do produtor de veículos em cena João Lucas, que já havia colaborado com Kleber Mendonça Filho em “Bacurau” e “Aquarius”. O processo começou com pesquisas e visitas a clubes e encontros de carros antigos.

“Kleber já dava muita referência no roteiro porque ele é um conhecedor da história e também um amante de veículos. Ele tinha muito bem definidos alguns modelos de carro que gostaria, sempre contextualizando com a história do Recife naquele momento”, afirma João Lucas, em entrevista exclusiva à Band Motor.

Segundo o produtor, a maior concentração de veículos ocorreu no Recife, onde foram contratados 142 carros. Outros 12 vieram de São Paulo e mais 15 de Brasília. A estratégia envolveu contato direto com colecionadores e proprietários ainda no início de 2024, meses antes do começo efetivo das gravações. Alguns deles, inclusive, acabaram participando do filme como figurantes.

É muito importante que o Brasil esteja nesse lugar de reconhecimento internacional, tanto no Festival de Cannes quanto no Globo de Ouro e agora no Oscar. Isso é fundamental porque o Brasil sempre fez um cinema muito cuidadoso e rico, com muita dedicação e resistência. João Lucas

"Muitas vezes, trabalhamos com recursos e estruturas limitadas, e ainda assim conseguimos realizar um filme desse tamanho e alcançar esse reconhecimento”, comemora o produtor.

Entre os principais desafios esteve a busca pelo Fusca usado pelo personagem de Wagner Moura. João Lucas encontrou o carro com o empresário Antoliano Azevedo, membro do Clube do Fusca de Pernambuco. Após a apresentação do projeto, o veículo foi mostrado ao ator e aprovado.

“Precisamos mudar todo o estofado interno, retirar alguns acessórios que não eram da época e manter outros que faziam parte do contexto dos anos 1970”, explica.

Além do Fusca, um caminhão FNM também deu trabalho para ser localizado, até que o produtor encontrou uma unidade em Gravatá (PE). O veículo pesado percorreu o trajeto até o Recife a cerca de 30 km/h no dia das filmagens. 

Outra dificuldade foi a Veraneio caracterizada como viatura da Polícia Militar. O modelo utilizado é de 1986 e pertence a Gutierrez Júnior, exigindo uma série de adaptações para representar um veículo de 1977.

“Foi preciso pintar o carro todo, mudar os bancos, trocar o capô e a grade frontal, porque algumas alterações tinham sido feitas a partir de 1978 ou 1979. Foi bem corrido, pois era uma cena no início do plano de filmagem, mas deu certo. Conseguimos as características de 1977, além do trabalho de cenografia para transformá-lo em viatura”, relembra.

Colecionadores no cinema

Em Pernambuco, os proprietários dos veículos não apenas cederam seus carros, como também participaram ativamente das cenas. Entre eles está o jornalista Sílvio Menezes, editor do programa Carro Arretado, que participou de seis diárias com seu Fiat 147 vermelho, ano 1978.

Para manter o realismo, a produção adotou uma série de cuidados técnicos. As placas atuais foram substituídas por modelos amarelos com duas letras e quatro números, padrão utilizado no Brasil até o fim dos anos 1980. Também houve orientação para evitar acessórios contemporâneos, como celulares, relógios e óculos modernos, além da exigência de figurino compatível com a época.

Cada veículo recebeu uma diária de R$ 450, além de alimentação completa oferecida pela produção, compartilhada entre elenco, figurantes e equipe técnica. “Ficávamos todos juntos: elenco, produção, colecionadores. O clima era muito bom”, relembra Menezes.

Outro detalhe curioso foi a decisão de não utilizar cintos de segurança durante as cenas, comportamento comum nos anos 1970. Da mesma forma, os carros não deveriam ser polidos. A preferência era por veículos com aparência de uso cotidiano, inclusive com poeira, para evitar artificialidade nas imagens.

As gravações ocuparam pontos estratégicos do Recife, como a Universidade Federal de Pernambuco e áreas centrais da cidade. Uma das cenas mais complexas exigiu a interdição temporária da ponte que liga os bairros do Cabanga e do Pina, às vésperas do São João de 2024.

Após as vitórias em Cannes e no Globo de Ouro e a indicação ao Oscar, o sentimento de orgulho se intensificou. “É uma festa para Pernambuco. Somos muito bairristas, e o Kleber também é. Meu carro aparece em algumas cenas, tenho meu nome nos créditos e agora no Oscar. É bom demais”, diz Menezes, em tom de brincadeira.

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