
Oscar 2026
Divulgação
Antes da consagração recente de "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto", a animação brasileira abriu uma porta fundamental para o reconhecimento internacional do país em Hollywood. A indicação de "O Menino e o Mundo" ao Oscar de Melhor Animação em 2016 foi um divisor de águas, como recorda a animadora Leticia Midori Sato, que atuou como diretora assistente no longa de Alê Abreu. Para ela, o sucesso não foi um acaso, mas o resultado de um movimento que vinha ganhando força e que mudou a percepção do mundo sobre as produções feitas aqui. "O Menino e o Mundo colocou o Brasil no mapa da animação mundial, ele passou a ser visto", afirma.
"Uma Atenção Especial" Após Dobradinha Inédita
Leticia Sato contextualiza que a indicação ao Oscar foi a culminação de um período de grande prestígio. No ano anterior, "Uma História de Amor e Fúria" já havia vencido o Festival de Annecy, na França, considerado o principal prêmio de animação do mundo. No ano seguinte, a vitória foi de "O Menino e o Mundo". Essa "dobradinha brasileira" inédita gerou um alerta na indústria. "A partir daí, as pessoas passaram a pensar: 'Hum, é um filme brasileiro? Ah, vamos dar uma atenção especial aqui'", conta a animadora. O filme passou a ser notado não apenas pela qualidade, mas por carregar a bandeira de uma cinematografia que se mostrava vibrante e original.
Orçamento Curto e a Luta pela Visibilidade
A produção brasileira enfrentou gigantes da indústria com recursos quase ilimitados. "O orçamento era curto, muito curto", desabafa Midori. Ela faz uma comparação que dimensiona o desafio: "Se não me engano, foi o filme 'Divertida Mente' que estava concorrendo ao Oscar no mesmo ano. Pelo orçamento deles, dava para fazer 200 'O Menino e o Mundo'". Essa disparidade se refletia diretamente na capacidade de divulgação. Para que o filme fosse visto pelos votantes da Academia nos Estados Unidos, foi preciso organizar uma campanha de arrecadação. "Teve que até ser feito uma vaquinha mesmo para poder divulgar nos Estados Unidos", relembra. A dificuldade era imensa, pois sem dinheiro para garantir a exibição em salas de cinema americanas, o filme corria o risco de sequer ser assistido por quem decidiria o prêmio.
A Identidade Brasileira como Grande Trunfo
Vivendo atualmente na Suíça, Leticia Midori Sato tem uma visão privilegiada do que atrai o olhar estrangeiro para o Brasil. Segundo ela, é a identidade cultural inconfundível que serve como o maior diferencial competitivo. "Eles falam: 'nossa, mas como é que vocês chegaram naquelas cores? E aquelas criaturas? E o jeito de falar?'", descreve. Ela explica que, mesmo quando a mensagem é universal, a forma de contar a história é percebida como singular. "Para eles é uma coisa muito diferente, porque sim, as paisagens são diferentes, a luz que nós recebemos é diferente também do sol, a temperatura muda, o que comemos, então tudo isso influencia e mostra uma coisa única", analisa. É essa brasilidade, segundo ela, que faz com que o mundo esteja "com os olhos bem abertos" para o que o país tem a mostrar.
Mais que uma Onda, uma "Elevação de Patamar"
Observando de longe a repercussão de "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto", Sato sente que o momento atual é mais profundo do que um sucesso passageiro. Ela conta que hoje é comum ser abordada por europeus curiosos sobre o cinema brasileiro, algo que não acontecia quando chegou ao país. Esse interesse crescente a leva a uma conclusão otimista sobre o futuro. "Eu entendo que as indicações não são somente uma onda, mas é uma elevação de patamar", aposta. "Acho que a partir de agora, as pessoas que são da área ou que gostam de cinema vão olhar para o cinema brasileiro, para as produções em live action ou em animação, com olhos mais atentos".
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