
Cozinha brasileira chama atenção do mercado internacional
Divulgação/Band
Pelo segundo ano seguido, o Brasil tem representantes no Oscar, sendo quatro indicações por Agente Secreto. Mas não é apenas no cinema que o "Brasil está on" mundo afora. O Brasilcore, nome dado à tendência da estética brasileira, ultrapassa fronteiras, ganha o mundo e impulsiona o mercado cultural. Nas redes sociais a # com o termo tem mais de 500 milhões de visualizações.
Moda, gastronomia, música, literatura e cinema: as artes ganham destaque em um período em que o mundo vive a xenofobia e o preconceito em algumas nações.
Mas, é na gastronomia que a gente inicia o debate sobre identidade e visibilidade aqui na BandNews FM.
O Despertar Latino e a Gastrodiplomacia
Para o chef Rodrigo Oliveira, do renomado Mocotó, o grande impulso do Brasil no cenário mundial veio ao "surfar a onda da cozinha latina". Ele explica que, culturalmente, o país nunca se sentiu parte da América Latina, buscando inspiração na Europa, Ásia ou América do Norte. A criação de prêmios como o 50 Best Latin America forçou o Brasil a se enxergar como parte do continente.
"A gente nunca olhou para os nossos irmãos aqui, os vizinhos, em busca de inspiração. Eu sinto que a gente está cada vez mais orgulhoso da nossa latinidade", avalia. Rodrigo destaca o conceito de gastrodiplomacia, citando o Peru como um caso de sucesso onde a culinária se tornou um plano de governo, gerando impactos na economia e na imagem do país.
Apesar disso, ele critica a demora para que grandes eventos gastronômicos chegassem ao Brasil. "Poxa, por que demorou 10 anos para o 50 Best Latin America finalmente chegar aqui? Você via cidades muito menores, como Buenos Aires, com muito mais restaurantes representados do que São Paulo e Rio", questiona.
O Desafio e o Trunfo da Diversidade
O chef do Mocotó também aponta para o principal desafio interno: a falta de conhecimento sobre a própria cultura. Ele ilustra com uma pergunta: mais pessoas na rua saberiam explicar o que é um temaki japonês ou um tacacá amazônico? "Geograficamente, quem está mais perto da gente, né? Amazônia ou Japão? Esse é o trabalho. Como a gente aproxima isso das pessoas?", reflete.
Essa diversidade, do churrasco gaúcho ao acarajé baiano, é vista por ele como o grande trunfo do Brasil. A questão, no entanto, permanece: qual é o conceito brasileiro capaz de conquistar o mundo, como o ceviche fez pelo Peru? "O ceviche não é uma receita, é um conceito. Qual é o conceito brasileiro que é capaz de carregar o Brasil como um todo? Essa é a nossa busca agora", finaliza.
Sabor Brasileiro Sem Fronteiras
Em Londres, o chef Rafael Cagali, do restaurante Da Terra, com duas estrelas Michelin, vive essa realidade na prática. Para ele, o desafio também é superar os estereótipos e a dificuldade de acesso a ingredientes de qualidade. "O pessoal associa a culinária brasileira com aquela coisa bem tipo, é uma feijoada, é um churrasco, é uma caipirinha. As limitações da exportação do produto bom que tem aí no Brasil, que chega até mim, é praticamente impossível", explica.
Para contornar a barreira, Cagali aposta em uma introdução criativa dos sabores. "A gente tenta fazer uma jogada com alguns pratos, que resgate o sabor, mas que visualmente não tem nada a ver", detalha. A moqueca, por exemplo, virou o prato assinatura. "Eu sou o único brasileiro do restaurante. Hoje eu tenho um inglês fazendo moqueca. O cliente até volta e fala que esse é o melhor prato do menu", orgulha-se.



