
Especialista avalia que interesse no petróleo é a razão da ação dos EUA que atacaram Caracas, na Venezuela, neste sábado (03)
REPRODUÇÃO/REUTERS
Os Estados Unidos realizaram, ao longo da madrugada, uma incursão militar contra a Venezuela, ampliando de forma significativa a tensão política e diplomática na América Latina. O ataque, que já vinha sendo anunciado pelo presidente norte-americano Donald Trump há meses, ocorreu em meio a um cenário de escalada militar, sanções econômicas e disputas estratégicas envolvendo o petróleo venezuelano. Maduro será indiciado no Distrito de Nova York por crimes relacionados ao narcoterrorismo, com acusações de envolvimento em uma campanha considerada mortal contra cidadãos dos Estados Unidos e também contra a população venezuelana.
Em entrevista à BandNews FM, o professor de Relações Internacionais, Leonardo Trevisan, afirma que a principal característica de Donald Trump é a imprevisibilidade, o que dificulta qualquer tentativa de antecipar os próximos movimentos dos Estados Unidos.
Segundo ele, no entanto, o ataque não foi um ato isolado, mas resultado de uma escalada gradual iniciada meses atrás, com o envio de destroyers, reforço naval e a presença de um porta-aviões na região.
Trevisan destacou que, paralelamente à pressão militar, Washington manteve gestões diplomáticas e interesses econômicos ativos, especialmente ligados ao setor energético.
A Chevron, petrolífera norte-americana, era até recentemente a única empresa dos Estados Unidos autorizada a operar na Venezuela após o alívio de sanções. Para o especialista, esse contexto expõe uma contradição central da ofensiva: atacar um país que fornece petróleo estratégico ao mercado americano.
Petróleo no centro da estratégia dos Estados Unidos
Na avaliação do professor, o discurso de combate ao narcotráfico usado por Washington serve como justificativa política, mas o objetivo central da ação é o controle ou a influência sobre as reservas de petróleo venezuelanas. A Venezuela possui uma das maiores reservas do mundo, o que a torna peça-chave no tabuleiro geopolítico internacional.
Militares mantêm controle do poder na Venezuela
Apesar das especulações sobre uma eventual queda de Maduro, Leonardo Trevisan avalia que a estrutura de poder na Venezuela tende a permanecer como está ou com poucas mudanças.
De acordo com o professor, o poder real no país está concentrado nas Forças Armadas, profundamente integradas à economia nacional desde os últimos anos do governo de Hugo Chávez.
Para o especialista, mesmo que Maduro deixe a cena política, isso não significaria automaticamente uma transição democrática. “O poder continuará nas mãos dos militares venezuelanos”, afirmou, ao descartar uma ocupação direta dos Estados Unidos, que exigiria um contingente muito maior de tropas do que o atualmente mobilizado.
Risco de guerra civil preocupa região
Outro ponto de atenção levantado por Trevisan é o risco de uma guerra civil na Venezuela. Segundo ele, esse é o cenário mais grave e com maior potencial de impacto regional.
Informações da imprensa norte-americana indicam que parte da população venezuelana teria ido às ruas comemorar a ação dos Estados Unidos, na expectativa de uma mudança de governo.
O professor alertou que, caso o conflito interno se prolongue, a tendência é de um novo e intenso fluxo migratório. Atualmente, cerca de um quarto da população venezuelana já deixou o país, com milhões de refugiados espalhados por países como Colômbia, Peru, Argentina e Brasil. Uma guerra civil poderia agravar ainda mais essa crise humanitária.
Trevisan lembrou que, apesar da repressão e das denúncias de fraude eleitoral, parte significativa da população venezuelana demonstrou, nas urnas, o desejo por mudança e por um governo mais estável. No entanto, ele avalia que a resolução desse impasse vai depender, sobretudo, das negociações com o comando militar do país.
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