
Herpes Zoster
Reprodução/Ministério da Saúde
Está em discussão no Brasil a incorporação da vacina contra herpes zoster no SUS para a prevenção em idosos a partir de 80 anos e pessoas imunocomprometidas a partir de 18 anos. Uma consulta pública sobre o tema foi aberta recentemente e, em breve, os resultados serão conhecidos pela população.
Falar sobre o herpes zoster é fundamental pois, apesar do aumento de casos e de internações pela doença (alta de 10% entre 2023 e 2024, segundo o Ministério da Saúde), muita gente ainda desconhece esta condição.
"O herpes zoster ainda é pouco conhecido, mas tem um impacto enorme na vida das pessoas. Nosso compromisso é continuar trabalhando para ampliar o debate e o acesso à imunização no Brasil”, afirma Soraya Araújo, da Colabore com o Futuro, primeiro negócio social dedicado ao advocacy em saúde na América Latina.
O infectologista Renato Kfouri, integrante do Grupo Consultivo Estratégico sobre Doenças Preveníveis por Vacinas da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), lista cinco informações fundamentais para aumentar a conscientização sobre a doença:
1. O que é o herpes zoster e por que ele pode surgir anos depois da catapora? Quem tem mais risco de desenvolver a doença?
O herpes zoster é uma reativação do vírus da catapora, conhecido como Varicella Zoster. A infecção inicial geralmente acontece na infância, antes da introdução da vacina contra a catapora. “Por isso, estima-se que cerca de 95% dos adultos acima de 50 anos já tenham entrado em contato com o vírus, mesmo aqueles que acreditam nunca ter tido a doença”, ressalta Renato Kfouri.
O infectologista explica que este vírus pertence à família dos herpesvírus e tem uma característica importante: ele não é completamente eliminado do corpo. Após a infecção aguda, o vírus fica adormecido nos gânglios nervosos próximos à coluna vertebral. Com o passar dos anos, fatores como envelhecimento ou queda da imunidade podem “acordar” o vírus, que percorre o caminho inverso dos nervos até a pele, causando as lesões típicas do herpes zoster — bolhosas e muito dolorosas.
“O principal fator de risco é a idade. O risco aumenta progressivamente e, entre pessoas com mais de 80 anos, mais de um terço já apresentou a doença. Também há maior vulnerabilidade entre pacientes com imunidade comprometida, como pessoas com câncer, HIV, diabetes ou transplantadas”, destaca o médico.
2. Quais são os sintomas e complicações mais comuns do herpes zoster?
O herpes zoster provoca lesões dolorosas na pele, que geralmente aparecem em um único lado do corpo, acompanhando o trajeto de um nervo. Essas feridas tendem a secar e cicatrizar entre 7 e 14 dias. No entanto, o maior desafio muitas vezes é a dor intensa, causada pela inflamação do nervo, que pode persistir mesmo após o desaparecimento das lesões.
“Essa dor prolongada é chamada de neuralgia pós-herpética, uma das complicações mais conhecidas e incapacitantes da doença. O risco de desenvolvê-la aumenta com a idade, e o controle é difícil, especialmente em idosos”, ressalta Kfouri.
Outras complicações incluem problemas oculares (quando o vírus afeta o nervo oftálmico), infecções secundárias da pele e doenças cardiovasculares. Estudos recentes mostram que o processo inflamatório desencadeado pelo zoster pode atingir os vasos sanguíneos, aumentando o risco de AVC e infarto nas semanas seguintes ao episódio agudo.
3. Por que pessoas com mais de 50 anos ou com imunidade baixa têm maior risco de desenvolver a doença?
Com o envelhecimento, o sistema imunológico passa por um processo natural de enfraquecimento, conhecido como imunossenescência. Isso reduz a capacidade de o organismo manter o vírus adormecido, permitindo sua reativação.
“Da mesma forma, condições que comprometem a imunidade, como tratamentos oncológicos, uso de medicamentos imunossupressores, infecção pelo HIV ou doenças crônicas, também facilitam a reativação do vírus. Por isso, o herpes zoster é mais comum a partir dos 50 anos e especialmente frequente em pessoas com imunidade reduzida”, destaca o infectologista.
4. O herpes zoster é contagioso? Existe vacina para prevenir a doença?
O herpes zoster não é contagioso, ninguém “pega” de outra pessoa. O que acontece é a reativação do vírus que já estava no organismo desde a infecção pela catapora.
“A boa notícia é que existem vacinas eficazes para prevenir a doença. Uma nova vacina de segunda geração, mais moderna e segura, é indicada a partir dos 50 anos e também pode ser aplicada em imunocomprometidos a partir dos 18 anos. O esquema consiste em duas doses, com intervalo de dois meses, e oferece proteção entre 90% e 95%”, acrescenta Kfouri.
Além de prevenir o episódio agudo da doença, a vacina também reduz o risco de neuralgia pós-herpética. Os efeitos colaterais são leves (em geral, apenas dor local) e o benefício é significativo, especialmente para pessoas mais velhas. O Ministério da Saúde estuda incluir a vacina contra o herpes zoster no Programa Nacional de Imunizações (PNI), começando pelos grupos mais vulneráveis, como idosos acima de 80 anos e pacientes imunossuprimidos.
5. O herpes zoster pode deixar sequelas mesmo depois que as lesões desaparecem?
Sim. “Mesmo após a recuperação das feridas, algumas pessoas continuam sentindo dor crônica no trajeto do nervo afetado, caracterizada como neuralgia pós-herpética. Essa dor pode durar meses e, em alguns casos, anos, afetando significativamente a qualidade de vida”, afirma Renato Kfouri.
“Além disso, estudos recentes têm associado o herpes zoster a outros efeitos de longo prazo, como aumento do risco cardiovascular e até maior incidência de demência, incluindo Alzheimer, embora essa relação ainda esteja em estudo”, aponta o médico.
Por isso, a prevenção, por meio da vacinação, é essencial para evitar não apenas a doença, mas também suas possíveis complicações e sequelas.
Um Projeto de Lei que propõe instituir o Dia Nacional de Conscientização sobre o Herpes Zoster, em 4 de junho, está em tramitação no Congresso. A intenção é que a criação da data sirva como instrumento para aumentar a informação da população e incentivar a prevenção.

