A música brasileira está cada vez mais presente nos quatro cantos do mundo e os números comprovam. As receitas geradas por artistas brasileiros apenas no Spotify, principal plataforma de áudio, ultrapassaram a marca de R$ 1,5 bilhão em 2025, o que representa um crescimento de 31% em relação ao ano anterior. Esse foi o tema do segundo episódio da série Brasil Tá On, original da BandNews FM.
O sucesso se reflete também na audiência. As músicas do Brasil foram tocadas bilhões de vezes por ouvintes em outros países, um aumento de 19% em comparação com 2024. "A música brasileira é contagiante. O beat leva a gente", afirma Kaique Alves, showrunner da produtora Kondzilla. A prova disso vem de relatos pessoais: "Viajei pra Grécia, tava tocando funk, MC Livinho. Toda vez que eu vou pra Dubai, toca Bum bum Tam tam", conta.
Da Bossa Nova ao Funk: A reinvenção da identidade musical
Apesar do otimismo dos números atuais, o único momento em que a música brasileira se internacionalizou de forma maciça foi com a Bossa Nova. Para o crítico musical Hugo Sukman, o ponto de virada foi "o famoso show da Bossa Nova no Carnegie Hall de Nova York", em 1962. "Até hoje é a cara do Brasil", afirma. Segundo ele, o sucesso se deu por ter "uma característica muito brasileira e, ao mesmo tempo, uma linguagem internacional. Harmonicamente é parecido com jazz. Enfim, eu acho que o mundo consegue entender isso".
Hoje, outros ritmos mostram potencial semelhante. "O grande universo que o funk agora pegou, das periferias, dos guetos do Rio de Janeiro, e essa vasta tradição também da música nordestina", avalia Sukman.
O gerente de artistas e repertórios da Som Livre, Alan Lopes, concorda que a demanda é diversa: "O Brasil está interessante por si só", diz. Para ele, o fator decisivo para uma música furar a bolha é a qualidade. "Se a música é boa, se ela passa um sentimento, mesmo que você não entenda a língua, você vai sentir. A gente durante muitos anos aqui no Brasil se identificou e ouviu músicas que cantam em inglês sem nem entender, mas a gente sim, batia no nosso coração".
Estratégia e consistência: Os próximos passos para a consolidação
A qualidade artística, porém, não garante o sucesso. Para os especialistas, a falta de uma política de Estado para a promoção da cultura é um entrave histórico. "O Estado brasileiro não leva a sério essa ideia de promover esse ativo brasileiro que é a música. A gente promove carne, promove café, e não promove a música", lamenta Hugo Sukman. Na ausência desse apoio, o caminho é a estratégia individual. "Não adianta você lançar aqui no Brasil e achar que os Estados Unidos, a Europa, a América Latina, vai ver. Você tem que fazer um trabalho direcionado para isso", pontua Alan Lopes.
Kaique Alves reforça a necessidade de lobby para superar barreiras, como a baixa representatividade do Brasil nas premiações. "O Grammy Latino só ganha a galera da Colômbia, México (...). E o Brasil só ganha a categoria de língua portuguesa. Como que a gente fura as categorias gringas? É uma série de fatores: o momento do Brasil, investimento na cultura, relacionamento, marketing", questiona.
A solução, segundo Lopes, é a consistência. "O Jota vem construindo uma relação com a Europa, com turnês todo ano. Ele vai lá, planta a semente dele e no ano seguinte ele colhe shows maiores", detalha. É uma visão de longo prazo: "A gente constrói, a médio e longo prazo, uma carreira internacional".
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